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Chico Alves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro não assume responsabilidades e até aliados estão perdidos

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

03/03/2021 15h30

Vai se frustrar diariamente quem esperar do presidente da República alguma providência ou orientação que sirva de alento em meio à fase mais aguda da pandemia de covid-19. Em situação normal, o político mais poderoso do país serve de guia em meio ao caos. No Brasil de hoje, Jair Bolsonaro potencializa o caos provocado pelo coronavírus.

Como se a morte de seus compatriotas já não fosse algo doloroso o bastante, Bolsonaro provoca ainda mais dor com sua falta de sensibilidade habitual. No dia seguinte ao registro recorde de 1.726 óbitos na pandemia, o ocupante do Palácio do Planalto tem a coragem de dizer que "a imprensa criou pânico" sobre a doença.

Nas suas falas e de seus apoiadores (inclusive de militares que estão no governo e fora dele), os jornalistas são culpados, os governadores são culpados, os prefeitos são culpados, o Supremo Tribunal Federal é culpado... A lista é infinita. Todos têm responsabilidade, menos ele próprio.

Enquanto procura bodes para expiar suas responsabilidades, Bolsonaro nada faz de efetivo para ajudar na coordenação do combate à pandemia. Pelo contrário: discursa contra o lockdown e o uso de máscaras, atrasa compra de vacinas e gasta tempo e recursos com cloroquina e outras simpatias - a mais nova é o spray israelense que está longe de se tornar realidade.

Diante da falta de colaboração do governo federal, mesmo governadores aliados de Bolsonaro começam a se desgarrar. Afinal, o presidente quer a todo custo repassar para os estados o ônus da tragédia sanitária. Alguns governadores bolsonaristas decidiram agir.

Ronaldo Caiado (DEM), de Goiás, e Claudio Castro (PSC), do Rio de Janeiro, assinaram a carta que corrige os valores informados pelo presidente como repasses aos estados para tratar da pandemia.

O gaúcho Eduardo Leite (PSDB), que apoiou a candidatura de Bolsonaro à Presidência da República, também assinou a carta. E foi ainda mais longe. Disse que o presidente "despreza sua gente" e que seu comportamento negacionista "está matando".

Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, praticante de um bolsonarismo acanhado, aderiu ao lockdown, estratégia tão criticada por Bolsonaro.

Por fim, até o fidelíssimo governador mineiro Romeu Zema (Novo) vai na contramão do presidente. Às voltas com o colapso no sistema de Saúde mineiro, se prepara para restringir fortemente a circulação de pessoas em seu território.

Enquanto Bolsonaro desfia uma coleção de frases desconexas, para tirar dos ombros a responsabilidade que tem sobre o descontrole da pandemia, os governadores e prefeitos têm que arcar com o desespero e a insatisfação dos eleitores locais.

Tão preocupado que está com a reeleição em 2022, o presidente ainda não enxergou que essa estratégia do "não é comigo" pode enganar bom número de seguidores, mas também causar dificuldades para alianças regionais que já estavam consolidadas.

Todos os governadores e prefeitos largados à própria sorte no meio da tragédia sanitária vão querer continuar servindo de cabos eleitorais para Bolsonaro?

Se não for por solidariedade, ao menos como estratégia eleitoral o presidente deveria se esforçar para mandar mais ajuda para estados e municípios.

Ao que parece, no entanto, isso não vai acontecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL