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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Câmara cria CoronaVip e ajuda Bolsonaro a esculhambar o SUS

Vacinação - Getty Images/BBC News
Vacinação Imagem: Getty Images/BBC News
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/04/2021 16h23

Enquanto arremessava pedaços de bacalhau à plateia, no cenário anárquico de seu programa de TV, o apresentador Chacrinha costumava repetir: "Eu vim para confundir, não para explicar". Numa época em que reinava a mesmice no ambiente da comunicação, o bordão era um elogiável convite ao exercício da criatividade e combate aos clichês.

Muitos anos depois, em um setor muito diferente da vida nacional, Jair Bolsonaro encarna uma espécie de versão negativa do Chacrinha. Em meio à maior crise sanitária da história do Brasil, por conta da pandemia, o presidente poderia ter lançado mão do conhecimento que os epidemiologistas brasileiros exibiram em outras crises de saúde pública, em que ajudaram a salvar milhões de vidas.

Em vez disso, como se sabe, o ocupante do Planalto relegou os especialistas ao ostracismo e facilitou o avanço do coronavírus. Tentou o quanto pôde desacreditar as vacinas e atrasou tanto o processo de compra que o país tem agora que implorar por imunizantes.

Bolsonaro veio para esculhambar, não para governar.

Já seria algo gravíssimo, mas o Congresso resolveu tornar tudo pior e ajudar o presidente nessa tarefa. Aprovou ontem texto-base do projeto que cria o CoronaVip, um passe livre para empresários e associações de classe comprarem vacinas e aplicarem nos seus.

O projeto esculhamba de vez a lógica do Sistema Único de Saúde (SUS), que por décadas foi considerada padrão mundial. O Plano Nacional de Imunização, já prejudicado pela falta de vacinas, passa agora a ter um concorrente.

Desempregados, informais, aposentados e empregados de estabelecimentos que não têm condições de comprar vacinas continuam com o SUS. Isso possibilitará que, contra as recomendações de infectologistas de todo o mundo, o funcionário de uma dessas companhias possa ser vacinado com 40 anos, digamos, antes de alguém do grupo prioritário de idosos ou portadores de comorbidades que espera pelo poder público.

Não é a primeira vez que o Legislativo tenta atrapalhar o funcionamento da saúde pública no Brasil.

Em 2012, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu alguns medicamentos contra a obesidade por causa dos efeitos colaterais, o Congresso aprovou um decreto legislativo tornando sem efeito a decisão e esses medicamentos, proibidos em vários países, continuam sendo comercializados no país.

Em 2016, sem base científica, os parlamentares aprovaram o uso da fosfoetanolamina sintética para tratamento de câncer. O autor do projeto foi o então deputado Jair Bolsonaro. Estudos posteriores mostraram que a droga não tinha qualquer efeito sobre a doença. O Supremo Tribunal Federal acabou proibindo a comercialização.

Agora, sob uma pandemia que já matou quase 337 mil brasileiros, o Congresso volta a atacar. Não para cobrar do Executivo ação minimamente eficaz contra o vírus ou para criar CPI que investigue os responsáveis por tanta negligência.

Ontem, 317 deputados criaram o CoronaVip.

Espera-se que os senadores, que serão os próximos a analisar o texto, sejam mais sensatos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL