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Eduardo Pazuello, o general que cumpre ordens absurdas

                                 O general Eduardo Pazuello é o ministro interino da Saúde                              -                                 VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL
O general Eduardo Pazuello é o ministro interino da Saúde Imagem: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

06/06/2020 07h06

Até o próprio presidente Jair Bolsonaro recitou recentemente a regra militar que permite ao subordinado desobedecer o superior: "Ordem absurda não se cumpre". Nenhum oficial pode, por exemplo, fazer a tropa marchar em direção ao precipício sob alegação de que revogou a lei da gravidade. Qualquer recruta estará amparado juridicamente se quiser mandá-lo às favas.

Alguém precisa urgentemente recordar esse artigo do Código Militar ao general Eduardo Pazuello, que comanda interinamente o Ministério da Saúde. Desde quando assumiu a pasta ele assina quase diariamente medidas absurdas ordenadas pelo presidente.

Em meio à maior pandemia que a humanidade já viu, Pazuello acumula uma extensa lista de barbeiragens. Na contramão do que se espera do ministério que dirige, ao invés de colaborar para a saúde de seus compatriotas, ele tem potencializado os riscos que a covid-19 representa.

Seus últimos movimentos são alarmantes. Como se não tivesse nada mais importante para fazer, dedica-se a dificultar a liberação das estatísticas diárias sobre coronavirus para que a TV Globo não possa divulgá-las em horário nobre. O atraso nos dados — que eram informados às 17h e passaram a ser liberados às 22h — foi inicialmente justificado por "problemas técnicos".

Ontem, no entanto, em um de seus espasmos de sinceridade, Bolsonaro explicou o real motivo. "Acabou matéria no Jornal Nacional", disse ele, à claque do cercadinho do Palácio da Alvorada. A manobra foi inútil. Às 22h, o JN colocou no ar o prefixo espalhafatoso do plantão para divulgar a atualização do número de mortos e infectados na pandemia.

A estratégia insana do governo não se limita, porém, ao atraso na divulgação dos dados. Prestes a assumir a secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos do Ministério da Saúde, o empresário Carlos Wizard informou à jornalista Bela Megale, de O Globo, que vai comandar a recontagem dos números de mortos e infectados, que considera "fantasiosos". Enquanto todos os especialistas apontam que os dados estão subnotificados, o governo quer fazer crer que foram inflados.

Além disso, o ministério tirou do ar na noite de ontem os dados sobre a pandemia. No site, há apenas o aviso de que o portal está "em manutenção".

Assim, para espanto de cientistas do Brasil e do mundo, o governo federal se mostra capaz de piorar ainda mais a péssima estratégia posta em prática até aqui contra a covid-19.

É inacreditável que com tantas vidas sendo perdidas e tantos pacientes sofrendo em busca de socorro o presidente da República e o ministro da Saúde gastem tempo e energia para esconder e manipular estatísticas.

Essa negação da realidade agrava o quadro que já é catastrófico, como até Donald Trump, o "aliado" de Bolsonaro, reconhece. A falta de transparência é tudo o que o país não precisa para dificultar ainda mais o trabalho dos epidemiologistas.

O general Eduardo Pazuello, no entanto, não parece nem um pouco preocupado com isso. Se mostra disposto a cumprir todos os caprichos do capitão Bolsonaro.

O interino chegou desintegrando boa parte do corpo técnico altamente qualificado do ministério. Substituiu especialistas por militares que não entendem bulhufas de epidemiologia e inaugurou sua gestão divulgando nota técnica que faculta o uso da cloroquina (obsessão do presidente) mesmo em casos leves de coronavirus. Consumou dessa forma a sandice que seus antecessores — dois médicos — se recusaram a chancelar.

Da posse até agora, não se soube de qualquer providência ou ideia sensata do general que tenha servido para amenizar os males causados pelo coronavirus. Além disso, o ministério gastou pouco mais de 10% da verba destinada ao combate da pandemia.

A Pazuello parece importar pouco o sofrimento de milhares de brasileiros. A ele só importa a vontade de um brasileiro — o presidente.

Por conta dessa disposição para a obediência cega, que até o Código Militar reprova, ficará marcado na história como o general que não se recusou a cumprir ordens absurdas em plena pandemia. O julgamento histórico, porém, de nada valerá para um número enorme de brasileiros que terão perdido suas vidas

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves