PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Ex-ministros da Saúde avaliam ações do governo contra o coronavírus

Marcelo Casal Jr / ABR
Imagem: Marcelo Casal Jr / ABR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

12/03/2020 12h20

A pandemia do coronavírus, que tem causado tantos estragos em vários países, começa a ter aumento significativo de casos no Brasil. A reação do Ministério da Saúde está à altura da gravidade do problema? Para fazer essa avaliação, a coluna ouviu os três ministros que antecederam Luiz Henrique Mandetta na pasta: Ricardo Barros (gestão de Michel Temer), Alexandre Padilha (gestão de Dilma Rousseff) e José Gomes Temporão (gestão de Lula).

Dois dos entrevistados, Barros e Temporão, avaliam que o ministro Mandetta está fazendo trabalho correto até aqui. Já Padilha acha que o governo como um todo demorou a agir. Os três concentram as dúvidas no momento seguinte, quando a multiplicação de casos passará a ser mais intensa.

"Considero que o ministério está tomando as providências adequadas", diz Barros, que hoje é deputado federal pelo PP e vice-líder do governo na Câmara. "Quando tivemos o problema do zika na época da Olimpíada fomos obrigados a criar um sistema de coleta de suspeitos e casos a ser acompanhados que está funcionando muito bem".

EX-ministro da Saúde, Ricardo Barros - Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Folhapress
EX-ministro da Saúde, Ricardo Barros
Imagem: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Folhapress
Temporão também elogia e diz que a conduta atual do governo é irretocável. "Até o momento, a vigilância epidemiológica brasileira está operando satisfatoriamente. Já tinha sido testada no surto de H1N1, em 2009, e depois na zika, em 2016", relembra.

Já Padilha acredita que o governo federal demorou a agir e lembra que o próprio presidente Jair Bolsonaro hesitou por três semanas quanto a resgatar ou não os brasileiros que estavam na cidade chinesa de Wuhan, onde a doença surgiu. "Avalio que o governo como um todo tem muita dificuldade de estar um passo à frente do risco de coronavírus no Brasil, algo decisivo", diz ele, que é deputado federal pelo PT.

O ex-ministro de Dilma Rousseff acredita que o Brasil tem vantagens em relação à China e aos países europeus na preparação para o momento de maior ocorrência de casos.

Primeiro, o fato de não estamos no inverno dá melhores condições de preparação para o período de maior impacto. Segundo, possuímos um sistema único público universal de saúde e uma rede de vigilância que foi construída ao longo de décadas no enfrentamento de epidemias. E em terceiro, já existe um conjunto de informações da dinâmica da epidemia, da forma de transmissão e do período de incubação, algo que a China não dispunha.

Padilha acredita que o governo deve usar esses fatores para se antecipar aos problemas que virão.

Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde de Dilma Rousseff - Arquivo Pessoal
Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde de Dilma Rousseff
Imagem: Arquivo Pessoal

"A pandemia vai aumentar a pressão sobre o sistema de saúde no inverno, quando já estará pressionado pelo crescimento exponencial da população mais pobre no Brasil, pelo aumento da população que tem somente o SUS como única forma de atendimento e por conta da redução de beneficiários de plano de saúde, como consequência da diminuição do emprego formal", enumera.

José Gomes Temporão tem a mesma preocupação de Padilha e acrescenta outro questionamento: "Qual será o impacto de o Ministério da Saúde ter deixado de receber de 2016 até hoje R$ 20 bilhões por causa do teto de gastos? Como a rede de saúde, que já está pressionada em todo o país, vai responder a um hipotético aumento de demanda?" Temporão cita como exemplo de consequência desse subfinanciamento o sistema do Rio de Janeiro, que sofre com sucateamento, falta de profissionais e de leitos.

O ex-ministro da Saúde de Michel Temer, Ricardo Barros, acredita que não vai haver problema quanto ao número de leitos, mas sim com relação a insumos importantes. "A preocupação do governo nesse momento deve ser colocar em funcionamento o maior número de respiradores. Há muitos parados por falta de manutenção", observa Barros. "Não teremos dificuldade quanto ao número de profissionais, a estrutura do SUS é muito ampla e o tratamento dos sintomas não é complexo".

Alexandre Padilha não está tão tranquilo quanto à infraestrutura. "Muitos leitos de UTI estão funcionando com recursos do estado e do município, apenas. É preciso que o governo federal amplie o número de leitos de UTI, como aconteceu a epidemia de influenza", sugere. Ele acha necessária também uma ação imediata em relação aos serviços de urgência e emergência e a retomada do programa Farmácia Popular, com ênfase nos medicamentos para doenças respiratórias, como asma, por exemplo.

Estruturar o mais rápido possível um comitê que envolva outros níveis de governo é outro conselho de Padilha. "Uma crise dessa monta não é algo em que o Ministério da Saúde possa agir sozinho, envolve estruturas do governo federal no país inteiro", explica.

Ex-ministro da Saúde de Lula, José Gomes Temporão - Divulgação / STF
Ex-ministro da Saúde de Lula, José Gomes Temporão
Imagem: Divulgação / STF

Já Temporão tem uma proposta que combate à desinformação. "Deveria ser encaminhado um Projeto de Lei com urgência tipificando como crime contra a saúde pública a produção e disseminação de fake news em saúde, para responsabilizar movimentos e pessoas que se dediquem a divulgar notícias falsas, como o movimento antivacina, que resultou no aumenta a mortalidade", detalha o ex-ministro de Lula. "Estamos sendo muito lenientes com essa situação".

Chico Alves