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Chico Alves


Senadora Kátia Abreu: "O ministro da Saúde está meio perdido"

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

02/05/2020 04h00

Instalada em sua fazenda, no município de Aliança, em Tocantins, onde está em isolamento por causa da pandemia, a senadora Kátia Abreu (PP-TO) interrompeu a preparação do almoço (frango com açafrão, pequi, arroz e feijão) para conceder essa entrevista à coluna.

Começa tratando da audiência pública em que o ministro da Saúde, Nelson Teich, tentou explicar aos senadores os seus planos contra o coronavírus. Ela não gostou do que ouviu.

"Não posso deixar de registrar que eu, assim como vários colegas, achamos que ele está um pouco perdido no meio do 'tiroteio'", avalia Kátia. "Cadê o planejamento geral?".

Também não tem palavras de elogio para o esboço do projeto de ajuda a estados e municípios pelas perdas com a pandemia, que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), encaminhou na quinta-feira. O objetivo, defende, deveria ser o governo federal compensar prefeitos e governadores pela perda de arrecadação causada pela desaceleração da economia.

"O relatório preliminar do Senado fugiu bastante dessa compensação", critica. A senadora diz ter ficado preocupada ao saber que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não participou da elaboração do texto e defende o trabalho conjunto entre as duas Casas Legislativas.

Sobre os comentários relativos a impeachment, apesar de vários pedidos formais encaminhados ao Congresso, Kátia avalia que não há clima entre parlamentares para o impedimento do presidente Jair Bolsonaro. Sugere, no entanto, que ele não se contente em agradar apenas os 30% de brasileiros que, segundo as pesquisas, se mantêm em suas fileiras.

Relembra um termo usado por sua avó para classificar Bolsonaro como "riliento" (uma adaptação do adjetivo "arreliento", que quer dizer "provocador de aborrecimento"), ou seja, brigão. "Vou fazer um pedido ao presidente Bolsonaro: queria que ele fizesse uma quarentena de um dia das redes sociais, em silêncio, para ver se nós conseguimos ter um dia de paz, um dia de esperança, um dia de ânimo e notícias boas".

A seguir, os principais trechos da entrevista da senadora Kátia Abreu, que foi ministra da Agricultura no governo de Dilma Rousseff e candidata a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes, na última eleição:

PERDIDO NO "TIROTEIO"

Registro que o currículo do ministro (Nelson Teich) é excelente, ele tem uma boa credibilidade no meio como profissional na área de Oncologia, é um empresário. Não quero fazer nenhuma crítica pejorativa ou destrutiva em relação ao ministro. Mas não posso deixar de registrar que eu, assim como vários colegas, achamos que ele está um pouco perdido no meio do "tiroteio".

Sem entrar no mérito se o ministro Mandetta era ótimo, regular ou era péssimo, o presidente tinha o direito de trocar. Mas trocar o general comandante no meio da guerra traz esses atrasos. E a nossa guerra é contra uma doença, pela vida. Já fui ministra e sei que não é fácil tomar pé das coisas com o carro andando, ainda mais no meio de uma pandemia.

Acho que o ministro tem que se apressar para fazer os seus estudos, porque precisamos de medidas urgentíssimas. O sentimento de urgência no serviço público já não existe, nesse caso ele deveria existir em todos os momentos. No caso da pandemia, o sentimento deveria ser de urgência urgentíssima. Não percebi que existe uma estratégia consolidada por parte do ministério.

FALTA PLANEJAMENTO

O ministro novo não tem essa visão geral do Brasil. Não dá para falar: governadores, a peteca está com vocês. Não, porque quem está enxergando o avanço da pandemia é quem tem a visão de cima, o Ministério da Saúde.

Cadê o planejamento geral? Eu perguntei: ministro, usando uma palavra técnica, qual é o protocolo, meu amigo? Qual protocolo o sr. tem para os governadores? O protocolo significa o seguinte: como vamos tratar a pneumonia? Distribui para o hospital do SUS e o secretário do estado vai, então, organizar esse protocolo que já foi testado pela ciência, pela academia e sabe como tratar a pneumonia. No caso da pandemia, qual é o protocolo? Os governadores devem fazer o quê?

Temos um local de crise destemperada, que é Manaus. Nesse caso, qual é o protocolo pós-batalha perdida? Vamos fazer o que com os corpos? Não existe (orientação). O currículo do ministro é muito bom, mas ele ainda está perdido no que diz respeito a essas medidas.

POPULAÇÃO QUER RESULTADOS

A população vive de símbolos, ela precisa ver essa atuação. Discurso é importante, a explicação, mas precisamos de ação. O mais crítico de tudo é que nós estamos observando uma crise política. Quando há uma crise entre presidente e governadores, por exemplo, o que acontece com a população nessa hora? Ela não quer saber disso. Ela paga seu imposto e quer resultado, minha gente. Competência de A, competência de B. Meu Deus, esquece isso.
Essa briga política está gerando um resultado social. Metade cumpriu o isolamento, metade não. Isso é consequência da guerra política que o presidente tem travado com os governadores. Ele tinha que se agarrar aos governadores como aliados, esquecer o partido de cada um deles, vamos sair disso.

Porque isso tem reflexo negativo na política eleitoral de Bolsonaro e dos governadores também. Mas os governadores estão se saindo muito melhor, as pesquisas estão aí. Porque estão trabalhando aliados entre eles. Montaram o Fórum dos Governadores. O presidente da República deveria ser o presidente desse fórum.

Essa guerra de "fica em casa" contra o "vai para a rua que é uma gripezinha" colocou a população em risco.

PROJETO DO SENADO DE AJUDA A ESTADOS

Conversava com o Rodrigo Maia hoje pela manhã, para saber as impressões dele a respeito (do relatório do projeto confeccionado pelo presidente do Senado Davi Alcolumbre),porque quando falo com ele, falo com a Câmara. "Rodrigo, qual as suas impressões com relação ao relatório do Davi Alcolumbre?" Para minha surpresa, ele me declarou que não conhecia o relatório, que estava estudando ainda. Perguntei se não tinha sido construído de comum acordo? Ele disse: "Não, Kátia. Conversamos bastante, mas a construção do relatório, as letras pretas no papel branco, eu não tive a oportunidade de ver". Isso me preocupou um pouco.

Mas o Rodrigo me disse que está com toda boa vontade, não tem nenhuma dificuldade em fazer modificações, que está aberto ao diálogo. A Câmara não conhece o relatório, então não foi construído com acordo. Nós agora é que estamos dialogando.

Tenho a convicção que a necessidade dos prefeitos e governadores é tanta, é tão grande, que nós vamos encontrar uma forma de aprovar essa ajuda, sim.

ESPÍRITO DE JUSTIÇA

Os estudos econométricos dos melhores economistas do Brasil já projetam uma perda de receita de 30%. Amigo brasileiro, você que ganha um salário mínimo, mil reais, imagina se a partir de amanhã alguém disser para você: seu salário agora é de R$ 700. São menos R$ 300. O que você vai fazer para fechar a conta no final do mês? Governadores e prefeitos estão na mesma situação. Cortaram 30% do que eles ganhavam para fazer a despesa do estado. O que nós queremos é substituir essa perda. Esse é o princípio que deverá nortear esse projeto.

O relatório preliminar do Senado fugiu bastante dessa compensação. Tirou esse princípio e quer organizar outros pilares. Quero saber se isso vai contemplar todo mundo. Porque não pode virar um projeto em que a Kátia ajuda o Tocantins, o Davi ajudou o Amapá, o Fulano ajudou o Ceará, o outro, o Maranhão. Não é para isso esse dinheiro. Esse dinheiro é para os brasileiros, para onde a dificuldade estiver maior. O Senado deve para ter essa visão macro e fazer essa divisão justa.

Se o presidente Bolsonaro não gosta do governador do estado tal, detesta o governador do estado A, eu não tenho nada com isso. Não podemos apequenar a discussão, temos que agigantar a discussão. Temos que ter espírito público, calma, tranquilidade e muito espírito de justiça para poder fazer um trabalho a contento e que agrade todos os brasileiros.

REDES SOCIAIS CONTRA TEREZA CRISTINA

Do ponto de vista técnico, a ministra Tereza Cristina está absolutamente correta, ela está fazendo o trabalho dela, protegendo os mercados, porque temos mercados lá fora importantes para sustentar o agronegócio brasileiro, para que ele possa gerar impostos e empregos. Do ponto de vista técnico, ela é uma boa ministra, conhece o assunto.

Do ponto de vista político, gostaria apenas de registrar que o que ela está passando, o que passou Mandetta, o que passou Moro, foi o que nós passamos. É mais ou menos provar do próprio veneno que foi usado contra outras pessoas no passado. Na época do impeachment (de Dilma Rousseff), eu fui agredida de forma cruel. Naquela época, inclusive, Tereza Cristina era presidente da bancada ruralista e eu não recebi uma palavra de solidariedade. Sofri muito por isso, porque gosto muito dela, gosto dos membros da bancada. Mas foi um silêncio absoluto.

O mundo é redondo, essas coisas maldosas, essas vilanias, um dia vão, no outro dia vêm. Tanto Mandetta, como Moro e Tereza Cristina, estão provando hoje do que é capaz nessa guerra essa equipe bolsonarista, os bolsominions, como são chamados, esse "gabinete do ódio". O que são capazes de fazer com as reputações.

IMPEACHMENT E BOLSONARO 'RILIENTO'

Não falo em nome de ninguém, mas a impressão que eu tenho é que o impeachment não está na cabeça dos deputados e senadores. O último impeachment está muito fresco, as feridas ainda estão abertas, nós tivemos prejuízos enormes. Não vejo essa disposição, não vejo esse ânimo dos parlamentares.

Existe a possibilidade de impeachment? Claro, está na Constituição. Já fizemos dois depois da redemocratização, mas isso traz consequências graves. Eu, Kátia, particularmente até empolo, arrepio, quando fala em impeachment.

O que está acontecendo, por outro lado, é que Bolsonaro não dá trégua. Ele quer brigar com todo mundo. Minha avó dizia no passado, quando a gente brigava muito: "essa menina é rilienta". Riliento é quem gosta de brigar muito. Ele brigou desde o início do governo agredindo o Congresso Nacional, depois o Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Ministério Público, brigou com o próprio partido... Quem falta pra ele brigar? Só se for brigar com o Papa.

Estou vendo um esforço sobre-humano, que a Dilma não teve dez por cento desse esforço, para que ele fique de pé, para que as coisas aconteçam naturalmente, para que ele governe em paz. Quem dera a Dilma tivesse a oposição que o Bolsonaro tem hoje. Na verdade ele não tem oposição.

Chico Alves