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Ao prometer vacina, ministro da Saúde confirma que não entende de saúde

General Eduardo Pazuello - Foto: José Dias/PR
General Eduardo Pazuello Imagem: Foto: José Dias/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

09/09/2020 04h00

Não é novidade para ninguém que o ministro da Saúde não entende do ramo. A especialidade do general Eduardo Pazuello é a logística. Seu currículo passa longe das noções de edidemiologia e infectologia, especialidades tão úteis no combate ao coronavírus. Outros ministros também não eram da área — como José Serra, por exemplo —, mas se cercaram dos melhores cientistas e pesquisadores. O general Pazuello trouxe para a equipe militares como ele.

Deu no que deu.

Desde que o general chegou, o Ministério da Saúde liberou o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, tentou escamotear a contagem de mortos na pandemia para dificultar a divulgação pela TV Globo, negou ajuda aos estados para comprar sedativos necessários para intubação, distribuiu menos respiradores que o prometido, gastou menos dinheiro do que dispunha, promoveu encontro com defensores de aplicação de ozônio por via anal contra o coronavírus... e por aí vai.

Se juntarmos essa relação de trapalhadas ao fato de o governo federal não ter qualquer plano para o combate à covid-19 e ser comandado por um presidente que todo o tempo sabotou o distanciamento social, temos então os motivos que explicam as mais de 127 mil mortes no país.

Nesse cenário desolador, a muito custo Pazuello contabilizou um acerto importante: fechou convênio com a Universidade de Oxford para desenvolvimento e produção da vacina no Brasil.

Mas por não ser do ramo, até quando acerta o general-ministro acha um jeito de errar. Em entrevista concedida ontem, fez uma previsão que nenhum especialista em saúde faria. Perguntado sobre quando os brasileiros teriam acesso à vacina contra o coronavírus, Pazuello deu um chute, cheio de convicção: "Janeiro do ano que vem a gente começa a vacinar todo mundo".

O castigo pela falta de prudência não demorou.

Poucas horas depois do prognóstico do ministro, a empresa farmacêutica AstraZeneca informava que os testes da vacina foram suspensos porque um dos voluntários apresentou reação adversa que não estava prevista.

Dessa forma, o dia que Pazuello imaginava terminar em clima de otimismo e esperança chegou ao fim sob o signo da decepção e da tensão, algo que os mercados financeiros em todo mundo refletiram imediatamente.

Espera-se que o ministro-general tenha aprendido a lição. Os processos de desenvolvimento de medicamentos são detalhistas e cuidadosos, bem diferente do raciocínio irresponsável dos que defendem cloroquina, ivermectina e ozônio anal.

Apesar disso, Pazuello não precisa se desesperar. Em matéria de bola fora, há no governo quem o supere e muito. É o caso de Jair Bolsonaro, o presidente que ao invés de incentivar a vacinação futura, já se antecipa para dizer aos seus governados que ninguém é obrigado a se vacinar.

Console-se ministro, o presidente é imbatível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.