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Chico Alves

Baleia Rossi alimenta o terraplanismo eleitoral de Jair Bolsonaro

O deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP) no plenário da Câmara - Michel Jesus/Câmara dos Deputados
O deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP) no plenário da Câmara Imagem: Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

12/01/2021 04h00

Apesar de ser o candidato à presidência da Câmara apoiado pela oposição, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP) dá sinais de que vai ceder às pressões do presidente Jair Bolsonaro, que cismou em mudar o sistema eleitoral. Em entrevista a Julia Chaib, na Folha de S. Paulo, Rossi disse que apoia a criação de algum tipo de checagem impressa do voto e que "essa é uma discussão que vai ter que ser feita".

O Congresso pode discutir qualquer tema. No entanto, o emedebista deveria explicar por qual motivo esse assunto seria prioritário, já que ele próprio admite que a eleição foi limpa e expressou a vontade popular. Se a pauta da Câmara passar a se guiar pelos caprichos de Bolsonaro e dos bolsonaristas, os deputados correm o risco de acabar discutindo em plenário se a Terra é mesmo redonda.

Outra bola fora de Baleia Rossi foi dizer que é necessário algum tipo de checagem do resultado das votações. Mostra desconhecimento sobre o processo que fez dele deputado, parece não ter prestado atenção às inúmeras entrevistas do ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, em que repetiu exaustivamente que as urnas já possuem sistema de auditagem.

A cada eleição, fiscais dos partidos e outras organizações recebem para conferência o documento comprobatório de que antes de começar a ser usadas as urnas não registraram nenhum voto e, ao fim do dia, recebem também o boletim de urna que permite conferir os votos computados.

Ou seja: a checagem é feita há anos.

Não há qualquer prova ou indício de fraude nas eleições brasileiras das últimas décadas. Há somente invencionices levantadas por Bolsonaro.

O ocupante do Planalto aproveitou a invasão dos comparsas de Trump ao Capitólio para mais uma vez atacar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro.

Por conta dessa verborragia, o presidente está sendo convocado a mostrar os elementos que sustentam essas fake news. O PT e o PSOL recorreram ao Supremo Tribunal Federal para que sejam investigadas as falas de Bolsonaro.

Obviamente, não apresentará nada de concreto, como aconteceu das outras vezes.

A tentativa de desacreditar o processo eleitoral (o mesmo que elegeu Bolsonaro) é a base da estratégia maligna que o pirata político Steve Bannon traçou para bagunçar as democracias dos Estados Unidos e do Brasil.

Enquanto Trump inventa fraudes nas eleições americanas, em que o voto é impresso, Bolsonaro inventa fraudes por aqui, onde o voto é eletrônico.

A argumentação sem pé nem cabeça do presidente brasileiro, que lhe serve de pretexto para ameaçar uma insurreição em 2022, só vai à frente por causa da máquina de fake news nas redes sociais e da leniência dos representantes das principais instituições de Estado, que não respondem com indignação à altura.

A julgar pela entrevista de domingo, Baleia Rossi é um desses. Para tentar equilibrar apoios dos dois lados, está disposto a discutir até mesmo o terraplanismo eleitoral de Bolsonaro.

É preciso urgentemente chamar o emedebista à razão e dizer a ele que, como já foi comprovado exaustivamente, a terra é redonda e a urna eletrônica funciona muito bem.