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Chico Alves

Líder de protesto de militares: "Me envergonho por ter votado em Bolsonaro"

Militares da reserva e pensionistas protestam contra Bolsonaro - Reprodução de vídeo
Militares da reserva e pensionistas protestam contra Bolsonaro Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

10/09/2020 17h45

Ao participar hoje em uma formatura de sargentos da Marinha, na zona norte do Rio, o presidente Jair Bolsonaro foi surpreendido por um protesto no lado de fora do Centro de Instrução Almirante Alexandrino. Os manifestantes não eram ativistas de esquerda, mas militares da reserva, pensionistas e inativos.

Graduados e praças reclamam que o governo privilegiou os oficiais superiores na reforma da previdência, enquanto eles tiveram reduzidos os valores de adicionais de disponibilidade (ganho pelo fato de o militar ser obrigado a ficar completamente disponível para a força) e habilitação (recebido de acordo com os cursos feitos por cada um), além de outros benefícios.

Um dos líderes do grupo que se mobiliza para tentar reverter a Lei 13.954 é Wagner Coelho, suboficial da reserva da Marinha. Ele foi um dos que reuniu em 24 horas os 30 manifestantes que foram até onde estava o presidente.

"Nossa atenção está voltada para a organização do protesto que será realizado em Brasília nos dias 20, 21 e 22 de outubro e contará com participantes de todo o Brasil", diz ele, nessa entrevista à coluna. Coelho diz que a grande maioria dos graduados e praças das Forças Armadas está insatisfeita com o que chamam de traição do governo.

Segundo ele, essa decepção ajudou a alertar algumas pessoas em relação a escândalos envolvendo Bolsonaro, como a acusação de intervenção na Polícia Federal, a questão do "cheque do Queiroz", e as atividades obscuras do advogado Frederick Wassef.

Coelho diz que passou a se questionar: "A gente sustentou por 28 anos esse monstro como político?"


UOL - Como foi organizada a manifestação de hoje?

Wagner Coelho - Recebemos pelo WhatsApp a notícia de que o presidente viria a essa formatura, mas não fizemos muito barulho porque nós estamos sendo monitorados. Estão tentando fazer de tudo para que a gente pare de reivindicar. Então, só divulgamos ontem.

Nossa atenção está concentrada na organização da manifestação em Brasília, dia 20, 21 e 22. A mobilização está indo muito bem.

Wagner Coelho, líder de protesto de militares contra Bolsonaro - Reprodução - Reprodução
Wagner Coelho, líder de manifestação de militares da reserva
Imagem: Reprodução

Qual a grande reclamação quanto à Lei 13.954?

O topo da pirâmide, que são os generais, foi beneficiado. O pessoal da parte de baixo, os cabos, os soldados e sargentos, vai ter decréscimo nos salários. Isso atinge o salários do pessoal da reserva e da ativa, mas o pessoal da ativa é cerceado na caserna. De acordo com nosso estatuto, o militar da ativa não pode falar. Nós da reserva temos liberdade de expressão. Mas até isso estão tentando tirar.

Como estão fazendo isso?

Estão fazendo sindicâncias, indiciando militares. Eu mesmo fui indiciado em março. Eles chamam para abrir sindicâncias, Inquérito Policial Militar, mas o pessoal está se lixando para isso. Não está dando em nada. Tem pensionistas que não têm dinheiro para comprar remédio e temos que fazer campanhas para o pessoal abastecer as geladeiras. Principalmente o pessoal de escalões inferiores.

O que vocês esperavam de mudança e o que foi feito?


Eles vieram com uma conversa de reestruturação de carreira. Deveriam acertar os quadros de acesso, as promoções dos praças, já que a carreira dos oficiais flui tranquilamente.

Mas eles mexeram com os adicionais, Botaram percentual para quem tem curso de altos estudos acima de 70%. Quem não tem esse curso, que é a grande maioria dos graduados, fica com 15%, 20%.

Tentaram consertar, mas reservaram vagas para uma pequena parte da tropa. Isso não resolve.

Fora da caserna a impressão é de que nos quartéis o apoio a Bolsonaro é maciço.

Não é. Nós sempre sustentamos a base do presidente Bolsonaro. Se ele chegou onde chegou agradeça aos graduados e praças. Nós correspondemos a 82% da tropa. Pelos oficiais generais, ele não entrava nos quartéis. Era proibido, tinha que ficar na porta.

No Distrito Naval, tinha que panfletar lá fora, nas campanhas para vereador e deputado. Agora, estamos decepcionados. Os militares da ativa se comunicam conosco e dizem que há reuniões periódicas para botar na cabeça deles que está tudo bem, porque se disserem o contrário serão punidos.

Na verdade, os militares da ativa não podem falar nem contra e nem a favor.

Sim. Mas quando o Ministério da Defesa fez propaganda do PL 1645, que depois virou essa lei, botaram militares da ativa para fazer propaganda. Tinha major, sargento, cabo. Quando é do interesse deles, o pessoal da ativa pode falar, quando não é do interesse deles, não pode.

Como tem sido a receptividade a esse movimento?

Tenho sido taxado por colegas como comunista, como esquerdista. Não é nada disso. O Brasil está atravessando uma fase muito difícil com relação à economia e temos a pandemia, o povo passando necessidade. Eu disse para os deputados governistas: se não poderia dar melhorias para todos, que não dessem para ninguém. Nem para os generais e nem para os praças.

Dizem que estou chateado com Bolsonaro porque não deu aumento. Não. Isso ajudou a alertar algumas pessoas em relação ao que está acontecendo, esses escândalos, a intervenção na Polícia Federal, a questão do cheque do Queiroz, a questão do advogado Wassef. A gente começa a observar isso aí, juntando com a traição que ele fez com a gente, começamos a pensar: esse cara era aquilo que a gente pensava mesmo? A gente sustentou por 28 anos esse monstro como político? Eu fiz passeata, fiz campanha, e hoje me envergonho disso. Fomos traídos.