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Chico Alves


Generais desprezam previsões de documento do Ministério da Defesa

15.mai.2018 - Pelotão de alunos marcha na parte externa da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP) - Marcelo Justo/UOL
15.mai.2018 - Pelotão de alunos marcha na parte externa da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP) Imagem: Marcelo Justo/UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

11/02/2020 04h00

Ainda repercute nos altos escalões militares o documento "Cenários de Defesa 2040", revelado pelo repórter Igor Gielow, da Folha de S. Paulo. O texto é uma tentativa de prever potenciais episódios de conflitos que poderiam mobilizar as Forças Armadas nas próximas duas décadas. O resultado, no entanto, é uma sequência de tramas inverossímeis, como, por exemplo, uma hipotética intenção da França de internacionalizar a Amazônia, um entrevero militar com a Bolívia e um atentado terrorista no Rock in Rio, em 2039.

"Dei gargalhadas quando li o documento", admitiu um dos quatro generais ouvidos pela coluna, em condição de anonimato. Outro oficial da mesma patente desmancha de saída a principal tese do estudo: " Achei despropositada a conclusão sobre a ameaça francesa". Ironicamente, ele classifica os autores das previsões como "visionários" e não acredita que o trabalho vá ser levado a sério pelos comandantes das Forças Armadas.

Se for assim, o Ministério da Defesa perdeu tempo precioso com 500 entrevistados nas onze reuniões organizadas pela Escola Superior de Guerra (ESG) no ano passado. Foram ouvidos militares e civis.

O texto que se pretende técnico acaba por ecoar conceitos ideológicos defendidos pelo governo Bolsonaro, como a criminalização dos grupos que lutam pela preservação da natureza. Em uma das previsões, por exemplo, uma organização ambientalista realizaria atentado terrorista em 2037 contra uma empresa norueguesa de exploração de alumínio, causando a morte de dezenas de pessoas. Outro trecho, de pretensa análise política, preconiza a volta do voto de papel.

Entre os possíveis riscos, nenhuma linha sobre as consequências de um alinhamento automático com os Estados Unidos. No caso do apoio brasileiro ao ataque americano que matou o general iraniano Qasem Soleimani, houve temor de represália contra o Brasil.

Em nota, o Ministério da Defesa explicou que "trata-se de trabalho acadêmico, desenvolvido no âmbito de uma escola, que reflete a primeira fase de um estudo preparatório, sendo importante destacar que cenários prospectivos são ferramentas empregadas por qualquer corporação ou país de sucesso".

O argumento não convence. "Se um documento desses não tiver uma metodologia de alto nível, não for muito bem embasado, perde a credibilidade", disse um dos generais ouvidos pela coluna. "Montagem de cenários é um recurso que deve ter uma metodologia muito apurada, parâmetros e uma dose grande de percepção. Não é adivinhação nem futurologia".

A embaixada da França no Brasil comentou o relatório, dizendo que é resultado de uma "imaginação sem limites". Oficiais generais brasileiros da reserva e da ativa têm a mesma opinião.

Chico Alves