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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro quis manipular caminhoneiros, mas bateu de frente com a realidade

Presidente Jair Bolsonaro  -  Isac Nóbrega/PR
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Isac Nóbrega/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

09/09/2021 14h15

Não se confirmou o terrorismo, feito por bolsonaristas em mensagens divulgadas em aplicativos de mensagens nas últimas semanas, de que haveria uma greve nacional de caminhoneiros em apoio às pautas antidemocráticas do presidente Jair Bolsonaro. O que se verificou desde a madrugada de ontem foram apenas obstruções de estradas em 15 estados, feitas principalmente por motoristas de caminhão do agronegócio e outras empresas. Não são os autônomos, que representam o grosso da categoria.

Se o objetivo do presidente da República fosse alcançado, assistiríamos a uma situação anômala em que um grupo profissional faria greve para exigir a destituição de ministros do Supremo Tribunal Federal, intervenção militar e outras maluquices do gênero. Os arautos desse golpe eram personagens exóticos como o cantor sertanejo Sérgio Reis e o autointitulado motorista de caminhão que tem o apelido de Zé Trovão - foragido que foi parar no México para escapar à ordem de prisão do ministro Alexandre de Moraes.

Como era esperado, essa insurreição bizarra fracassou.

O plano de Bolsonaro era mostrar a todos que tem liderança sobre a categoria, que, como se viu em 2018, é capaz de parar a circulação de mercadorias no país. Mas os poucos caminhoneiros autônomos que cruzaram os braços desde a madrugada de ontem foram obrigados a isso por barricadas montadas pelos prepostos de empresários ligados ao governo.

Na rede de desinformação bolsonarista, porém, as mentiras disseminadas ontem tentava fazer parecer que as paralisações pontuais promovidas por aliados do presidente era realmente uma greve nacional generalizada. Isso levou consumidores de muitos estados, a correrem aos mercados e aos postos de combustíveis para evitar desabastecimento.

Diante disso, alguém menos maluco no governo se deu conta de que esse clima de histeria seria péssimo para a economia que já anda desequilibrada e pior ainda para a popularidade de Bolsonaro.

Afinal, com comida, energia, gás de cozinha e combustível custando os olho da cara, os brasileiros não ficariam nada felizes com mais uma má notícia. E o peso da contrariedade recairia obviamente sobre a popularidade do presidente, que já vem em queda acentuada.

Por isso, num cavalo de pau, Bolsonaro foi de incendiário a bombeiro e enviou na noite de ontem um áudio para ser distribuído nos grupos de caminhoneiros, pedindo que a tal paralisação fosse interrompida.

O apelo do presidente surpreendeu os motoristas, que, a princípio, duvidaram de sua autenticidade. Até mesmo o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ), fiel representante dos delírios bolsonaristas e um dos alvos do inquérito do STF sobre manifestações antidemocráticas, garantia que a mensagem era fake.

Foi preciso que o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, gravasse um vídeo para garantir que o áudio era confiável.

A partir daí, o feitiço virou contra o feiticeiro. O que se seguiu nos grupos de WhatsApp e Instagram foi uma chuva de críticas pesadas dos motoristas ao ocupante do Palácio do Planalto. Os termos usados vão desde "decepção" até palavrões dos mais cabeludos.

As obstruções de estradas continuam, apesar do apelo do presidente. A tendência é que aos poucos sejam encerradas. Se os motoristas seguirem o que pedem os radicais e mantiverem as barricadas, o chefe do governo estará desmoralizado, já que seu apelo não terá valido de nada.

O saldo dessa aventura golpista é altamente desfavorável para Bolsonaro.

A categoria dos caminhoneiros, que fez campanha e deu votos a ele em 2018, não está nada satisfeita com o presidente. Os produtores e empresários que tiveram dificuldades momentâneas para escoar a produção, também não. A população em geral, menos ainda.

Nesse dia 9 de setembro, portanto, o presidente está infinitamente menor do que aquele que parecia tão poderoso nos discursos inflamados de 7 de setembro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL