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Chico Alves


Da execução de João Pedro às perdas na pandemia, o país banalizou a morte

João Pedro Matos - Reprodução
João Pedro Matos Imagem: Reprodução
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/05/2020 08h43

"Quero dizer, senhor governador, que a sua polícia não matou só um jovem de 14 anos com um sonho e projetos. A sua polícia matou uma família completa, matou um pai, matou uma mãe e o João Pedro. Foi isso que a sua polícia fez com a minha vida".

O lamento feito à TV Globo é de Neilton Pinto, pai do estudante João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, executado dentro de casa em uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Em mais uma ofensiva sem qualquer planejamento ou apoio de inteligência, agentes da Polícia Civil e da Polícia Federal entraram em uma das residências da comunidade atirando e jogando granadas. Um dos tiros atingiu o menino.

Na trágica rotina dos moradores das favelas fluminenses, esse seria mais um caso que a insensibilidade geral aceitaria sem maiores abalos. Afinal, quatro dias antes uma operação deixou 13 mortos no Complexo do Alemão e não houve qualquer consequência. Nesse país que se acostumou a execuções sumárias, a vida continuou a seguir normalmente seu rumo.

Na ação em que a polícia executou João Pedro, porém, registrou-se uma inovação nos métodos de barbárie governamentais. Depois de alvejado na tarde de domingo, o garoto foi colocado em um helicóptero e levado pelos agentes. Nas 17 horas seguintes, a família de João Pedro não soube onde ele estava.

Os parentes procuraram em vários hospitais, mas o corpo do estudante foi deixado pela aeronave no Grupamento de Operações Aéreas (GOA) da Lagoa, pertencente ao Corpo de Bombeiros, na Zona Sul, 40 quilômetros distante da casa de João Pedro. De lá, o cadáver do garoto foi levado ao IML de Tribobó, de volta a São Gonçalo.

Os pais não foram comunicados e só na manhã de segunda-feira descobriram o que aconteceu.

Para a polícia, não bastou infligir à família a dor de perder o menino, mas ainda decidiram impor aos pais o desespero de buscar tanto tempo por João Pedro. Os agentes do Estado não tiveram a hombridade de comunicar a morte ou de pedir desculpas.

Em alguma terra encantada onde cidadãos seguissem as regras mínimas de convivência em sociedade, esse episódio bastaria para derrubar desde o Chefe de Polícia Civil ao governador. Mas por aqui nada acontece.

No dia seguinte à demonstração de bestialidade, a polícia já estava de volta ao Complexo do Salgueiro, a bordo de um helicóptero, despejando tiros e granadas enquanto pessoas amedrontadas e inocentes se esforçavam para manter-se vivas. Ao mesmo tempo que isso acontecia, em outro ponto paupérrimo do estado, na Favela de Acari, moradores denunciaram que a polícia teria torturado e matado um rapaz de 21 anos, Iago César dos Reis Gonzaga.

Enquanto você lê esse texto, a máquina da morte provavelmente está em ação em alguma favela fluminense, longe dos olhos do cidadão que mora no asfalto e tem o privilégio de se preocupar apenas com a pandemia de coronavírus, longe do alcance de um tiro de fuzil.

A incorporação de tantas chacinas ao cotidiano, por anos a fio, talvez explique em parte a indiferença com que uma parcela da população encara o risco de morrer, sem dar ouvidos aos apelos por isolamento social e cuidados mínimos de prevenção à covid-19.

Afinal, para um considerável contingente de brasileiros, a morte precoce foi banalizada, é dada como inevitável. Fazem parte desse grupo tanto aqueles que moram nas comunidades pobres, que não sabem mais a quem recorrer para evitar tal destino, quanto os que estão fora de lá e assistem essas execuções pela TV ou pela internet sem dedicar às vítimas qualquer emoção. Muitos, como se sabe, torcem pelos executores.

Junto com seus primos e amigos adolescentes, João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, cumpria a quarentena dentro de casa. Ali, estava a salvo do coronavírus, mas não da ferocidade de policiais civis e federais que, mais letais que a pandemia, entraram pela porta disparando tiros e granadas para tirar-lhe a vida sem qualquer explicação.

Em lugares como o Complexo do Salgueiro e outras tantas comunidades Brasil afora, seja por balaço ou pela covid-19, a morte está à espreita. O país acostumou-se a essa rotina trágica e segue em frente, fingindo que é civilizado.

Chico Alves