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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Militares endossam golpe em meio a luto nacional

Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

30/04/2021 00h08

* Vinícius Rodrigues Vieira

A Quaresma católica — período de 40 dias antes da Paixão de Cristo — acabou no começo do mês. O calvário brasileiro, no entanto, parece longe do fim. Terminamos abril com 400 mil vidas ceifadas. Quantas delas não poderiam ter sido salvas caso o governo federal, na figura de seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, tivesse unido o país em torno do combate ao coronavírus?

Quantas lágrimas não foram derramadas por causa de avós, pais e filhos que partiram apenas porque o capitão recusou-se a comprar, em agosto de 2020, 70 milhões de vacinas da Pfizer enquanto nos enfiava cloroquina goela abaixo?

Quem nasceu para ser capitão jamais poderia ter se tornado presidente. Só o foi porque generais e boa parte da elite econômica passaram pano para seu passado de quase-terrorista e agitador de quartéis -- tudo aquilo que um bom militar e soldado da pátria não pode ser. Na ativa, a turma de quepe esverdeado parece ter caído em si e já se afastou de Bolsonaro. Na reserva, porém, a história é outra.

Afinal, o Clube Militar do Rio de Janeiro emitiu nota em que prega o uso do artigo 142 da Constituição para que Bolsonaro prenda ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), denominado de "poder das trevas" por ter obrigado o Senado a instalar a CPI da Covid -- o número mínimo de assinaturas para a comissão funcionar já tinha sido obtido em fevereiro.

O referido artigo menciona a possibilidade de convocação das Forças Armadas por qualquer um dos poderes -- Executivo, Legislativo e Judiciário -- para restabelecer a lei e a ordem -- não, porém, para dar golpes de Estado. O presidente dando ordem de prisão a um ministro do STF representaria a ruptura da ordem constitucional. Apenas isso.

Não é o que acha o presidente do clube, o general de divisão Eduardo José Barbosa. Não é o que pensava o general Hamilton Mourão, ex-presidente do clube e, hoje, vice-presidente da República. Mourão já se manifestou a favor dessa tese. Hoje, no melhor do meu conhecimento, não sabemos sua posição.

A interpretação de que o artigo 142 é a senha para um golpe de Estado desperta em mim calafrios sempre que um militar graduado afirma que as Forças Armadas são fiéis à Constituição. Será que há entre membros do alto comando indivíduos capazes de "confundir" manutenção da lei e da ordem com autorização para pôr fim de vez a nosso combalido edifício constitucional?

Também provoca calafrios o fato de, entre aqueles que juraram defender o povo brasileiro, haver quem não perceba que as trevas residem no lado oposto ao do STF na praça dos Três Poderes. Inquilino do Planalto, Bolsonaro devia despertar em todos os dotados de um mínimo de razão o raciocínio que Winston Churchill aplicou ao imperativo de derrotar Adolf Hitler. O líder britânico teria dito que, caso o ditador nazista invadisse o inferno, ele faria uma menção de apoio ao coisa-ruim em Westminster, sede do Parlamento do Reino Unido.

Se não vivêssemos tempos absurdos, seria desnecessário dizer que o coisa-ruim na frase acima é o diabo, não Hitler. Ao banalizar a crueldade, o nazista tornou-se o inominável. Bolsonaro segue o mesmo destino rumo à galeria dos líderes inomináveis da história. No futuro, ele estará para a pandemia tal como Hitler esteve para a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial. Seus apoiadores já terão voltado ao pó, mas carregarão pela eternidade a vergonha de terem relegado seus compatriotas à morte por falta de ar enquanto sufocavam a democracia brasileira.

Causa-me asco ver Renan Calheiros (MDB-AL) posar de paladino e ser relator da CPI. Seu currículo explica minha ojeriza. Não vejo em Lula mais que o mais-do-mesmo, uma velha roupa apertada, desconfortável. Inominável, porém, é ver Bolsonaro rir da morte de meus compatriotas sem que ninguém faça nada. Estamos como Churchill: apoiemos, portanto, os diabos na esperança que o inominável caia antes que mais irmãos e irmãs pereçam neste vale de luto e luta em que o Brasil se transformou.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na FGV

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL