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Chico Alves


General critica associação de manifestação a golpe militar: "Idiotice"

18.mai.2019 ? O general Paulo Chagas - Eduardo Militão/UOL
18.mai.2019 ? O general Paulo Chagas Imagem: Eduardo Militão/UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/02/2020 12h43

Apesar de afinado com muitas ideias do presidente Jair Bolsonaro, o general da reserva Paulo Chagas, que foi candidato ao governo do Distrito Federal na última eleição, tem recebido várias críticas de bolsonaristas nas redes sociais. Tudo porque ele critica quem aposta no impasse entre o Legislativo e o Executivo, nesse momento em que há convocação de manifestação contra o Congresso para o dia 15.

"Me chamaram até de general melancia", contou ele à coluna, aos risos. O apelido é usado pela direita para rotular os oficiais que seriam verdes por fora e vermelhos por dentro, ou seja: usam farda, mas são "comunistas".

Nada mais longe da verdade. Chagas tem muitos pontos em comum com os bolsonaristas: critica a atuação de ONGs na Amazônia, tem péssimo conceito de Paulo Freire e foi acusado de defender medidas agressivas contra os ministros do Supremo Tribunal Federal. Por causa dos ataques ao STF, o oficial foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal, em abril.

Apesar desse perfil, critica aqueles que falam em golpe militar. "É uma minoria que ainda tem na cabeça a idiotice de que um governo autoritário, forte, um governo militar, vai resolver o problema do Brasil ", diz Chagas. Ele defende educação e cultura para que o povo amadureça e faça suas escolhas.

O general critica a proposta do chamado orçamento impositivo que colocaria recursos da ordem de R$ 32 bilhões sob responsabilidade do Legislativo, diminuindo o dinheiro à disposição do governo. Mas reconhece que a situação foi causada pela rejeição do presidente Bolsonaro a criar uma base parlamentar de apoio.

Nessa entrevista, o general Paulo Chagas rechaça também o uso da imagem de militares da Forças Armadas para associá-los à manifestação. "Fizeram isso dando essa conotação, a impressão aos menos avisados de que os militares estariam nessa", reclama. "Não é isso".

UOL - Por qual motivo o sr. acha que somente o amadurecimento dos brasileiros vai superar o impasse entre Legislativo e Executivo?

Paulo Chagas - A política é a forma de nos relacionarmos com o poder. O poder é do povo e quem exerce esse poder são os políticos. Então, nós temos que aprender a escolher os políticos que estão comprometidos com a sociedade, com o país. Isso só acontece através da maturidade.

Só quem põe o país para a frente é o próprio povo. À medida que a sociedade amadurece, superamos essa senóide em que nós vivemos no Brasil, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, sem um projeto de país. Andamos para os lados, como caranguejo, buscando o poder sem ter um projeto de país. Seja pelo caminho da esquerda ou da direita, todos devem se dirigir ao mesmo objetivo. Isso é o que eu chamo de amadurecimento.

De 2013 para cá, nós vimos um processo muito grande desse amadurecimento, o povo foi para a rua, gente que nunca tinha participado de manifestações, porque eram exclusivas de partidos políticos, ideologizados. Quem tem que ditar o rumo é o próprio povo.

A manifestação do dia 15 acirra esse impasse entre Legislativo e Executivo?

Pela maneira como isso está sendo tratado, a partir do comentário do general Heleno... Ele estava fazendo um desabafo, que não tem nada de oficial, com relação ao Congresso. E se criou uma bola de neve em torno disso aí...

Foi um comentário agressivo, em que ele disse haver chantagem por parte do Congresso.

Em um texto eu usei a palavra refém. Não se pode fazer nada sem o aval do Legislativo. Mas, de fato, o Executivo não tem e não pode ter liberdade para fazer tudo o que entende. Para isso existe o Legislativo, que tem como uma das funções fiscalizar. Está no papel dele fiscalizar. Mas não está no papel dele atrapalhar, nem tomar o poder do Executivo. Então, por exemplo, esses R$ 30 bilhões (do chamado orçamento impositivo), que ainda não é uma decisão... Essa manifestação do dia 15 é importante nesse sentido, porque há uma substituição de poder. Ou seja, o Legislativo tira do Executivo uma quantia de recurso que vai transferir a iniciativa do Executivo e passar para o Legislativo. Isso está errado.

Mas o sr. não acha que essa situação foi resultado da opção do presidente Bolsonaro de não ter base parlamentar no Congresso?

Não foi uma opção. Foi um erro estratégico o presidente não conseguir fazer uma base. Pelo contrário, no final das contas, ele dividiu a base. Ele tinha uma base no começo que, por força dessa incapacidade de manter unida, acabou se reduzindo a quase nada. Ele perdeu a capacidade de manobra no Congresso. E é fundamental ter uma base parlamentar.

O presidente não teve esse cuidado, talvez baseado na popularidade dele, na maneira como venceu as eleições. Isso pode ter dado a ele uma segurança exagerada e não se preocupou com isso, porque achou que sua base popular lhe daria respaldo dentro do Congresso.

Mas isso não é verdadeiro: tem que ter uma base, que não precisa ser fixa. Dou o exemplo do Kim Kataguiri, que não concorda com tudo que o governo propõe, mas concorda com 80%. Então, na maioria das vezes ele está na base. O amigo de hoje pode ser o inimigo de amanhã e vice-versa. Esse é o caminho. Tem que ter uma base que não precisa ser fixa e nem maioria absoluta, mas que tem que ter capacidade de articulação política, pra que vá buscar até voto do PT. Isso pra mim é que se chama articulação política.

O problema é que o presidente Bolsonaro e os bolsonaristas tratam qualquer negociação política como "toma lá dá cá".

Concordo. A articulação política não é "toma lá dá cá". É uma coisa lógica, que é tornada pública. Para mim, um dos grandes instrumentos da democracia é a publicidade. Você é jornalista e está aí para nos informar. Se o governo é bem-intencionado, como eu acho que é, falta trabalhar politicamente. E isso não é "toma lá da cá". É alguma coisa diferente disso, é algo tornado público, que o povo tem que saber.

Alguém diz: nós estamos sendo chantageados. Mas qual é a chantagem? Nós temos que saber. De que maneira o governo está sendo chantageado? Eu não sei. Mas gostaria de saber. Se eu souber, como cidadão vou aplaudir a denúncia e condenar a chantagem.

Mas chegamos ao ponto em que o governo não negocia, está à beira de uma grande derrota e opta por chamar o povo às ruas para apoiá-lo.

Foi isso que aconteceu. Fui candidato (a governador do Distrito Federal), não me elegi, mas na campanha muitas vezes me perguntaram: como o sr. vai trabalhar com os interesses da Câmara? Respondi que parto do princípio de que todos os que foram eleitos tiveram um discurso para os eleitores que não tratava dos seus interesses pessoais, mas de interesses da sociedade. Ou de parte da sociedade. Em função desse discurso eles estão lá.

Então, como governador, eu não negociaria interesses pessoais. Mas negociaria interesses da sociedade. Disse a repórteres que a imprensa estará do meu lado para ver tudo o que estaria acontecendo.

Como o sr. vê esses apelos para que haja um golpe militar?

Isso demonstra a nossa imaturidade. Eu fico triste, às vezes fico irritado ou revoltado. Conheço pessoas cultas que não enxergam outra saída para o Brasil que não um regime militar, um golpe militar. Falam em tomar o poder. São pessoas que já perderam a expectativa, ou são ansiosos demais, não respeitam o timing do nosso povo. Se você quiser acelerar o processo de amadurecimento, dê educação e cultura. Esqueça o Paulo Freire. Com educação e cultura o povo amadurece.

Como sr. recebeu críticas dos seguidores no Twitter por não apoiar soluções radicais?

Me chamaram de melancia (risos). A reação é normal. Mas eu vejo o seguinte: quantas pessoas comentaram? Vejo lá 130. Quantas pessoas botaram "like"? Foram 450. Quantas pessoas compartilharam? Foram 300. Quem compartilhou é porque concorda. Quem botou "like" é porque gostou. Além disso, nos comentários, somente 30% acharam horrível. Mas o restante, 70%, acharam que eu tenho razão. Então, não dou bola pra esses caras.

É uma minoria que ainda tem na cabeça a idiotice de que um governo autoritário, forte, um governo militar vai resolver o problema do Brasil. Poderá resolver alguns problemas, mas não o mais importante. Veja o regime militar que vivemos, que tirou o Brasil da 48ª posição na economia e botou na oitava, em 21 anos. Porém, quanto terminou, o povo votou e trouxe de volta todos aqueles que tinham sido excluídos do poder porque faziam mal para o país. E o povo preferiu. Por que?

Costumo dizer que nenhuma ditadura serve para o Brasil. Não considero o regime militar como uma ditadura, foi um regime autoritário, mas não totalitário. O regime totalitário foi o Estado Novo de Getúlio (Vargas) de 1937 a 1945. Nesse período de regime autoritário, o povo não amadureceu. O povo foi conduzido. Então ouve um discurso ideológico, utópico, que promete mundos e fundos, acredita e vota. Porque não tem maturidade política, e o regime autoritário conduz a isso.

Tem que ter a participação do povo e se preocupar em dar educação e cultura ao povo para entender o que é certo e o que é errado, o que é possível e o que não é possível, e participar. Principalmente ter condições de participar.

Algumas postagens de convocação para a manifestação do dia 15 apostam nessa ideia, com imagens de generais fardados.

Estão se aproveitando disso. Até o Santos Cruz se manifestou que as pessoas estavam usando o nome do Exército, como se o Exército, as Forças Armadas estivessem participando dessa manifestação. Não. Essa manifestação não tem nada a ver com a instituição. É possível que militares como eu e alguns da ativa que vão à manifestação como cidadãos, jamais como instituição. Mas eles fizeram isso dando essa conotação, a impressão aos menos avisados de que os militares estariam nessa. Colocaram a foto de quatro generais fardados, como se eles representassem o Exército nessa manifestação. Não é isso.

O sr. não acha que boa parte desse impasse se deve à retórica agressiva do presidente Bolsonaro?

Vi uma frase assim: a postura é do cargo, o temperamento é da pessoa. Tenho sido crítico a esse tipo de atitude, porque compromete o governo. Esse governo Bolsonaro é o melhor que nós já tivemos nos últimos 35 anos. Num ambiente internacional negativo, o Brasil está saindo do fundo do poço e botando a cara pra fora. Isso é altamente positivo e mostra a competência desse governo.

E onde se concentram as críticas mais contundentes? Justamente no temperamento do presidente. A minha opinião é que o presidente tem obrigação de controlar o temperamento dele. Ele não é mais deputado, é o presidente da República. E se o temperamento dele atrapalha ou prejudica o exercício do cargo, é obrigado a controlar.

Eu critico e muita gente me questiona. Falo não para derrubar o Bolsonaro, mas para consolidar o governo Bolsonaro. Se querem apoio incondicional, digo que isso se chama culto à personalidade, e eu estou fora. Apoio as propostas da pessoa. Quando se elege uma pessoa pelo nome dela, ela vai poder fazer o que bem entender. Quando se elege pelas propostas, é diferente. Esse será o limite da ação desse político: as suas propostas. Ele não representa a ele mesmo.

Como viu a divulgação feita do celular do próprio presidente com um vídeo de convocação para a manifestação?

A divulgação é uma interrogação. Ele mandou para alguns amigos e não para o Twitter. Aí, um dos amigos dele, o Alberto Fraga, entregou esse vídeo à imprensa. Além disso, a jornalista Vera Magalhães também teve acesso e deu a interpretação dela. Mas é importante perguntar: por que Alberto Fraga divulgou esse vídeo? Que amigo é esse, que recebe no canal privado e joga na imprensa? Imagino que tenha sido iniciativa dele. Mas tem que ser perguntado pra ele. Que amigo é esse que bota o presidente na fogueira nessa hora?

Chico Alves