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Chico Alves


Bolsonaro tem tudo para se curar da covid-19, mas a mitomania é grave

Jair Bolsonaro informa resultado de teste do coronavírus - Reprodução/TV Brasil
Jair Bolsonaro informa resultado de teste do coronavírus Imagem: Reprodução/TV Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/07/2020 15h57

O resultado positivo do teste para covid-19 feito pelo presidente Jair Bolsonaro compreensivelmente se transformou no assunto mais comentado no país. Um chefe de Estado infectado por vírus que põe em risco a vida é mesmo algo que deve chamar a atenção. Com os recursos de que dispõe, no entanto, são grandes as probabilidades de o presidente se curar. Os melhores médicos e os melhores hospitais estarão à sua disposição para que se restabeleça prontamente.

Mais preocupante para a nação é outra doença que afeta Bolsonaro e está em estágio avançado. Trata-se da mitomania, a compulsão patológica pelas verdades imaginárias. No mesmo momento em que anunciava na TV o contágio pelo coronavírus, o presidente deixava claras as manifestações desse mal que o aflige.

Na coletiva que deu aos veículos de imprensa escolhidos por ele, Bolsonaro foi perguntado sobre a avaliação da estratégia de combate à pandemia no país. Como já vinha fazendo nas últimas semanas, ele se esquivou de qualquer responsabilidade.

"Essa política passou a ser privativa dos governadores e dos prefeitos, o presidente da República em praticamente nada pôde interferir", afirmou aos telespectadores. "Então, se ela vai indo bem ou vai indo mal, a responsabilidade é dos governadores e prefeitos, segundo decisão do Supremo Tribunal Federal. Ao governo Jair Bolsonaro coube quase que exclusivamente repassar recursos".

Em poucas frases, o presidente conseguiu a proeza de disparar várias inverdades

A decisão do STF impediu que o presidente tirasse de governadores e prefeitos o poder de regulamentar medidas como isolamento social, fechamento de comércio e outras restrições. No que fez muito bem. Em nenhum momento o Supremo impediu o presidente de agir contra a pandemia, apenas decidiu que as prerrogativas são compartilhadas.

Desde que perdeu essa queda de braço, Bolsonaro passou a agir como criança birrenta, repetindo que não o deixavam fazer mais nada. Abriu mão do principal papel que a União deveria ter no combate à pandemia, que era de unir o país e, através do diálogo, uniformizar estratégias.

Sobre a tarefa "exclusiva" de seu governo, a de liberar recursos, sabemos todos que está se saindo muito mal. Até agora, a União só gastou 30% das verbas destinadas ao combate à pandemia. No front do apoio aos empresários que tiveram que paralisar suas atividades, o próprio Ministério da Economia reconhece que apenas 17% do crédito previsto nos programas de auxílio anunciados pelo governo federal chegaram às empresas.

O auxílio emergencial (que Paulo Guedes queria fixar em R$ 200 e o Congresso triplicou) tem sido, como se sabe, alvo de reclamações de muitas famílias carentes que deveriam estar recebendo mas não estão, enquanto mais de 620 mil pessoas ganham esse dinheiro de maneira fraudulenta, diante do frágil controle da Caixa Econômica.

Na entrevista, os sintomas de mitomania continuaram preocupantes quando Bolsonaro fez outras considerações sobre a doença.

Ele repetiu a avaliação lunática segundo a qual o vírus foi superdimensionado. Logo Bolsonaro, que teve desmentida a previsão furadíssima que fez sobre as vítimas fatais da doença, no dia 22 de março. "O número de pessoas que morreram de H1N1 foi mais de 800 pessoas. A previsão é não chegar aí a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus", disse o presidente, há dois meses. Alguém avise urgentemente ao ocupante do Palácio do Planalto que o país já contabiliza 65 mil mortos.

Ainda no campo do delírio, o presidente insistiu que somente quem tem mais de 60 anos ou possui comorbidades morre pela covid-19. "Pessoas abaixo de 40 anos de idade a chance é próxima a zero", disse ele, pela enésima vez.

Desde o início da pandemia, as estatísticas oficiais desmentem essa mentira. Se na maioria dos óbitos são encontrados realmente tais características, há um número muito grande de vítimas fatais sem qualquer relação com esse grupo. Até onde o Ministério da Saúde analisou, 30,01% dos mortos tinham menos que 60 anos (o equivalente a quase 20 mil pessoas) e 37% não tinham comorbidades (o equivalente a 24 mil pessoas). Para Bolsonaro, essas milhares de pessoas que morreram simplesmente não existem.

A saraivada de maluquices espalhadas pelas redes de TV que o entrevistavam foi intensa. Teve a história de uma senhora de Araguari (?) que contou ao presidente que os atropelamentos na região triplicaram por causa de suicídio. O supremo mandatário da nação usou informação de fonte tão fidedigna para fazer uma pensata sobre a mortalidade na pandemia. Juntou essa batatada à informação de que subiram muito os óbitos ocorridos em casa, para concluir: "O número de mortes tem aumentado por outras causas, não pelo vírus, mas pelo medo do vírus".

Não se pode esquecer também da pérola sobre a inevitabilidade do destino: "o vírus é como uma chuva, vai atingir você".

Em todos os momentos da entrevista, Bolsonaro comportou-se como garoto-propaganda da hidroxicloroquina, que ele próprio reconhece não ter eficácia cientificamente comprovada. Disse ao público que já tomou duas doses e estava se sentindo melhor. Incentivou o uso em casos menos graves (algo que costumava ser crime), explicando que "médicos têm dito pelo Brasil" que as chances de sucesso desse tratamento chegam a 100%.

Não se importa de estar na contramão da Organização Mundial de Saúde e de todos os outros países, inclusive dos seus queridos Estados Unidos.

Bolsonaro vai se tratar nos próximos dias e em breve estará de volta ao governo e às entrevistas. Quando ressurgir recuperado, já se sabe, vai fazer todas as louvações à cloroquina, não importa o que seus médicos tenham feito.

A covid-19 passará pelo presidente, espera-se, mas a mitomania não dá sinais de que vai embora.

Tão grave quanto os delírios de Bolsonaro é saber que há muitos brasileiros que acreditam nos castelos de areia que ele constroi. Muitos desses não são bolsonaristas comuns, daqueles que certamente já estão xingando o colunista no espaço para comentários abaixo desse texto. São ministros, generais e políticos com papéis de destaque no Congresso que também se tornaram mitômanos.

A covid-19 é uma catástrofe, mas a pandemia de lorotas também está fazendo muito mal ao país. E não há qualquer vacina à vista para esse mal.

Chico Alves