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Chico Alves


Davi Alcolumbre mantém silêncio sobre ataques ao Congresso

Presidente do Senado, Davi Alcolumbre - Reprodução
Presidente do Senado, Davi Alcolumbre Imagem: Reprodução
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

05/05/2020 10h32

Representantes de várias instituições condenaram a participação do presidente Jair Bolsonaro na manifestação antidemocrática, realizada no domingo, com ataques ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal. Um personagem importante, porém, manteve-se em ruidoso silêncio: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Os presidentes ou representantes da Câmara dos Deputados, STF e Ordem dos Advogados do Brasil protestaram contra as falas em tom autoritário de Bolsonaro, reclamaram do apoio que o presidente da República deu ao ato, denunciaram agressões aos profissionais de imprensa. Alcolumbre, que é o presidente do Congresso, ficou calado.

A omissão foi criticada por senadores de linhas ideológicas tão contrastantes quanto Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Major Olimpio (PSL-SP).

"Eu atribuo isso a uma aproximação muito forte do presidente do Senado com o presidente da República. Acho lamentável", disse Rodrigues à coluna. "No posto que ocupa, ele não pode ser oposição a governo, mas também não pode ser vinculado a governo, porque isso impede que em momentos de crise tenhamos a palavra do Senado, a palavra do presidente do Congresso Nacional".

O parlamentar da Rede acha que a omissão é ainda mais reprovável no cenário atual do país. "Temos que lamentar que no momento em que a instituição está sendo atacada não se ouça nenhum tipo de manifestação de Davi Alcolumbre, enquanto, paradoxalmente, até o Ministério da Defesa reafirma sua lealdade à democracia e à Constituição".

Major Olimpio ironizou a mensagem intimidatória do presidente: "Comparo Bolsonaro com aquele amigo 'porra louca' que vai com você para a balada e fica bebendo e enchendo o saco a noite inteira, até o momento em que ele mexe com a mulher do cara mais forte da festa. Se você não controlar, ele vai aprontar confusão. O presidente vive para isso".

O senador do PSL fez dura crítica à falta de posicionamento de Alcolumbre. "Ele não fala nada porque quer ficar de mediador e construir pontes com o governo. Mas quando o Congresso está sendo atacado não pode ser assim", opina Olimpio, que concorreu à presidência da Casa contra Alcolumbre.

"Se eu fosse presidente do Senado adotaria outra estratégia, não iria assistir o Congresso apanhar sem responder. Depois, se fosse o caso, reconstruiria a ponte. Do jeito que está, o que a gente observa é prostração e subserviência", diz ele.

Apesar de deixar o Senado indefeso aos ataques de manifestantes bolsonaristas, a discrição de Alcolumbre é apoiada por outros senadores que aprovam sua proximidade com o Executivo.

Como a coluna mostrou, essa aproximação o levou a construir com o ministro Paulo Guedes a proposta do Senado para ajuda a estados e municípios afetados pela pandemia, bem diferente do projeto da Câmara, e deixou Rodrigo Maia (DEM-RJ) sozinho na defesa do Congresso diante dos arroubos antidemocráticos de manifestantes e do discurso ameaçador do presidente.

Chico Alves