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Chico Alves


O capitão e o general têm que responder pelos delírios da cloroquina

Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello - Divulgação
Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

05/07/2020 04h00

Não se trata de ironia: a obsessão por verdades imaginárias faz de Jair Bolsonaro cada vez mais um caso de interesse psiquiátrico. Ontem, em Santa Catarina, o presidente foi acometido novamente por um desses arroubos. Sem constrangimento, disse que tem notícia de que "cada vez mais, não só no Brasil, mas no mundo, o tratamento precoce via hidroxicloroquina tem surtido efeito".

Como se sabe, a afirmação não bate com a realidade. Acontece justamente o contrário. No momento em que Bolsonaro falava, a Organização Mundial de Saúde anunciava que abandonou de vez a pesquisa sobre o medicamento aplicado à covid-19. Antes disso, vários países, inclusive os Estados Unidos, já tinham feito o mesmo.

Mesmo assim, do alto do seu vasto conhecimento da medicina, o presidente manteve a prescrição para pacientes de coronavírus. "Entendo que a única prevenção no momento, o único tratamento, é a hidroxicloroquina, enquanto não chega a vacina", repetiu.

Foi essa fixação que levou Bolsonaro a demitir dois ministros da Saúde em meio à maior pandemia da história da humanidade por não concordarem em indicar o remédio. Colocou para comandar a pasta o "interventor", general Eduardo Pazuello. Como se estivesse na caserna, só que com a hierarquia ao contrário, ele cumpre todas as ordens do capitão/presidente, até mesmo as absurdas.

A ponto de permitir, inclusive, o uso em grávidas e crianças, ignorando os médicos, que alertam para o grave risco de efeitos colaterais.

Uma ação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde pede que o governo federal se abstenha de recomendar o uso de cloroquina em pacientes da covid-19 em qualquer estágio da doença. O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, requisitou a Pazuello informações que deverão ser prestadas no prazo de cinco dias.

.Enquanto isso, sabe-se lá que destino terão 1,2 milhão de comprimidos do medicamento produzidos pelo Exército ou as 2 milhões de unidades doadas pelos Estados Unidos, às vésperas de suspenderem o uso em território americano.

Inevitavelmente serão cobradas do presidente e do ministro interino da Saúde as possíveis complicações causadas pelo uso da cloroquina.

Os dois também deverão responder pelos gastos feitos para produzir um remédio sem eficácia para o coronavírus, ao mesmo tempo em que apenas 30% dos recursos destinados ao combate à doença foram liberados, quatro meses após o início da pandemia.

Os cientistas ainda têm muitas dúvidas sobre a covid-19, mas as pesquisas levaram a pelo menos uma certeza: a cloroquina não serve para combatê-la.

A não ser, é claro, nos delírios do capitão Bolsonaro e do general Pazuello.

Chico Alves