PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Depois do bolsonarismo, surge o "weintraubismo"

Abraham Weintraub - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Abraham Weintraub Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

18/06/2020 04h00

O surto psiquiátrico que acomete a vida política nacional obriga volta e meia a recorrer à frase que de tão repetida acabou virando clichê: nada é tão ruim que não possa piorar. Não bastasse o transe em que estão mergulhados os mais fanáticos seguidores do presidente Jair Bolsonaro — aqueles que há alguns domingos desembocavam na porta do Palácio do Planalto para pedir fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal —, surge agora uma corrente mais descompensada.

São os simpatizantes do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que está deixando o cargo.

Nas ruas, a claque pode não ser numerosa, mas é barulhenta. Na segunda-feira, cinco ou seis desocupados do grupo chamado "300 do Brasil" gravaram vídeo na Esplanada dos Ministérios para reclamar da demissão de Weintraub.

O orador à frente dos personagens insólitos era Renan Sena, o mesmo que atacou as enfermeiras que homenageavam as vítimas da covid-19 e também participou do disparo de rojões contra o STF.

"Weintraub luta fervorosamente para salvar essa nação do comunismo", discursou o sujeito, olhando para a tela do celular.

O ministro tem também seus fãs nas redes sociais. Estes são em número bem maior que os de carne e osso. Tanto que já despertam ciúmes nos assessores de Bolsonaro por produzirem nos últimos tempos engajamento maior do que os seguidores do presidente em suas postagens.

O personagem que esculhambou o Enem por dois anos consecutivos, ofendeu professores, reincidiu nos erros de Português e pregou prisão para os ministros do Supremo é incensado por um grupo identificado com o discurso de extrema-direita.

Diante disso, Weintraub vislumbrou uma oportunidade. De olho em uma possível eleição, deixou-se carregar nos braços por sua trupe quando esteve na Polícia Federal e foi até o acampamento deles. Os dois momentos renderam-lhe fotos que, em ângulo fechado, podem fazer parecer que estava cercado por muita gente. Boa imagem para uma propaganda eleitoral.

Fazendo-se de mártir, ele aduba o plano de alcançar algum cargo eletivo para representar os mais radicais seguidores de Olavo de Carvalho em sua luta contra o perigo vermelho que só eles (e alguns militares) enxergam.

Quem achava exótico o bolsonarismo poderá ter que passar a lidar a partir de agora com outra categoria estranha: o "weintraubismo".

Pode parecer piada, mas não é para rir. No Brasil de hoje, os absurdos frequentemente se tornam realidade.

Chico Alves