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Olimpio sobre protesto de militares contra Bolsonaro: "Grito de desespero"

Senador Major Olimpio (PSL-SP) - 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
Senador Major Olimpio (PSL-SP) Imagem: 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

11/09/2020 12h33

O senador Major Olimpio (PSL-SP) foi um dos que participaram em dezembro de reunião com representantes do governo federal e Forças Armadas onde foi feita a promessa de que a reparação de perdas salarias dos oficiais seria estendida também aos praças e graduados. Pelo acordo, a proposta para os militares de menor remuneração seria enviada em janeiro.

"Estamos em setembro e nada aconteceu", reclama Major Olimpio, nessa entrevista à coluna. "Não existe o ânimo de resolver. Querem tratar na 'porrada', na cadeia disciplinar para calar a boca das praças, isso é lamentável".

Esse foi o motivo do protesto de reservistas e pensionistas contra o presidente Jair Bolsonaro, ontem, no Rio. Uma mobilização maior está marcada para os dias 20, 21 e 22 de outubro, em Brasília.

O senador lembra que desde o início de sua carreira política, Jair Bolsonaro sempre se sustentou nos praças, graduados e seus parentes para fazer campanha, já que não era bem aceito pelos oficiais.

"Todos aqueles que estão no palanque batendo palmas para ele foram recompensados com salários, como generais de quatro estrelas que tiveram uma média de R$ 8 mil de aumento", diz o parlamentar. "Isso é justo. O injusto é o soldado, o cabo, o sargento, o subtenente e os pensionistas não terem absolutamente nada".

As pensionistas, que não tinham desconto da Previdência, passaram a ser descontadas em 9,5%. "Ou seja, tiveram redução salarial de 9,5%", explica Olimpio. Para ele, a manifestação dos reservistas é um "grito de desespero".

UOL - O que foi acertado na reunião de que o sr. participou com representantes do governo e das Forças Armadas?

Major Olimpio - Estavam o ministro Luiz Eduardo Ramos; o Rogério Marinho, que era o secretario especial da Previdência; representantes das Forças Armadas que atuam no Congresso; o líder Fernando Bezerra e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Ali foi firmado um compromisso.

Votaríamos em dezembro a previdência dos militares e em janeiro iríamos criar uma comissão para que o governo federal mandasse ao Congresso o projeto para contemplar setores da Forças Armadas que não foram contemplados. Foi esse o acordo. Palavra empenhada por ministros em nome do presidente da República.

Estamos em setembro e nada aconteceu.

Desde então não houve nenhum aceno do governo?

O ministro Ramos marcou há 60 dias uma reunião que vinha sendo pedida há muito tempo com o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), o líder do governo na Câmara e representantes de praças e pensionistas. Mas foi aquela reunião "me engana que eu gosto", uma reunião para marcar outra reunião.

É visível que não há o menor interesse do governo em atender esse pleito dos praças e pensionistas. É lamentável. Entre militares sempre prezamos por ética, hierarquia e disciplina, que são pilares da nossa instituição. Nunca vi o comando das Forças Armadas abandonar milhares de praças.

Podem dizer que não abandonaram porque em tese quem fizer o curso de Altos Estudos poderá fazer jus à diferença salarial. Mas as próprias forças não disponibilizaram o curso para os que queriam fazê-lo. Como vai ter uma habilitação se não tem o curso para obter a habilitação? Isso vai ficar como um momento triste na história das Forças Armadas, em que foram abandonados soldados "feridos" para trás. Aos milhares.

Acredita que as manifestações de desagrado dos militares da reserva podem levar o governo a mudar de postura?

Vão tentar conter essas manifestações de descontentamento pela hierarquia e disciplina, punindo os que estão se manifestando. Isso não vai resolver a situação, esse abandono dos milhares de praças e pensionistas.

Essa foi a bandeira do presidente Bolsonaro durante muitos e muitos anos. Ele nunca teve apoio da oficialidade das Forças Armadas, era justamente na base das corporações, com praças, graduados e familiares, que ele se notabilizou como representante.

Existe uma programação de protesto para os dias 20, 21 e 22 de outubro, espero que o até lá o governo resolva a situação, mas não creio. Não há o ânimo de resolver. Quer resolver na 'porrada', na cadeia disciplinar para calar a boca dos praças, mas não vai adiantar. Isso é lamentável, O presidente abandonou, sim, soldado ferido para trás.

A impressão de fora dos quartéis é que Bolsonaro tem apoio da ampla maioria dos militares.

Ele faz essas visitações a quartéis, participa de cerimônias na Marinha, Aeronáutica e Exército, mas ele tem que se lembrar dos compromissos. Todos aqueles que estão no palanque batendo palmas para ele foram recompensados com salários, como generais de quatro estrelas que tiveram uma média de R$ 8 mil de aumento. Isso é justo. O injusto é o soldado, o cabo, o sargento, o subtenente e os pensionistas não terem absolutamente nada. Ao contrário. Com a nova previdência, as pensionistas, que em sua esmagadora maioria não pagava nada de previdência, passaram a pagar 9,5%. Ou seja, tiveram 9,5% de redução salarial. Esse é um grito de desespero, por isso eles estão indo às ruas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.