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Chico Alves


Taxímetros, sogra e piscina: o pronunciamento constrangedor de Bolsonaro

24.abr.2020 - Coletiva do presidente Jair Bolsonaro após pedido de demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro  - Cláudio Reis/Framephoto/Estadão Conteúdo
24.abr.2020 - Coletiva do presidente Jair Bolsonaro após pedido de demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro Imagem: Cláudio Reis/Framephoto/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

24/04/2020 20h01

Ao entrar no auditório para responder às acusações do ex-ministro Sergio Moro, expostas horas antes em sua fala de despedida, o presidente Jair Bolsonaro tinha o semblante fechado de quem estava prestes a fazer um pronunciamento histórico. A tropa de ministros a seu lado acentuava o clima grave do momento.

O que se viu nos mais de 30 minutos seguintes, no entanto, foi um amontoado de relatos e ideias desconexas que merece entrar para a antologia do humor involuntário da política nacional.

Da lembrança de sua infância, em que chamou uma mulher de "gorda", ao "sacrifício" de desligar o aquecedor da piscina olímpica do Palácio da Alvorada para economizar dinheiro público, nada pareceu fazer sentido.

Enquanto o país esperava explicações sobre tentativas de interferência no trabalho da Polícia Federal, inclusive em investigações relativas a inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro preferiu embaralhar assuntos distantes, como a facada que recebeu na campanha e o assassinato da vereadora Marielle Franco.

À certa altura da divagação, ainda completamente fora do tema que mobilizava o Brasil, gabou-se da economia que faz com cartões corporativos, falou da piscina do Alvorada e mencionou uma modificação de cardápio (?). Nesse momento, teve um estalo de lucidez. "Mas isso não tem nada a ver", admitiu.

Quem esperava que a partir dali Bolsonaro tratasse do motivo da exoneração do diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, ou se defendesse da acusação de uso político da corporação, se frustrou. Os temas continuaram disparatados, como críticas à troca de taxímetros, chips de bombas de combustível e tacógrafos.

O presidente ainda encontrou espaço para remoer longínquas citações sobre ele feitas na imprensa. Algumas insólitas. "Levantaram até que com cinco anos de idade, revista Época, eu chamava uma mulher de gorda em Eldorado Paulista", disse Bolsonaro, a sério.

Outras citações foram tragicômicas, como quando falou das reportagens sobre a sogra, envolvida com tráfico de drogas e falsidade ideológica: "Na sua inocência, em vez de fazer uma cirurgia plástica para ficar mais jovem, mais bonita, ela resolveu fazer uma cirurgia na certidão de nascimento, diminuindo dez anos a sua idade".

Usando um termo inusual para o cargo, o presidente disse que a imprensa fez essa revelação para "escrotizar".

O pronunciamento continuou trôpego até o final, sempre longe do esperado, tratando de ações dos governadores contra a pandemia do coronavírus, aborto e críticas ao nível da educação brasileira.

No lugar de responder às acusações feitas por Sergio Moro, o presidente Jair Bolsonaro protagonizou hoje momento extremamente constrangedor. O humor involuntário não poderia ser exibido em momento pior, já que por todo país a população e os profissionais de saúde se debatem contra a pior pandemia da história da humanidade.

Além de não explicar nada, o principal mandatário do país obrigou todo o seu ministério, que aglomerou-se para o pronunciamento, a perder 40 preciosos minutos que poderiam ser usados no combate à covid-19.

Chico Alves