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Chico Alves


Jornalistas levam ao cercadinho perguntas que Bolsonaro não quer ouvir

Bolsonaro na portaria do Alvorada em 05/05/20 manda jornalistas calarem a boca - reprodução Youtube
Bolsonaro na portaria do Alvorada em 05/05/20 manda jornalistas calarem a boca Imagem: reprodução Youtube
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

05/05/2020 15h52

Toda vez que o presidente Jair Bolsonaro ofende jornalistas no cercadinho do Palácio da Alvorada, como aconteceu hoje, volta a questão: não seria melhor os profissionais de imprensa abandonarem aquela cobertura?

Nessa manhã, Bolsonaro, completamente descontrolado, berrou com repórteres, sem admitir perguntas: "Cala a boca!". A cena lamentável fez com que a discussão sobre a validade de os veículos manterem representantes em espaço tão hostil novamente movimentasse não só as redações, mas também as redes sociais.

Nenhum jornalista deve ser obrigado a aturar ataques desse tipo. Por mais de uma vez, equipes que estavam no local se retiraram, em protesto contra a falta de civilidade do presidente da República.

No dia seguinte, porém, lá estão os repórteres de volta, expostos aos humores de Bolsonaro e aos urros dos fanáticos governistas que ocupam o espaço ao lado.

Masoquismo?

Na verdade, o presidente adoraria um dia chegar ao cercadinho e ser recebido somente pela claque bolsonarista. Um vídeo por dia com aplausos e sorrisos representaria uma campanha de marketing e tanto nas redes sociais.

Os profissionais de imprensa, no entanto, sempre estão lá para fazer perguntas incômodas e mostrar as ideias desconexas de Bolsonaro, suas gafes, seus ataques de pelanca, seus discursos em tom autoritário.

Repetindo: nenhum trabalhador deve ser obrigado a aguentar agressões seja do presidente ou de qualquer outra pessoa. Os jornalistas que resistem, no entanto, não o fazem em vão.

Mostrar a verdadeira face do principal mandatário do Brasil é um serviço importante que a imprensa presta ao país.

Ao exibir Bolsonaro tal como é, o jornalismo faz justamente o que o presidente não gostaria que fizesse. Esse é o motivo da ira contra os repórteres: com suas perguntas, dia após dia os jornalistas insistem em lembrá-lo de assuntos que ele preferiria que caíssem no esquecimento.

Chico Alves