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Chico Alves


Por postagens que pedem diálogo, Padre Zezinho é chamado de comunista

Padre Zezinho - Divulgação
Padre Zezinho Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

21/06/2020 10h16

Um dos maiores comunicadores da Igreja Católica, durante décadas Padre Zezinho se acostumou ao reconhecimento e carinho das mais de 3 milhões de pessoas que diariamente ouvem pela TV ou pelo rádio as suas músicas e pregações. Apesar disso, sabe que reações hostis surgem nos momentos em que o país atravessa turbulências políticas, como agora.

Essa minoria agressiva tem-se manifestado nos últimos tempos pelas redes sociais. Há uma semana, postou no Facebook uma foto com mensagens que falavam a favor e contra o presidente Jair Bolsonaro, para mostrar que tudo tem dois lados e pregar o diálogo. Foi o bastante para que bolsonaristas o atacassem, taxando-o de "comunista".

Hoje, o padre publicou mensagem lamentando as 50 mil mortes por covid-19 e criticando o descuido e a "incredulidade fatal" que levaram a esse número trágico. Foi chamado de petista.

Ele lida com essas reações desde 1969. "Sempre tem alguém que vai contra, seja da esquerda ou da direita radicais", explica.

Aos 79 anos, autor de 103 livros, com 1.700 músicas gravadas e estrela de CDs que já venderam mais de 20 milhões de cópias, Padre Zezinho constata nessa entrevista à coluna que o país está partidarizado entre duas "tribos" que fazem o diálogo ficar cada vez mais difícil.

"Não há mais espaço para o outro. O outro tem que ser derrotado e o meu lado tem que vencer. Vamos acabar como no Líbano, na Síria ou no Congo, onde no confronto entre os tutsi e watuzi morreram 2 milhões de pessoas porque não aceitavam a tribo do outro", alerta.

UOL - Qual o conteúdo da postagem que gerou essa reação? Por que o sr. retirou?

Padre Zezinho - Eu peguei uma publicação que não é de minha autoria, um texto em que estavam duas propostas: uma contra Bolsonaro e a outra a favor. Eu coloquei juntos, para dizer que tudo tem dois lados. Só que alguns não entenderam. Peguei apenas a foto dessa publicação com uma frase contra e a favor. Mostrei os dois juntos e falei: duas opiniões, você tem que escolher. Minha pedagogia é a seguinte: você ouça os dois lados e depois decida. Mas alguns não entenderam.

Por qual motivo o sr. retirou a postagem?

Foi uma questão de respeito com os meus leitores, porque eu tenho quase 3 mil leitores no Facebook e um público nas TVs católicas e emissoras de rádio. É uma responsabilidade muito grande. Se alguém não entendeu, se magoou, sou obrigado a levar em consideração também os 4% ou 5% que não entenderam. Porque eu sou pedagogo, sei que muita gente reage não por maldade, mas porque não entendeu. Como professor de escola, tenho que reprisar e falar de novo para aqueles que não entenderam. Jesus fez isso com os apóstolos.

Por causa dessa imagem disseram que o sr. é comunista?

Não só isso. Disseram que eu estava dividindo a Igreja. Os fariseus fizeram a mesma coisa com Jesus, disseram que Jesus tinha o demônio. Então, não vou esquentar a cabeça, não. Mas achei engraçado e ao mesmo tempo não quis causar escândalo e tirei a foto. Então escrevi outro texto, sem mostrar a foto. Aí deu certo.

Esse tipo de reação tem sido frequente?

É o tempo todo. Desde que comecei a pregar, em 1969, sempre que publiquei alguma coisa no jornal da Diocese, O São Paulo, e em outros jornais, sempre tem alguém que vai contra, seja da esquerda ou da direita radicais. Os outros, não.

A esquerda não radical é ótima para conversar. A direita não radical também é ótima para conversar. Aí dá para fazer o diálogo. Mas tem os outros que são radicais. Desde 1969 que tenho que lutar com eles, gente que só vê o dado com três lados. Mas o dado tem três outros lados.

Não são capazes de tirar conclusões. Só são capazes de repetir o que ouviram ou o que eles leram. Não são capazes de imaginar que o outro lado existe.

Essa falta de diálogo é um dos grandes problemas do país, na sua opinião?

Vocês, jornalistas, sabem disso. Pode colocar uma matéria mais clara que a água, mas alguém vai brigar porque você não disse o que eles queriam dizer. Na Igreja a mesma coisa. Em todas as igrejas, seja evangélica ou qualquer outra, sempre tem alguém que vai dizer: não falou o que eu queria ouvir, logo você não presta. Então, é a incapacidade de dialogar. Isso está acontecendo no Brasil há muito tempo.

Um quer vencer o outro. Não entendem que o diálogo não é um vencendo o outro. Mas é ouvir o outro, já que depois você vai ser ouvido. Chega-se a uma conclusão depois de ter respeito pela opinião do outro. Isso acabou no Brasil.

Não há mais espaço para o outro. O outro tem que ser derrotado e o meu lado tem que vencer. Vamos acabar como no Líbano, na Síria ou no Congo, onde no confronto entre os tutsi e watuzi morreram 2 milhões de pessoas porque não aceitavam a tribo do outro. O Brasil está divido em duas tribos perigosas.

Atrapalha a Igreja tanto o ultraconservador quanto o avançado demais. Porque eles querem uma Igreja de 2050 e nós só estamos em 2020. Tem um grupo que não aceita o Papa Francisco porque ignoram o (Concílio) Vaticano II, pararam em 1959 e não querem mudar. São ultraconservadores.

Temos que ter capacidade para dizer: prossiga. A Igreja não volta atrás, não dá meia-volta, vai indo. Mas a Igreja também não dá saltos.

A Igreja fala muito em trabalho social e nos dias de hoje há quem traduza sempre a palavra "social" como socialismo ou comunismo.

Isso é falta de leitura, porque se essa gente lesse o Vaticano II, as encíclicas de João XXIII, Paulo VI, João Paulo II saberia que a Igreja prega o social e o espiritual. O exemplo disso é o Papa João Paulo II, que escreveu 14 encíclicas, das quais sete eram espirituais e sete eram sociais.

A Igreja se preocupa muito com o social, isso é a nossa doutrina. Tem até um catecismo de doutrina social. Nem por isso a Igreja é socialista, comunista ou alienada. Ela fala para o seu tempo. Há milhões de pobres no mundo e a Igreja não pode ignorar isso. E se ignorar os pobres deixa de ser Igreja.

O exemplo dos papas, dos bispos, é defender a doutrina em favor de quem mais sofre. Enfermos, jovens, vítimas de drogas, vítimas de sofrimentos terríveis... Primeiro eles, eles são as pupilas dos nossos olhos. Depois, quem está bem de vida, quem está rico, quem, não tem grandes sofrimentos.

Se tiver problema de alma, nós vamos ajudar a todos. Mas agora nós vamos socorrer quem mais precisa. Aí, a Igreja bate de frente com essa gente, porque muitos só pensam em dinheiro.

Qual a responsabilidade dos políticos nesse clima de ódio que está estabelecido no país?

Eu sou agredido desde 1969, quando quem estava no governo eram os militares. Eu já falava da necessidade de diálogo e de dar chance para o jovem votar, pois seria uma geração que não sabe ser política.

Tive artigos no Estado de S. Paulo contra mim e contra Dom Paulo (Dom Evaristo Arns foi arcebispo-emérito de São Paulo) porque nós falamos isso. Sempre falamos: tem que ouvir o outro lado, tem que pensar nos jovens que vão nos suceder. Também havia a guerrilha e eu dizia: "'gente, violência não vai resolver". E a gente apanhava por isso também. Então, a Igreja sempre passou por isso.

Muitos bispos e padres morreram porque defendiam o diálogo. A Igreja não está querendo fazer média nem com a esquerda avançada e nem com a direita avançada. Não tem média nem com quem é guerrilheiro e nem com quem é radical do outro lado. A Igreja quer diálogo, e é justamente o que não querem. Quem está no poder diz: eu não cedo mais. E quem saiu do poder quer voltar.

Então, mentem, caluniam, jogam uns contra os outros. Os políticos vão ao palanque para atacar o outro. Diálogo não há. Tem os bons, mas eles não conseguem mudar a coisa, perdem no Congresso porque há grupos acirrados querendo o poder que não querem o diálogo. Quem é candidato à presidência ou ao governo pedindo diálogo vai apanhar. O Brasil é hoje um país partidário. Não existe mais ecumenismo ou democracia. O que existe é partidarismo, pensam no seu partido e não no povo.

É assim no mundo inteiro. Quem não fala do jeito deles, eles brigam e cospem nele. Mas nós estamos no meio. Se você é jornalista e quer diálogo, vai apanhar. Eu que sou padre, vou apanhar, porque eu quero diálogo. E é o que as pessoas menos querem nos dias de hoje.

Então, o sr. vai ser chamado de comunista muitas vezes ainda...

Isso eles já puseram na cabeça. Mas não sou só eu, não. Os padres, os bispos, o Papa. Eles atacam muito o Papa porque ele sempre cuidou de pobre e ele sempre lutou na Argentina porque não queria essa briga de militares contra o povo. Ele era uma pessoa simples, que andava de guarda-chuva, de pastinha, nos metrôs, meio do povo. Havia resistência porque ele não estava do lado da elite.

Esse tipo de comentário é diário?

Entre hoje no Facebook que você vai ver (risos). Mas continuo, porque 95% estão a favor da Igreja. Não pode desistir. Jesus não se calou. Morreu sabendo que iriam matá-lo e não teve medo. Tomou o lado do povo. Alguns têm medo e ficam quietos, eu não.

Chico Alves