PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Quando Bolsonaro foi mais sensato que o general que deveria aconselhá-lo

10,jul.2019 - General Augusto Heleno, chefe do GSI - FÁTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
10,jul.2019 - General Augusto Heleno, chefe do GSI Imagem: FÁTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

19/02/2020 16h23

Consumada a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, houve preocupação por conta de seus arroubos e temperamento explosivo, incompatíveis com cargo tão importante. Diante desse risco, a participação de generais da ativa e da reserva no governo foi vista como providencial para conter excessos. A política brasileira, no entanto, anda tão enlouquecida que é capaz de virar tudo do avesso.

Foi o que aconteceu ontem. Irritado com a negociação entre o governo e o Congresso sobre o Orçamento Impositivo, o responsável pelo Gabinete de Segurança institucional, general Augusto Heleno, soltou um palavrão. Foi mais longe. Em outro momento aconselhou o presidente a convocar manifestantes às ruas contra o que chamou de chantagem dos parlamentares.

Deu-se nesse instante a inversão de papéis. O intempestivo Bolsonaro teve um lapso de discernimento e recomendou cautela, segundo relata o jornal O Globo. Mais: o presidente não deu ouvidos aos maus conselhos de seu principal conselheiro e (corretamente) mandou prosseguir a negociação com o Congresso.

Isso mesmo: no Brasil tresloucado em que vivemos hoje, o general cuja única função é evitar crises institucionais esteve a ponto de criar uma enorme turbulência. E o presidente, que é mestre em criar crises institucionais, evitou o pior.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, reagiu com palavras duras. Disse que Heleno se transformou em um "radical ideológico contra a democracia" e sugeriu que criasse um "gabinete de rede social", para tuitar e agredir, "como ele tem feito ao Parlamento nos últimos meses".

Maia acertou na mosca. O general de quatro estrelas que é responsável pelo GSI tem se destacado por trocar o comportamento ponderado e discreto dos militares por um ativismo de Twitter, onde bate boca com seus críticos como se fosse um Carluxo de cabelos brancos.

Apesar de todas as evidências, Heleno parece não enxergar que o governo desde o início abriu mão da articulação política no Congresso e esse desacerto está na raiz de todos os problemas vividos pelo Executivo. Política, feita com decência, é uma arte, não uma abominação, como imagina o general. Sem negociação com deputados e senadores, o governo não irá a lugar algum.

Por não querer negociar, o ministro do GSI cogitou agitar o país, indo na contramão daquela que deveria ser sua função.

Ouvidos pela coluna, três generais da reserva criticaram o comportamento belicoso de Heleno. Um deles levantou a possibilidade de que esteja passando por problemas de saúde. Outro disse que tem faltado ao general o ingrediente fundamental para quem cuida da segurança das instituições: equilíbrio. "Chamar o povo para as ruas é populismo barato, inconsequência. Autoridade tem que governar e transmitir paz e tranquilidade", disse esse oficial, sob condição de anonimato.

Por incrível que pareça, dessa vez o responsável pela pacificação foi Bolsonaro, protagonista de episódios tão reprováveis em seus pronunciamentos no cercadinho do Palácio da Alvorada.

Chegado a rompantes e explosões de raiva, o presidente conseguiu ser mais sensato que o general que comanda o Gabinete de Segurança Institucional. Talvez não haja maior sinal de que as coisas no governo estão realmente mal paradas

Chico Alves