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Chico Alves


Em tempos de Bolsonaro, é Machado de Assis quem realmente nos representa

Machado de Assis - Arte: Camila Pizzolotto
Machado de Assis Imagem: Arte: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

04/06/2020 04h00

Nos últimos meses, um brasileiro tem assombrado o mundo. É Jair Bolsonaro, o homem que não vê nada de mal em passear de jet ski ou galopar sorridente enquanto o país chora milhares de mortos na pandemia de covid-19.

Correspondentes estrangeiros relatam a seus leitores como o presidente ocupa-se mais em xingar jornalistas, adversários políticos e manifestantes da oposição do que em tomar providências para diminuir o sofrimento de pacientes e profissionais de saúde às voltas com o coronavírus.

Essa falta de empatia de Bolsonaro é tema da imprensa mundial. Os gringos não entendem como o principal mandatário da nação pode incentivar que seus compatriotas saiam de casa contra as recomendações dos médicos, já que a pandemia é a causa de quase uma morte por minuto no país.

A revista científica britânica Lancet diz que Bolsonaro perdeu o "compasso moral", o Le Monde publica que ele "semeia a morte" e o New York Times critica a "resposta caótica" à pandemia.

Diante de tantas barbaridades, a imprensa internacional se pergunta: esse avatar truculento e insensível seria, então, a representação do genuíno brasileiro?

Muitos de nós talvez pudéssemos responder que sim, não fosse um fenômeno que, de fora para dentro, serve para recordar ao Brasil sua face mais bela, diametralmente oposta à bestialidade dos dias atuais.

Lançada na terça-feira 2, a nova tradução para o inglês do clássico romance de Machado de Assis "Memórias Póstumas de Brás Cubas" esgotou em um dia nos Estados Unidos.

"Há muito tempo esquecido por muitos, [Memórias Póstumas de Brás Cubas] é um dos livros mais espirituosos, divertidos e, portanto, mais vivos e eternos já escritos", elogiou o escritor americano Dave Eggers, autor do prefácio. O texto de Eggers também foi publicado na revista New Yorker. "É uma obra-prima brilhante", destaca.

Não são elogios vãos. O livro, publicado pelo selo Penguin Classics, está "fora de estoque" tanto no site da Amazon quanto na livraria Barnes & Noble, o que quer dizer que os leitores americanos concordam com a análise do crítico.

Nesse tempo de tanta grosseria e ignorância, a notícia vinda do exterior talvez sirva para lembrar-nos de quanto sublimes podemos ser. Basta revisitar as páginas de "Brás Cubas" ou "Dom Casmurro" para sentir que uma terra que gerou o escritor que manejava as palavras de maneira tão inteligente não pode ser um caso perdido.

Nada de idealizações: Bolsonaro e sua turma são, sim, representantes de uma parte da alma brasileira que demorou a vir à luz.

Mas é saudável não esquecer que o país das milícias, do desmatamento e dos assassinatos é também o que tem Machado de Assis como patrono de sua literatura. Não é uma solução. Mas é parte importante da solução resgatar o orgulho pelas criações brasileiras que dão a nós e ao mundo motivos para encantamento. É por aí a saída.

No mesmo rincão onde se ouve as diatribes e piadas homofóbicas do presidente também se lê e se estuda um autor que descreve com essa destreza o reencontro do personagem principal — um morto de boa memória — com sua amada Virgília:

"Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados. Virgília tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela última vez, numa festa de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata".

Diante da avalanche diária de notícias tão duras, reler esse autor genial é lembrar o que já fomos e podemos voltar a ser.

Além disso, nesses tempos de Bolsonaro faz bem saber que pelo menos um considerável contingente de leitores norte-americanos tem Machado de Assis, esse intelectual negro, como referência do Brasil.

Chico Alves