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Chico Alves


Machado de Assis proibidão e a livraria do subúrbio

Quadro anuncia "Machado de Assis Proibidão" - Divulgação
Quadro anuncia "Machado de Assis Proibidão" Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

15/02/2020 04h00

A estreita porta de entrada dá a impressão de que a lojinha é ainda mais apertada do que realmente é. Lá dentro, Graciliano Ramos, Erick Hobsbawm, Simone de Beauvoir, Paulo Coelho e milhares de outros autores se apertam no espaço dos dois pequenos cômodos da Belle Époque - Discos e Livros, um dos raros sebos do subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro do Méier.

Antes de entrar, um quadro escrito a giz pelo dono do estabelecimento, Ivan Costa, convida o visitante à transgressão: "Temos Machado de Assis Proibidão!"

O aviso ironiza a ameaça de censura da Secretaria de Educação de Rondônia a 43 livros que deveriam ser recolhidos das escolas públicas do estado. O memorando do secretário, cancelado depois da grita geral, dizia que as obras são inadequadas para crianças e adolescentes.

Estavam no índex de Rondônia autores como Caio Fernando Abreu, Carlos Heitor Cony, Euclides da Cunha, Ferreira Gullar, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Edgar Allan Poe, Mário de Andrade, Franz Kafka e... Machado de Assis.

Como reação, Ivan resolveu dar ao fundador da Academia Brasileira de Letras o mesmo status dos artistas renegados de hoje. "Assim como os funkeiros, também querem transformar Machado em 'proibidão'", compara. Postada nas redes sociais, a foto da mensagem na lousa viralizou. Foi replicada por todo o Brasil e também em Portugal.

O movimento na internet foi longe, mas, para Ivan, o melhor pôde ser observado bem perto. O burburinho despertou a curiosidade dos estudantes da escola estadual Visconde de Cairu, que funciona do outro lado da rua. "Armamos um mini debate com os alunos sobre essa história da censura em Rondônia", conta.

O livreiro Ivan Costa e o gato Mingau - Divulgação
O livreiro Ivan Costa e o gato Mingau
Imagem: Divulgação

Na contramão do secretário de Educação rondoniense, Ivan é apaixonado pelos livros. "Tenho paixão, mas não tenho apego", faz questão de observar. Nesses dias em que grandes livrarias estão falindo e os leitores já se acostumaram com e-books, ele rema contra a maré. Ainda mais no subúrbio, onde poucos sebos sobrevivem.

Abriu a Belle Époque há dois anos e tenta se manter como pode. No fim do ano passado, quase fechou as portas. "Sempre atraso o aluguel, mas a proprietária me dá um prazo maior, entende que trabalhar com livros não é fácil", explica.

Ele continua firme no ofício e fala com entusiasmo dos 6 mil títulos da livraria, por onde passeia tranquilo o gato Mingau (graças à filha Luiza, de 6 anos, o bichano escapou de ser batizado de Hemingway).

Tem prazer especial em encontrar livros que os clientes nunca conseguem achar. Recorda quando localizou o romance histórico "Tai Pan", de James Clavell, que uma senhora procurava há tempos."Na hora que entreguei o livro, vi os olhos dela marejados".

O livreiro sabe muito bem que as obras não contam somente as histórias imaginadas pelos autores. Também os leitores algumas vezes deixam nas páginas as marcas de suas vidas.

Livraria Belle Époque - Divulgação
Livraria Belle Époque
Imagem: Divulgação

Foi assim com a edição francesa de "Poemas de amor de Oscar Wilde" que ele tem no acervo, na qual alguém guardou uma carta escrita à mão, datada de fevereiro de 1932, para registrar o fim de uma relação.

"Você faleceu moralmente para mim", diz o manuscrito. "Eis porque nenhuma lembrança sua, material ou espiritual, por mim foi guardada. Assim, devolvo-lhe a única coisa sua (presumo eu) que ainda tenho comigo". A mensagem tornou-se inesquecível para o livreiro. "É emocionante saber que esse livro foi o último laço entre duas pessoas que provavelmente se amavam", explica.

Assim como todos os que trabalham em sebos, Ivan guarda lembranças que os vendedores de livros digitais jamais terão.

Cita o registro histórico encontrado entre as páginas de uma obra: o bilhete da última viagem de Maria Fumaça (trem a vapor) e o bilhete da primeira viagem no trem elétrico. De outro livro, "Onde o proletariado dirige", de Osório César, não esquece a beleza da capa, criada pela artista plástica Tarsila do Amaral, casada com o autor. Cada título tem sua particularidade.

Das muitas histórias, guarda uma em especial, que poderia muito bem servir de lição ao secretário de Educação de Rondônia. "Há dois anos, uma das alunas do colégio que funciona em frente começou a se interessar pelos livros de Sociologia. Comprou alguns, mas outras vezes não tinha dinheiro. Disse que ela levasse as obras sem se preocupar com o pagamento", conta.

A aluna terminou o Ensino Médio em 2018 e foi à livraria se despedir. Um ano depois, no fim de 2019, Ivan leu no Facebook o agradecimento público da mãe da moça. "Ela agradecia porque a livraria despertou o gosto da leitura na filha dela, que foi repetente dois anos seguidos. Depois disso, retomou os estudos, fez vestibular e passou para Antropologia na Universidade Federal Fluminense". Ao ler a mensagem da mãe, o livreiro chorou. "É como se algo estivesse me dizendo pra continuar, porque o trabalho está dando certo".

Ivan participa de vários grupos de leitura no Facebook, um deles com mais de 80 mil integrantes. Aos poucos, o sebo vai atraindo interessados pela leitura e mantendo clientes fiéis, que ajudam nos eventos que divulgam o lugar e reforçam o caixa. "Muita gente ainda se encanta com os livros, isso nunca vai acabar", acredita. Para ele, a internet pode ser uma grande aliada da literatura, na contramão de qualquer tentativa de censura.

Foi assim no caso do "Machado de Assis proibidão". Além de fazer um pequeno sebo do subúrbio carioca ficar conhecido no Brasil e no exterior, as redes sociais colocaram mais uma vez em pauta o maior autor brasileiro. "Vendi todas as oito edições de 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' que eu tinha aqui", comenta. "A força dos livros ninguém segura".

A 2.500 quilômetros de distância, o livreiro do Méier manda o recado. Seria bom que os governantes de Rondônia pudessem ouvir.

Chico Alves