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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI deve pôr fim aos delírios quixotescos de Bolsonaro

Jair Bolsonaro discursando - de perfil - Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro discursando - de perfil Imagem: Marcos Corrêa/PR
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

01/05/2021 12h38Atualizada em 01/05/2021 19h26

* Warley Alves Gomes

Um fantasma ronda o Brasil. Esse fantasma, ao contrário do que é apontado pelos delírios quixotescos da "ala ideológica" do governo, não é o comunismo, mas a CPI da Covid, instalada na última terça-feira (27).

Existe uma ideia no imaginário público brasileiro de que as CPIs "acabam em pizza", ou seja, muito se discute, brigas e bate-bocas preenchem as reuniões mas, ao final, tudo se conclui em uma confraternização entre amigos, investigações são arquivadas e, após o espetáculo, tudo volta a ser como antes. Não parece ser o caso dessa vez.

Antes de tudo, é preciso explicar que as Comissões Parlamentares de Inquérito não podem exercer quaisquer funções punitivas. Elas não são instaladas para julgar, mas sim para investigar ações do poder público, dentre elas do Poder Executivo.

Cabe ao Poder Legislativo - representado pelos deputados e senadores - essa função de fiscalização, ademais de suas habituais tarefas de criação de leis, bem como análise de leis propostas pela sociedade.

Ao longo de uma CPI coletam-se depoimentos, analisam-se documentos, investigam-se fatos e, ao final, um relatório é composto indicando quais medidas poderão ser tomadas, indo desde propostas de leis até encaminhamentos das investigações ao Ministério Público, que poderá tomar alguma decisão a partir disso.

A CPI não é nunca o fim de um processo, mas ela pode ser o primeiro passo. Ao conferir uma narrativa para o furacão de fatos que compõem nosso presente político, o seu relatório fornecerá as bases da história que contaremos sobre a pandemia - história essa que o bolsonarismo parece não querer ouvir.

Toda narrativa é contada por alguém e, no caso presente, o relator é um experiente parlamentar, o senador do MDB, Renan Calheiros, um desafeto do presidente Jair Bolsonaro.

Não cabe aqui julgar o caráter de Calheiros, mas sim fazer uma análise política do momento e das possibilidades da CPI a partir do que foi visto em seu discurso inicial, por sinal, permeado de simbolismos que não podem ser deixados de lado.

Político experiente e habilidoso, o senador sabe que na política os ritos têm importância e que neles as palavras são fundamentais.

Assim, após ressaltar o caráter técnico da CPI e a isenção ideológica de sua participação na mesma, Calheiros pronunciou um discurso formulado a partir de oposições simbólicas bem construídas e que davam um recado claro ao governo: vida versus morte; ciências versus obscurantismo; a defesa da vida contra a política da morte; o fascismo em oposição à democracia e ao respeito às instituições; a defesa da verdade contra a mentira; luz versus trevas; civilização contra barbárie.

Colocadas no papel, as palavras apresentam uma frieza que não se verifica no discurso. Qualquer um que se arrisca a escrever sabe que a escolha das palavras e a organização delas em frases sequenciais bem escritas pode dar ou tirar poder de uma ideia.

Quem escrever discursos políticos, então, deve estar atento para o caráter performático, de espetacularização, que eles devem adquirir. Isso não quer dizer que as frases se tornem imbuídas de falsidade e esvaziadas de sentido, mas que, pelo contrário, suas mensagens são reforçadas pelo "adorno" que potencializa o ato político.

O discurso de Renan Calheiros - apesar de que ele tenha reforçado o aspecto técnico e não politizado - foi uma mensagem clara ao governo: na política brasileira não existe lugar para Dons Quixotes e seus moinhos de ventos.

Tudo isso veio recheado de frases bem compostas por expressões como "celebração da vida", "sacralização da verdade" e por sentenças como "dar um basta na mentira" que "sufocou a sociedade brasileira" - para quem acompanha a política brasileira e não está disposto a ser mais um Sancho Pança de Bolsonaro, a associação com as fake news é transparente.

Já na conclusão, Calheiros disse que a CPI seria uma "cruzada contra a agenda da morte e do caos social", bem como contra o "negacionismo", palavra que colou na imagem do presidente da mesma forma como uma cola super bond cola em nossos dedos.

O governo não tem maioria na CPI e o que o discurso de Calheiros indica é que Bolsonaro terá uma enorme dor de cabeça pela frente.

Isso foi reforçado quando, sem citar o nome do presidente brasileiro, Calheiros mencionou Slobodan Milosevic - ex-presidente da Sérvia e da Iugoslávia - e Augusto Pinochet - ex-ditador chileno -, como exemplos de governantes relacionados a crimes contra a humanidade, enfatizando a necessidade de se encontrar os culpados pelo grande número de mortos pela pandemia no Brasil.

Vale lembrar que Bolsonaro busca se afastar da alcunha de "genocida", como é chamado por seus opositores. Pesa ainda o fato da CPI da Covid também ser chamada de "CPI do genocídio".

A pedra no sapato do bolsonarismo fica mais pesada quando se observa a insistência do governo em seguir em uma aposta errada. O temor da concorrência com o ex-presidente Lula e a indicação do médico Marcelo Queiroga como ministro da Saúde levaram algumas pessoas a especularem uma mudança de postura do presidente.

O fato é que essa durou muito pouco e no último 23 de abril, exatamente um mês após a posse de Queiroga como ministro da Saúde, Bolsonaro, em uma entrevista com o apresentador Sikêra Jr., repetiu as mesmas posturas que marcaram sua atuação frente à pandemia: criticou o lockdown - que nunca foi aplicado integralmente no Brasil -; a atuação de prefeitos e governadores; e a imprensa.

Reforçou também generalidades sobre políticas ambientais, investimentos em ciência, imunidade de rebanho e não faltou com práticas preconceituosas que envolveram estereótipos xenófobos e discursos homofóbicos. Tudo isso, claro, com a irreverência de quem parece não ter levado nem a pandemia nem a política a sério.

Lamentavelmente, a morte parece ser a maior realidade no país atualmente. E a realidade, nós sabemos, não pede licença para moinhos de vento. Por outro lado, nosso Dom Quixote não parece fruto da imaginação poderosa de um Cervantes, mas antes um arremedo de ditadores e de momentos sombrios do século XX.

A CPI tem papel fundamental em contar parte de nossa história recente e, com cálculo e precisão política, talvez ela possa se converter em um passo importante na celebração da justiça e na homenagem aos mortos. Que ela não termine em pizza.

* Warley Alves Gomes é mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais - Campus Avançado Arcos. Também se dedica à escrita literária, tendo estreado com a publicação do romance O Vosso Reino, em 2019.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL