PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Bolsonaro lançou a candidatura de Mandetta a presidente

Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta  - Foto: Isac Nóbrega/PR
Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta Imagem: Foto: Isac Nóbrega/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/04/2020 04h00


O presidente Jair Bolsonaro acordou ontem disposto a mostrar que sua caneta funciona. Pretendia reafirmar a autoridade assinando a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Na sequência, acabaria com o isolamento social, medida que o ministro preconiza como essencial contra o coronavírus.

O resultado do plano não poderia ter sido mais desastroso para Bolsonaro.

Desde que, no meio da tarde, correu a notícia de que Mandetta seria demitido, as redes sociais entraram em pânico. Ocorreu um fenômeno inédito. Como reconhecimento tácito a seu desempenho em meio à crise, tanto o Brasil real quanto o virtual foram tomados por uma angustiante torcida pela permanência do ministro.

As hashtags nesse sentido começaram a escalar os trend topics, panelaços extemporâneos no meio da tarde hostilizaram o presidente e exaltaram o titular da Saúde, funcionários do ministério foram para a frente do prédio hipotecar solidariedade a Mandetta.

As horas de espera pelo desfecho do drama fizeram com que esquerda, centro e direita se unissem na torcida para que não fosse trocado o ministro.

Quando entrou na sala em que anunciaria o fim do drama, pouco depois da 20h, Mandetta foi aplaudido pelos presentes. Falando com a habitual serenidade e domínio da oratória, fez um preâmbulo de suspense até finalmente soltar a frase: "Nós vamos continuar".

Um suspiro de alívio percorreu o Brasil.

Com respaldo dos ministros militares, da cúpula do Congresso e até de parlamentares governistas, Mandetta saiu da condição de encurralado. Virou o jogo e encurralou Bolsonaro.

"Gostamos da crítica construtiva. O que nós temos muita dificuldade é quando em determinadas situações, em determinadas impressões, as críticas não vêm no sentido de construir, mas vêm para trazer dificuldade no ambiente de trabalho", disse Mandetta, numa clara alusão às desnecessárias polêmicas criadas pelo presidente.

Desde então, o nome do ministro, que com a pandemia saiu do ostracismo, começou a ser cogitado para o mais alto cargo da nação.

O raciocínio decorre da conhecida dependência de muitos brasileiros pela figura de um herói.

O ministro tem-se saído razoavelmente bem no combate à pandemia, mas seria bom não esquecer que ele responde a inquérito por acusação de fraude em licitação e caixa dois em sua gestão como secretário de Saúde de Campo Grande. Além disso, na condição de deputado federal votou pela privatização do SUS e pelo teto de gastos, que subtraiu R$ 9 bilhões de recursos para os hospitais, que agora estão fazendo muita falta.

Se a campanha "Mandetta presidente" vai ou não se sustentar até 2022, só saberemos com o tempo. O certo é que mesmo se for demitido em futuro próximo, o ministro da Saúde levará consigo o patrimônio de apoio que uma fatia da opinião pública manifestou.

Boa parte disso, Mandetta deve agradecer a Bolsonaro, que no dia de ontem acordou querendo provar sua autoridade e foi dormir sabendo que, na verdade, manda muito menos do que imaginava.

Chico Alves