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Chico Alves


Nos insultos a Patricia, Congresso mostra que se acostumou aos absurdos

Hans River em depoimento na CPI das Fake News - Reprodução YouTube
Hans River em depoimento na CPI das Fake News Imagem: Reprodução YouTube
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

12/02/2020 04h00

Como todos os parlamentos do mundo, o Congresso brasileiro abriga no seu cotidiano momentos edificantes e episódios asquerosos. Preocupa, porém, o recente aumento da ocorrência de cenas que se enquadram no segundo caso. Confirmando essa tendência, ontem, na CPMI das Fake News, a Casa viveu um desses momentos sórdidos.

Convocado para explicar o disparo em massa de mensagens mentirosas via WhatsApp durante a campanha eleitoral, como relatou a jornalista Patrícia Campos Mello, o depoente Hans River partiu para a ofensa. Desmentiu o conteúdo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo e acusou com todas as letras a repórter de se insinuar sexualmente para ele, em troca de informações.

Diante do insulto público, a sessão deveria ter sido interrompida e o depoente, repreendido. Mas não. A inquirição não só seguiu normalmente, como contou com a participação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) para corroborar a ofensa. "Não duvido que a sra. Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro".

Dessa forma aviltante, o deputado mais votado de São Paulo se referiu à multipremiada Patrícia, detentora, entre outros, do International Press Freedom Award e do Prêmio Rei de Espanha. Na fala, que revelou muito mais sobre ele do que sobre ela, deixou de lado o pudor para caluniar a jornalista. O objetivo final era desqualificá-la, para tentar minar, assim, a série de reportagens que denuncia a fábrica de fake news que funcionou na campanha presidencial.

Como de praxe, logo em seguida surgiu nas redes sociais o já rotineiro linchamento, promovido por apoiadores do presidente Bolsonaro.

Ninguém, nem mesmo os criminosos condenados, são obrigados a concordar com reportagens publicadas contra suas condutas. Mas esses insatisfeitos têm meios civilizados de reclamar ou pedir reparação. A Justiça é o caminho. O filho 03 do presidente preferiu, no entanto, atacar de forma vil a jornalista sem qualquer prova, com base apenas na fala do depoente.

Hans River, aliás, foi desmentido em vários pontos de sua fala, poucos minutos depois do encerramento da sessão da CPMI. A jornalista publicou uma série de afirmações mentirosas feitas pelo depoente, comparadas com as afirmações que fez à Folha, meses atrás, todas documentadas. Por falso testemunho à comissão, River corre o risco de pegar dois anos de cadeia.

A lamentável ocorrência é mais um dos vários contratempos que a jornalista da Folha enfrenta desde que começou a levantar novidades sobre os disparos em massa de WhatsApp durante as eleições. Patrícia foi malhada por bolsonaristas nas redes, mas não abandonou o assunto. Ontem, chegou aos trend topics do Twitter.

Nesse país machista, a obstinada repórter sentiu mais uma vez na pele como é difícil para uma mulher desempenhar sua função, ainda mais quando enfrenta grupos poderosos. Diante do avanço feminino, sempre haverá quem use alguma baixaria sexista para desvalorizar a autora da proeza.

Apesar de incômoda, a reação violenta pode ser vista, porém, como sinal de desespero dos denunciados. O tempo dirá.

O ocorrido entra para a galeria de momentos lamentáveis do Parlamento brasileiro e, diante da falta de reação imediata, pode servir de alerta aos políticos eleitos. Até que ponto vai-se continuar banalizando absurdos na rotina da Câmara e do Senado? Há na legislação instrumentos para coibir abusos e eles devem ser usados.

Também fora do Congresso é preciso que paremos de agir como se tudo estivesse normal. Quando políticos eleitos e seus apoiadores se sentem à vontade para triturar reputações com um sorriso nos lábios, é sinal que o país pegou o caminho errado. Essa correção de rota deve ser feita urgentemente.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no 3º parágrafo do texto, Eduardo Bolsonaro é filiado ao PSL/SP, e não ao PSDB/SP. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves