PUBLICIDADE
Topo

Chico Alves

Sem rodeios, Bolsonaro coloca politicagem à frente da saúde dos brasileiros

Presidente Jair Bolsonaro em Brasília - Reuters
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília Imagem: Reuters
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

21/10/2020 11h52

Desde que, há sete meses, teve início a pandemia de coronavírus no país e a população tomou consciência de sua gravidade, milhões de brasileiros sonham com uma vacina que possa fazer a vida voltar a algo parecido com o que era antes. Cada avanço da ciência nessa direção tem sido acompanhado com ansiedade. Os acordos com laboratórios estrangeiros foram comemorados e o estágio atual é de expectativa para saber qual vacina ficará pronta primeiro.

Pelo que disse ontem o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, a CoronaVac, desenvolvida por um laboratório chinês em conjunto com o Instituto Butantan, de São Paulo, ficará pronta um mês antes do medicamento criado pela Universidade de Oxford. A primeira vacina teve os direitos comprados pelo governo de São Paulo e a segunda pelo governo federal.

Depois de semanas de ataque xenofóbicos de fanáticos bolsonaristas à qualidade da CoronoVac, simplesmente por ter origem na China, e de críticas do próprio presidente Jair Bolsonaro à intenção do governador João Doria de tornar a vacinação obrigatória, Pazuello surpreendeu a todos. Em reunião com governadores, anunciou a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac.

"A vacina do Butantan será a vacina brasileira", afirmou o ministro. Para isso, uma Medida Provisória seria editada para liberação de R$ 1,9 bilhão para esse fim.

O anúncio gerou uma onda de ataques a Pazuello nas redes socais nas últimas 12 horas, desferidos por apoiadores do presidente. As cobranças a Bolsonaro foram duríssimas por permitir o acordo com o governador Doria.

Bastou essa marola virtual para que o presidente decidisse desautorizar o ministro da Saúde. Como se os malucos olavistas de carne e osso e os robôs de internet que constroem os trend topics do Twitter representassem milhões de brasileiros, Bolsonaro levou em consideração apenas a "opinião" deles ao dizer que a CoronaVac não será comprada.

Em mensagem publicada nas redes sociais, explicou-se com platitudes como a de que "qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Anvisa". Isso é óbvio. Vale tanto para o medicamento desenvolvido no Butantan quanto para a vacina de Oxford, que já foi comprada pelo governo.

Misturando xenofobia e politicagem, o presidente citou a "vacina chinesa de João Doria".

Na verdade, é a politicagem o motivo mais forte da decisão. Bolsonaro não quer dar ao governador de São Paulo, desafeto e possível rival na eleição presidencial de 2022, a vantagem de dizer que foi ele o primeiro a conseguir oferecer aos brasileiros a imunização contra a covid-19.

Esse sentimento mesquinho já tinha sido expressado na segunda-feira, quando o presidente deixou no ar a dúvida de que a Anvisa teria procedimentos propositalmente mais demorados para aprovar a CoronaVac.

Na decisão de hoje, não há dúvida. O presidente desconsidera o sofrimento e a expectativa dos brasileiros, que desejam ansiosamente ter acesso à vacina, para colocar à frente de tão grave crise sanitária os seus interesses políticos.

Se realmente jogar no lixo o acordo firmado por Pazuello, Bolsonaro estará empurrando o país para um buraco profundo. Além da absurda falta de empatia com os brasileiros que sofrem, haverá certamente consequências econômicas. Que investidores confiarão em um governante capaz de um gesto assim?

Impedir ou retardar o acesso à vacina contra a covid-19 por pura politicagem seria uma atitude amoral sem precedentes na história.

Haverá tempo para que a razão seja restabelecida?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.