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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Covid-19 levou Aloy Jupiara, jornalista que sugeriu a todos: "resistência"

Jornalista Aloy Jupiara - Reprodução de vídeo
Jornalista Aloy Jupiara Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/04/2021 15h18

Quem viu a série "Doutor Castor", um dos maiores sucessos da Globoplay, que conta a vida de Castor de Andrade, bicheiro mais poderoso do Rio por várias décadas, certamente vai lembrar do depoimento do jornalista Aloy Jupiara sobre o personagem. Em meio à bajulação de ex-jogadores, sambistas e até de Boni, ex-chefão da TV Globo, ao contraventor acusado de ser mandante de vários assassinatos, Aloy foi na contramão e usou o adjetivo mais contundente. "Bandido", cravou, com a voz ao mesmo tempo suave e firme.

Aloy, que morreu ontem à noite por causa de complicações da covid-19, era assim: suave e firme.

Jornalista talentoso, com passagem pelos jornais O Globo e Extra, atualmente era diretor de redação de O Dia. Tinha 56 anos.

Escreveu dois livros em parceria com o inseparável amigo e também jornalista Chico Otavio, "Deus tenha misericórdia dessa nação: A biografia não autorizada de Eduardo Cunha" e "Os Porões da Contravenção".

A cultura popular, em especial o mundo das escolas de samba, era sua paixão. Não se interessava tanto pelo lado glamuroso dos desfiles, mas principalmente pela relação que os moradores das comunidades tinham com as agremiações. Pesquisava a história dos sambistas. Participou várias vezes do grupo de jurados do Prêmio Estandarte de Ouro, oferecido pelo Globo, um dos mais importantes do Carnaval.

Integrou, em 2007, o time responsável por transformar o samba do Rio de Janeiro em patrimônio imaterial do Brasil.

Uma amiga escreveu no Twitter que seu amor pela cultura nacional era tão grande que até o sobrenome era bem brasileiro: Jupiara.

Também se interessava por investigar os motivos que levaram às sucessivas derrotas das políticas de segurança pública dos governos fluminenses.

Morador do Cachambi, subúrbio da zona norte do Rio, repetia que não tinha motivos para se mudar para a zona sul, como muitos amigos pediam. Achava que o verdadeiro carioca é o suburbano.

Leitor voraz, estava encantado ultimamente com a obra do escritor português Valter Hugo Mãe.

Rosa da resistência - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Rosa de papel deixada pelo jornalista Aloy Jupiara no Sambódromo
Imagem: Reprodução Instagram

Tão discreto na vida pessoal quanto na profissional, Aloy não era muito assíduo nas redes sociais. Em seu último post no Instagram, no dia 15 de fevereiro, publicou a foto de uma rosa de papel junto à grade que fecha o acesso à pista do Sambódromo. Na folha artesanal se lê a palavra "resistência". Ao lado da foto, o texto:

"Marquês de Sapucaí, Sambódromo, deixei uma rosa branca com a inscrição Resistência. Pelo carnaval, pelo samba, pela saúde das pessoas, pelos que perderam amigos e parentes, pelos que se sentem desprotegidos por políticas públicas, e resistência para todos os profissionais de Saúde da linha de frente do combate à Covid, alguns dos quais pereceram nessa luta. Gratidão a vocês. A rosa tem uma história de outra resistência. Ganhei na sessão de estreia do filme".

O filme a que se referia era "Torre das Donzelas", exibido no Festival do Rio, que conta a história de mulheres presas na ditadura.

Seja diante da covid-19 ou da ameaça de novos tempos ditatoriais, sigamos resistindo, como nos recomendou Aloy Jupiara, no seu jeitão suave e firme.

Resistir é a maior homenagem que amigos e admiradores poderão fazer a ele.