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Chico Alves


"Fora de contexto", diz general com foto estampada em convocação de ato

Deputado General Peternelli - Divulgação
Deputado General Peternelli Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

26/02/2020 10h37

O deputado federal General Peternelli (PSL-SP) foi um dos quatro oficiais do Exército que teve sua foto, de farda, estampada na convocação para a manifestação de apoiadores do governo, marcada para o dia 15. Ele irá ao ato, mas não concorda com as palavras de ordem que estão abaixo da imagem, onde se lê "Fora Maia e Alcolumbre" e "Os generais aguardam as ordens do povo".

" As pessoas que me conhecem, inclusive o Maia e o Alcolumbre, sabem que meu foco não é esse", explica o general da reserva.

Peternelli diz que vai à manifestação porque não concorda com a forma como está sendo encaminhada no Congresso a questão do chamado orçamento impositivo. Mas não apoia discursos que se coloquem contra a lei. "A radicalização não é produtiva para o país", afirma.

Além de Peternelli, aparecem em um dos convites para o ato que circulam nas redes sociais, os generais Hamilton Mourão (vice-presidente), Augusto Heleno (ministro do Gabinete de Segurança Institucional) e Mário Araújo (secretário de Segurança Pública de Minas Gerais). Todos fardados, numa clara tentativa demonstrar que o ato tem apoio das Forças Armadas.

O deputado rejeita a ideia intervencionista: "As Forças Armadas são instituições de Estado , fora do contexto político-partidário. Quem me conhece e viu a imagem, sabe que aquilo é uma montagem que não corresponde de à realidade".

A entrevista feita por telefone já havia sido encerrada, quando surgiu a informação, dada pela jornalista Vera Magalhães, de que o presidente Jair Bolsonaro enviou convocação para o ato usando seu próprio celular. Duas novas perguntas sobre esse assunto foram enviadas por WhatsApp a Petternelli, que respondeu de forma protocolar.

UOL - O que o sr. acha da forma como o general Heleno criticou o Congresso por causa dos debates sobre o chamado orçamento impositivo?

General Peternelli - Aquela conversa do general Heleno criticando a pressão do Congresso acabou suscitando uma polêmica que não é do meu estilo. Ele reclamou em especial da parte do Orçamento, que colocou R$ 32 bilhões para o relator escolher como usar. É um valor muito expressivo. Nesse mesmo período tratamos do Fundeb, em que se pensou em alterar o repasse da União para 30%, enquanto a proposta do governo é 15%. Então temos os R$ 32 bilhões de Orçamento, temos o Fundeb, tem as emendas, que cogitou-se que fossem executadas num prazo de 90 dias. Se o governo for cumprir isso inviabiliza, o governo fica sem alternativa, não tem como cumprir o teto de gastos.

Se ficarmos engessando o orçamento... O próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, comenta que o orçamento está muito engessado.
Além do dinheiro em que cada parlamentar manda, além do dinheiro em que cada bancada manda, além do dinheiro em que cada comissão manda, ainda termos R$ 32 bilhões. Acho que não é necessário, né?

A discordância é normal numa democracia. O problema foi o tom usado pelo ministro do GSI, que chamou os parlamentares de chantagistas.

Não comento a fala de Heleno nem as falas dos presidentes da Câmara é do Senado. Não é do meu feitio. Temos que ter o foco no bem do povo brasileiro. Ali é a casa da conversa, do diálogo. Eu posso achar que é por um caminho, outro pode achar que é por outro caminho. Lá não adianta radicalizar nenhum ponto. Tem que conversar. Tem que pensar no povo brasileiro e não no governo Bolsonaro. Perguntar: essa proposta é boa para o Brasil ou não?

A sua foto, vestido de farda, foi usada na convocação para a manifestação do dia 15, que tem palavras de ordem "Fora Maia e Alcolumbre" e "Os generais aguardam as ordens do povo". O que achou disso?

Muitas vezes as pessoas usam coisas da gente e dão um foco que não é aquele que tínhamos interesse. Uma repórter me perguntou se eu iria desautorizar o uso da foto. Eu não quero entrar nessa polêmica. Se eu começo dizendo que sou contra, aí vem alguém e diz: "Ah, mas o sr. está contra uma manifestação popular que tem amparo legal?" Sempre digo que qualquer manifestação, seja contra ou a favor do governo, tem que ser feita dentro da lei.

Mas a manifestação tem sido convocada com essa pauta de derrubar os presidentes da Câmara e do Senado.

Não concordo com isso. Esse contexto não é adequado. As pessoas que me conhecem, inclusive o Maia e o Alcolumbre, sabem que meu foco não é esse. Em nenhum momento qualquer dos generais que estão na foto falaram "fora Alcolumbre" ou "fora Maia".

E esse chamado aos generais, que estariam aguardando as "ordens do povo"?

Essa ideia intervencionista já existe há mais de dois ou três anos. O próprio comandante do Exército, general Villas Bôas, e também eu já declaramos que as atividades devem ser feitas dentro do papel institucional. Não existe esse contexto que querem passar. Acho que não é adequado colocar as Forcas Armadas a favor ou contra... As Forças Armadas são instituições de Estado, fora do contexto político-partidário. Quem me conhece e viu a imagem, sabe que aquilo é uma montagem que não corresponde de à realidade.

Quando há essas manifestações, as pessoas perguntam: você vai ou não vai? Normalmente, quando a manifestação é em São Paulo eu vou, apresento meu ponto de vista. Essa coisa de dizer "abaixo" para um presidente de um poder não é do meu estilo. Hoje temos também muitas manifestações "Fora Bolsobaro". Do meu ponto de vista, a discussão nesse nível não é producente nem para um lado nem para o outro. A radicalização não é produtiva para o país.

Você nunca vai me ver fazendo discurso dentro de um quartel. Se eu ti esse que falar para os novos cadetes, novos soldados, a conversa deve ser só no aspecto funcional e institucional. Jamais sobre qualquer aspecto político-partidário.

O presidente Rodrigo Maia e o presidente Alcolumbre sabem que em nenhum momento usei esse fora isso ou fora aquilo. Mas a gente também vê muito "Fora Bolsonaro". Isso é parte do contexto democrático. O Brasil está consolidado nesse aspecto. Eu só lamento ter sido envolvido num contexto e ficar sem ter muita alternativa.

O que achou do próprio presidente ter usado o celular para enviar vídeo de convocação para a manifestação?

As manifestações dentro da lei e da ordem são válidas. Importante é a convivência salutar e pacífica entre os poderes. Temos que ter foco no Brasil e no bem comum dos brasileiros.

Mas o presidente convocar para uma manifestação crítica ao Congresso é algo inédito. Abre atrito com o Legislativo, não parece ser convivência salutar e pacífica.

Não vi isso nas redes do presidente.

Chico Alves