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Chico Alves


Sob o sol de Brasília, Bolsonaro exterminou a última esperança

Bolsonaro faz selfie em meio a apoiadores, na manifestação de ontem - Reprodução/Redes sociais
Bolsonaro faz selfie em meio a apoiadores, na manifestação de ontem Imagem: Reprodução/Redes sociais
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

16/03/2020 04h00

Assim que o resultado da última eleição presidencial foi anunciado, uma grande dúvida tomou conta do mundo político. Jair Bolsonaro manteria o estilo agressivo e desrespeitoso que exibiu durante toda a carreira de deputado ou vestiria o figurino de estadista que o cargo exige?

Houve quem acreditasse que as ofensas, declarações preconceituosas e elogios à ditadura fossem apenas script de um personagem que Bolsonaro interpretou por quase 30 anos na Câmara dos Deputados para agradar a seus eleitores. Uma vez na Presidência, ele seria menos rancoroso e mais equilibrado.

Bastaram os primeiros discursos raivosos para essa esperança cair por terra.

A partir daí, imaginou-se que os generais convocados por Bolsonaro para o governo seriam capazes de injetar alguma compostura no presidente. Afeitos à disciplina e discrição, os oficiais estrelados poderiam, quem sabe, conter os arroubos do chefe do Executivo.

Depois que alguns generais foram destratados por Carlos Bolsonaro e acabaram expelidos de forma constrangedora do governo, tal esperança também foi para o brejo.

A seguir, a aposta era que Bolsonaro entendesse que suas explosões de insensatez espantariam os investidores internacionais. A perspectiva de falta de dinheiro no mercado poderia fazer o mandatário segurar a língua.

Nada disso. O presidente manteve o estilo incendiário. Não deu a mínima para a fuga recorde de capitais verificada no ano passado e que continua em 2020. Mais uma esperança virou pó.

Depois de tantas frustrações de expectativa, quando se acreditava que o presidente já teria revelado o pior de si e manteria o padrão até o fim do mandato, Bolsonaro conseguiu surpreender até os mais pessimistas.

Além de inflamar o discurso autoritário de bolsonaristas ensandecidos, também na área da saúde pública foi na contramão de tudo o que um chefe de Estado deve fazer. Deu a todo o Brasil uma mensagem de que os cuidados divulgados com tanto esforço pelos médicos em tempos de coronavírus não passam de balela.

Fez isso comparecendo à manifestação, mesmo sob suspeita de ter sido contaminado pelo vírus, e também dizendo em entrevista à CNN Brasil que as notícias sobre a pandemia são "histeria" e que já passamos por epidemias piores.

Os fatos desse domingo exterminaram qualquer ilusão.

Nem se fala aqui de sensatez, discernimento ou empatia. O que se esperava era que Bolsonaro demonstrasse ao menos um mínimo de sanidade.

Ontem, sob o sol de Brasília, viu-se que essa esperança também foi desintegrada. Para um país que está prestes a enfrentar um dos maiores desafios epidemiológicos da história, a notícia não poderia ser pior.

Chico Alves