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Chico Alves


Da quarentena, Martinho da Vila pede: "Procurem manter a alegria"

Martinho da Vila - Divulgação - Marcos Serra Lima
Martinho da Vila Imagem: Divulgação - Marcos Serra Lima
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

25/03/2020 04h00

Aos 82 anos, o cantor e compositor Martinho da Vila está no grupo de risco em caso de contaminação pelo coronavírus. Em plena quarentena, ele se mantém calmo e procura ver pontos positivos nesse confinamento. "Familiares que raramente se encontravam em casa agora têm a oportunidade de estar juntos", explica.

Em sua casa, ele divide o espaço de isolamento com a mulher Cleo e dois de seus oito filhos: Preto, de 24 anos, que é estudante de Psicologia, e Alegria, de 20 anos. "Ela é muito sossegada", define. Não se preocupa com o entra-e-sai dos dois. "Esses cuidados que protegem do vírus já eram normais para nós. A gente chega aqui em casa, tira o sapato e lava a mão" contou à coluna.

Para Martinho, os costumes vão mudar quando a pandemia for embora. Hábitos como beijar e abraçar em qualquer encontro, tão comuns no Brasil, vão ficar mais raros, acredita.

Uma de suas principais preocupações é a chegada da pandemia às favelas e periferias, lugares onde, segundo afirma, as pessoas não têm dinheiro sequer para comprar comida, quanto mais alcool-gel.

Apesar desse quadro preocupante, ele sugere tornar o mais leve possível o isolamento na quarentena, batendo papo com as pessoas da família com quem normalmente não temos tempo de conversar e também incentiva ouvir boa música. "Procurem manter a alegria", orienta. "Com alegria, fica-se feliz até mesmo recluso".

UOL - Como está enfrentando o isolamento por causa da ameaça do coronavírus?

Martinho da Vila - É uma coisa louca. Acho que nada será como antes quando passar isso, se demorar. Mas não acredito que vá ficar esse tempo todo que estão dizendo, não é possível... Digo que não acredito, mas em termos de estar torcendo. Sou como aquele torcedor que o time está ruim, está perdendo e ele no último minuto ainda acha que vai virar o jogo.

Em oito décadas de vida, certamente não imaginava passar por uma crise sanitária desse tamanho.

Fiz 82 anos. Nunca vi uma coisa dessas. Coisas ruins assim eu custo a me lembrar, eu tiro da cabeça. Se você perguntar quando foi a última vez que tive uma dor de barriga, claro que eu devo ter tido, mas eu não me lembro mesmo. Tenho que fazer um esforço muito grande pra lembrar. Recordo que passamos por umas gripes grandes aqui no Brasil, lembro que passei por uma asiática (gripe asiática, em 1956), há muito tempo. Mas eram muito mais simples. Agora está terrível.

Como você preenche o tempo do isolamento?

Eu procuro dentro da limitação ocupar o tempo todo pra não ficar parado, sem ter o que fazer. Até paciência no computador eu jogo. Também jogo xadrez. O cara do computador joga muito, rapaz... Me ganha o tempo inteiro, mas eu continuo disputando com ele. Jogo cinco, ganho uma.. .é assim.

Eu gosto de escrever também. Gasto bom tempo no computador, escrevendo. Estou trabalhando em ideias que são boas. E o tempo vai passando. Outra coisa boa é o telefone. Hoje, por exemplo, telefonei para minha filharada toda. Já falei com a Mart'nália, já falei com o Martinho Filho, que é o mais velho, agora vou falar com a Mayra , que está grávida, com um bebê que vai nascer agora em maio, vou ligar para todo mundo. Só isso aí gasta um tempo, porque a gente fala besteira à beça. Só falo bobagem, não fala nada a sério.

Você recomenda isso às pessoas?

Uma das coisas boas é essa mesmo: falar besteira. Também é bom que as pessoas procurem manter a calma. Famílias que raramente se encontravam em casa, porque um sai numa hora e outro chega na outra, agora têm que estar juntas. Temos que procurar não puxar assuntos conflitantes e manter a calma, que aí vai dar tudo certo. Alguns que não se dão muito bem com os outros até começam a se entender. Nessa situação, pode nascer o entendimento, porque está todo mundo precisando ajudar um ao outro, dar força.

Você fez show em uma live, para alegrar a quarentena das pessoas. Quando será o próximo?

Fiz o show, botei no Instagram. Foi como ter uma casa de show lotada, porque muita gente viu. É uma ideia boa, a gente continua exercendo o ofício. Porque o artista gosta é de cantar. O músico quando não tem show canta sozinho. Com a internet, nessa hora podemos tocar para os outros. Estou planejando um próximo.

Como avalia a atuação das autoridades contra a pandemia?

Acho que as providências estão bem tomadas. Mas acho que a divulgação de mensagens é muito importante, então poderia ter mensagens não só de "cuidado, faça isso, faça aquilo", mas umas mensagens mais leves. "Gente, vocês estão juntos em casa, que coisa boa, aproveitem!". Umas coisas assim que é para amenizar a tristeza.

Pode imaginar a situação das favelas caso o vírus chegue maciçamente por lá?

Essa é a pior coisa. O vírus não atacou muito ainda as favelas e periferias. Se chegar, é muito difícil aquelas pessoas terem os cuidados que estão sendo recomendados. Esses cuidados são para uma só classe social. Lavar a mão com sabão, passar gel, tirar o sapato quando chegar em casa. Isso tudo é para uma parte da população.

Para a outra parte, para o pessoal das favelas, não foi feito nada ainda, nenhuma recomendação. Precisa começar a pensar nisso, para que o vírus não se alastre pelas favelas. Se alastrar vai ser difícil. As pessoas não têm dinheiro nem pra comprar comida, vão comprar gel? Não tem como.

Você disse que depois da pandemia nada será como antes. Como assim?

O ser humano se acostuma, se adapta às coisas. Tem gente que mora nos pólos. Nós que somos do calor, se a gente vai morar num país muito frio, a gente estranha, mas daqui a pouco já está gostando da temperatura. É assim, né?

Mas qual a grande mudança que ocorrerá?

Aqui nós vamos ter uma mudança de hábitos muito grande. O brasileiro gosta muito de se encontrar, se abraçar, se beijar, isso é normal. A gente beija pessoas que a gente não conhece. Você me apresenta uma pessoa qualquer, a gente se abraça ou beija. É um hábito muito bom, mas que a gente vai ter que mudar. E com o tempo ele vai se transformar. Vamos cumprimentar só abaixando a cabeça ou falando namastê.


Há quem acredite que o Brasil vai ficar mais solidário com os mais pobres depois que passar a pandemia. Concorda?

Tomara que seja. Mas a preocupação com os mais pobres não pode ser apenas do governo, tem que ser geral, inclusive na classe dominante. No meu condomínio, minha mulher colocou um papel pedindo para as pessoas avaliarem o que podem doar para quem mais precisa, arranjou um jeito de tomarmos uma providência pra ajudar as pessoas que são mais pobres, mas ninguém se manifestou. É fogo.

Qual conselho você dá para quem está em quarentena agora?

Procurem manter a alegria. Aproveitem o tempo para ouvir música com atenção, música boa, é uma coisa muito legal. Façam o máximo para manter a alegria, porque sem alegria não há felicidade. Tendo alegria, fica-se feliz até recluso.

Chico Alves