PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Bolsonaro precisa urgentemente conhecer a verdade

Presidente Jair Bolsonaro - Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/02/2020 04h00

O personagem que Jair Bolsonaro construiu para disputar e vencer a eleição de 2018 era inimigo da mentira. Repetiu várias vezes, antes e depois da votação, o versículo de João 8:32: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Ao chegar à presidência, mandou o personagem às favas e a cada pronunciamento se agarra a uma nova ficção.

Em deferência ao cargo, evitou-se ao máximo chamar o presidente de cascateiro. A primeira invenção passou, a segunda, a terceira... Mesmo com tanta indulgência, se Bolsonaro não se mostra vexado de repetir o versículo enquanto bate recorde de lorotas, não há mais como fugir dessa constatação: o presidente não conhece a verdade.

Uma das últimas e mais constrangedoras invenções foi a de que o vídeo de convocação para a manifestação do dia 15, enviado por Bolsonaro de seu próprio celular, seria na verdade de 2015 e não de 2020. O disparo do WhatsApp presidencial foi revelado pela jornalista Vera Magalhães, que logo derrubou a fantasiosa versão bolsonarista. Vídeo de 2015 com imagens de 2020? Só com Chico Xavier na direção, brincou ela.

A argumentação de Bolsonaro não era uma simples mentira. Era uma mentira sem pé nem cabeça, contada para milhares de seguidores nas redes sociais em tom de convicção e testa franzida, simulando seriedade.

Estava na cara que a argumentação não fazia sentido. A desenvoltura do presidente em defender essa cascata é preocupante. Como o principal mandatário do país pode sustentar uma tese tão frágil? Talvez isso seja assunto para os psiquiatras.

Mas não parou por aí. Mesmo depois que a mentira anterior foi desmascarada e denunciada amplamente, Bolsonaro não deu passo atrás. Ontem, apresentou um vídeo de 2015 como se fosse o revelado por Vera Magalhães. Obviamente não era.

No transe em que parece estar mergulhado, Bolsonaro talvez não se dê conta das alucinações que dissemina ao discursar no Planalto ou fazer uma live nas redes sociais. Da mesma forma os filhos do presidente e a torcida bolsonarista.

Mas e aqueles do governo que são considerados sérios? Como os generais da cúpula ministerial encaram versões presidenciais tão estapafúrdias sobre os vídeos disparados para convocar à manifestação do dia 15?

E os empresários que o apoiam? Acham mesmo que está tudo bem? Pastores evangélicos, como explicam essas fantasias?

Em público dirão que nenhuma das fake news de Bolsonaro é tão grave, vão minimizar todos os desvarios. Mas sabem que enquanto durarem os surtos de ilusionismo verbal, o país vai ser jogado de crise em crise.

A base para acertar a economia, melhorar a educação e preservar o meio ambiente é olhar os problemas de frente. As invencionices do presidente impedem que isso aconteça. Por esse motivo, melhor que consultar qualquer manual de gestão talvez seja seguir o versículo conhecido e tão recitado. Espera-se urgentemente que Bolsonaro conheça a verdade.

Chico Alves