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Chico Alves


A palavra e o gesto de Bolsonaro que são decisivos na reunião ministerial

Reunião ministerial 22 de abril - Marcos Corrêa/PR
Reunião ministerial 22 de abril Imagem: Marcos Corrêa/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

22/05/2020 19h56

A assombrosa reunião ministerial de 22 de abril, cuja gravação foi divulgada pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, tem muitos momentos abomináveis. Mas serve para esclarecer a acusação do ex-ministro Sergio Moro, de que o presidente Jair Bolsonaro queria interferir na Polícia Federal para proteger familiares e pessoas próximas que estão sob investigação?

No vídeo extenso, uma palavra e um movimento de cabeça, que duram apenas segundos, são decisivos nesse sentido.

A certa altura, Bolsonaro exclama: "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar!"

Como a coluna já esclareceu, o grande problema dessa argumentação é a palavra "amigos". As atribuições do órgão são definidas no decreto 9.668 de 2 de janeiro de 2019. Sobre a tarefa de garantir a integridade do presidente e autoridades, o texto não incluiu ninguém do círculo de amizade.
Diz o seguinte:

"VI - zelar, assegurado o exercício do poder de polícia, pela segurança:
a) pessoal do Presidente da República e do Vice-Presidente da República;
b) pessoal dos familiares do Presidente da República e do Vice-Presidente da República;
c) dos palácios presidenciais e das residências do Presidente da República e do Vice-Presidente da República;
e
d) quando determinado pelo Presidente da República, zelar pela segurança pessoal dos titulares dos órgãos a seguir e, excepcionalmente, de outras autoridades federais:
1. da Casa Civil;
2. da Secretaria de Governo;
3. da Secretaria-Geral;
4. do Gabinete Pessoal do Presidente da República;
e
5. do Gabinete de Segurança Institucional".

Excluindo-se a referência ao GSI, resta então a alternativa de que o presidente Bolsonaro estivesse se referindo à Polícia Federal.

Para reforçar a argumentação do chefe, o ministro Luiz Eduardo Ramos disse em depoimento na PF que no momento da bronca o presidente "olhou em direção ao ministro Heleno".

Não foi o que vimos no vídeo tornado público hoje. A certa altura, Bolsonaro fala: "O serviço de informações nosso, todo, é uma vergonha. Eu não sou informado. Por isso, vou interferir". Nesse momento, olha para a esquerda, onde está sentado o então ministro Moro. Heleno está localizado à frente de Bolsonaro.

A palavra "amigos" e o movimento de pescoço do presidente desmentem o seu álibi.

Chico Alves