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Chico Alves


Políticos policiais criticam elogios de comandante da FNS a PMs amotinados

Moro discursa no casamento da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e do coronel Aginaldo, chefe da Força Nacional - Reprodução/Instagram
Moro discursa no casamento da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e do coronel Aginaldo, chefe da Força Nacional Imagem: Reprodução/Instagram
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

03/03/2020 04h00Atualizada em 03/03/2020 12h56

Teve repercussão bastante negativa entre os políticos oriundos das funções policiais e das Forças Armadas o discurso feito pelo comandante da Força Nacional de Segurança (FNS), coronel Aginaldo de Oliveira, aos PMs amotinados no Ceará, na noite de domingo. Pouco antes da votação que decidiria pelo fim da paralisação, Oliveira fez elogios aos grevistas, que agiram fora da lei. Chamou-os de "gigantes" e parabenizou pela coragem.

O mais enfático foi o senador Major Olímpio (PSL-SP). "Vou falar com o Moro e pedir pra mandar ele (coronel Aginaldo) embora. Foi absolutamente irresponsável", disse à coluna. "A manifestação dele colocou em xeque o ministro da Justiça e o presidente da República: se os dois não o demitirem é porque estão entendendo que o comportamento é normal. Quando os caras da Força Nacional fizerem a mesma coisa, quero ver".

Olímpio diz que fez vários movimentos de reivindicação salarial em São Paulo, mas sempre sem encobrir o rosto e sem colocar em risco a vida de inocentes, como aconteceu no caso cearense. O senador diz que Oliveira não sabe qual é o papel institucional dele. "Fez um discurso tosco, absurdo para quem tem responsabilidade pública, e indigno para um policial militar", classifica.

A Força Nacional de Segurança Pública, em nota, afirma que "seu comandante, que é membro da Polícia Militar, fez um discurso interno para os policiais, parabenizando-os pelo fim da paralisação e por não condicioná-lo à exigência de benefícios, como a anistia".

O deputado Delegado Waldir (PSL-GO) avalia que o comandante da Força Nacional "rasga o código militar, a Constituição e algumas legislações que são o sustentáculo das forças policiais". O parlamentar acredita que a menção do presidente de não renovar a GLO e a fala do ministro da Justiça de que não trataria policiais como criminosos prova apoio integral dos dois governantes ao motim.

"O ministro Moro quer manter os resultados de redução de criminalidade e agradar os nichos eleitorais. Estão colocando a política à frente da segurança", diz Waldir."Tenho respeito por Moro, mas a conduta é de proteção ao nicho eleitoral".

O parlamentar goiano acredita que os dois não estão preocupados se o movimento grevista vai contaminar polícias de outros estados. "Quem vai pagar por isso são os governadores, muitos deles inimigos de Bolsonaro", explica.

Outro político que já atuou na PM, deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) rotulou como inoportuna a fala. "O comandante da Força Nacional insinua um elogio e um incentivo. Não pode, de jeito nenhum. A melhor postura seria o silêncio", critica.

Também houve críticas de representante das Forças Armadas. O general da reserva Paulo Chagas, candidato derrotado na última eleição a governador do Distrito Federal, reclamou da atitude equivocada para um militar, "agravada pela responsabilidade de nível nacional que lhe cabe".

Ele especula sobre quais seriam os reais objetivos do coronel para fazer isso. "Permite-me interpretar como demagogia e concluir que pretende, oportunamente, valer-se da projeção que lhe dá o Comando da FNS para lançar-se candidato a cargo eletivo", diz o general.

Chico Alves