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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Equipe da Anvisa dá xeque-mate nos russos usando apenas a ciência

Anvisa - Divulgação
Anvisa Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

30/04/2021 04h00

Um dos maiores clichês do Brasil é a máxima segundo a qual temos 210 milhões de treinadores de futebol, tamanha é a paixão dos compatriotas pelo esporte. Nos últimos dias, surpreendentemente, o país passou a ter também milhões de cientistas da Anvisa. Em meio à pressão para aprovar a importação e o uso da vacina russa Sputnik V, muita gente resolveu dar palpites sobre o trabalho dos técnicos da agência de vigilância sanitária.

Já havia acontecido algo parecido na análise da CoronaVac, com a preocupação generalizada de que as críticas do presidente Jair Bolsonaro à iniciativa do governo paulista influenciassem os cientistas da Anvisa.

Como se viu, não só a vacina desenvolvida na China foi aprovada, juntamente com a de Oxford, como na apresentação do resultado uma das integrantes da equipe fez crítica fundamentada ao uso de cloroquina e ivermectina quando usadas em suposto tratamento de pacientes com a covid-19.

Mesmo contra as opiniões de Bolsonaro, oficializou-se naquele momento que o tal tratamento precoce não passa de charlatanice deslavada.

Infelizmente, o episódio não foi suficiente para fazer com que a agência ficasse a salvo da desconfiança e dos ataques característicos desses tempos de lacração. A demora na aprovação da vacina russa motivou uma saraivada de críticas.

Os governadores do Consórcio Nordeste — os mesmos que haviam elogiado a agência na aprovação da CoronaVac —, passaram a desqualificar a Anvisa. O próprio chefe do comitê científico da região, Sérgio Machado Rezende, bradou na quarta-feira que o veto à Sputnik V foi político.

Os russos do Instituto Gamaleya pegaram carona nas críticas dos brasileiros e ameaçaram processar o órgão de vigilância sanitária por divulgar falsas informações sobre o imunizante produzido por eles. Referiam-se ao risco anunciado de outros vírus usados na vacina para induzir uma resposta imune se reproduzirem nos pacientes, algo considerado como defeito grave.

Também o diretor do fundo que financiou o imunizante acusou a agência de se sujeitar a influências externas.

Ontem, em uma jogada de mestre, a Anvisa provou que tem razão. Divulgou o vídeo em que os cientistas do Brasil cobram informações dos colegas da Rússia e estes admitem que optaram por uma rota de pesquisa mais arriscada, por ser mais rápida.

A cada questionamento dos brasileiros, os russos confabulavam atarantados, mostrando não estar preparados para questionamentos de alto nível. Passando do futebol ao xadrez, jogo que eles tanto amam, pode-se dizer que foi xeque-mate.

Mais uma vez, os sanitaristas brasileiros deram mostras de sua excelência. Definitivamente, não é à toa que nossa agência integra o seleto clube das 32 melhores do planeta - elite da qual a Rússia não faz parte.

Aliás, nenhum dos 60 países que aprovaram o uso da Sputnik V dispõe de órgão de vigilância sanitária com qualidade suficiente para fazer parte desse clube em que está inserido o Brasil.

Compreende-se a pressa dos governadores do Nordeste em colocar ao dispor das populações de seus estados uma vacina que possa evitar mais mortes. Nada justifica, porém, os ataques que a Anvisa sofreu nos últimos dias.

A ciência brasileira já tem sido alvo de muitos bombardeios por parte do bolsonarismo. Tudo o que não precisa é de mais detratores, oriundos de outras correntes políticas consideradas progressistas.

Que os pitacos aleatórios voltem a se limitar ao âmbito do futebol. Deixemos os pesquisadores da Anvisa fazerem seu meticuloso trabalho em paz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL