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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guedes encarna a 'elite do atraso' no poder

8.fev.2021 - O ministro da Economia, Paulo Guedes, após reunião com o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL) - Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
8.fev.2021 - O ministro da Economia, Paulo Guedes, após reunião com o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL) Imagem: Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

07/05/2021 11h43

* Igor Tadeu Camilo Rocha

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta depôs à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado na terça-feira (4). Suas falas chamaram a atenção por vários motivos que não caberiam neste texto, e nem é esse o meu objetivo. Em especial, quero destacar uma breve parte de seu depoimento, que foram seus comentários sobre o ministro da Economia Paulo Guedes. Mandetta disse que Guedes "era desonesto intelectualmente, uma coisa pequena, um homem pequeno para estar onde está."

Mandetta disse isso quando arguido pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). Depois, o mesmo ex-ministro da Saúde comentou uma emblemática fala de Guedes, de março de 2020, sobre ter disponibilizado R$ 5 bilhões com os quais se controlaria a pandemia já nas suas primeiras semanas.

De acordo com Mandetta, "Guedes disse que a Saúde saiu com R$ 5 bi e não comprou vacina [...] eu acho que muita gente acha que a vida se pauta por likes, enquanto o vírus e a doença estão no mundo real [...] esse ministro não soube nem olhar o calendário [de vacinação] para falar 'puxa, enquanto ele estava lá, nem vacina sendo comercializada no mundo havia. Só posso lamentar."

No dia seguinte, outro ex-ministro, Nelson Teich, depondo à mesma CPI, foi menos direto, mas também um tanto enfático sobre a agenda política adotada pelo governo Bolsonaro que coloca economia e medidas de contenção da covid-19 em polos opostos.

Para Teich, que classificou tal divisão como "ruim", "economia e saúde não são coisas distintas. Quando você avalia a sociedade, o nível de saúde da sociedade, você tem o cuidado em saúde, e tem os determinantes sociais da saúde, você tem economia, saúde, educação, onde a pessoa mora, uma série de coisas."

As falas de ambos denotam a percepção de algo errado na visão político-econômica adotada pelo governo Bolsonaro, que na sua ala técnica - ao menos em discurso, como explicarei mais à frente - é sintetizada na figura de Paulo Guedes. Vamos analisar essa questão - o lugar do "guedismo" no bolsonarismo - em algumas partes deste artigo.

De início, cabe ressaltar que não é muito difícil encontrar falas do ministro da Economia, de 2020 até hoje, que endossam a divisão criticada por Teich. No início de maio do ano passado, por exemplo, Guedes esteve junto a Bolsonaro e empresários num gesto de pressão contra o Supremo Tribunal Federal (STF), em ato que ficou marcado pelo uso da expressão "morte de CNPJs" referindo-se aos fechamentos de empresas devido às políticas de isolamento social.

Justiça seja feita, Guedes tem dado declarações recentes nas quais coloca essa discussão de maneira bastante razoável, como na videoconferência realizada com investidores no final de abril em que disse que o isolamento social não precisava ser abandonado naquele momento, em que o Brasil registrava recordes diários de mortes por covid-19, podendo ser conciliado com a preservação de atividades econômicas.

Mas tal razoabilidade parece estar já muito distante quando rememoramos algumas das mais recentes declarações do ministro. Tratam-se de falas que Rodrigo Ratier, colunista de Ecoa, sintetizou como sendo um elo direto entre o Ministério da Economia com o folclórico arquétipo do senhor de meia-idade, saudoso da ditadura militar ou de qualquer outro passado idealizado e que acredita em tudo que recebe de grupos do WhatsApp: em síntese, Paulo Guedes funciona como falso espelho para preconceitos, crenças conspiratórias e mediocridade intelectual comuns às nossas classes médias e elites, que são formadoras de suas visões tacanhas e atrasadas de mundo.

São falas já amplamente noticiadas nos últimos dias, nas quais Guedes dizia sobre pessoas quererem viver demais e isso onerar a economia, ou contava a respeito de um suposto filho analfabeto de um porteiro que teria zerado a redação e passado em uma universidade, em curso custeado pelo FIES - demonizado pelo ministro -, dentre outras.

Sequer podemos dizer que essas declarações são isoladas, visto que, como ministro, Guedes já falou de "empregadas irem para a Disney" ao se referir ao alto preço do dólar como algo positivo, ou de que as pessoas se acostumariam com uma "vida boa" e "ninguém iria querer trabalhar por oito anos" caso se prorrogasse o auxílio emergencial de R$ 600,00.

A despeito disso, Paulo Guedes, assim como o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, desde a eleição de 2018 e de maneira mais acentuada ao longo do governo, via de regra é colocado na posição de ser a última reserva de racionalidade em meio a um grupo de fundamentalistas, protofascistas e adeptos de ideologias bizarras e exóticas diversas que compõe ou compuseram o governo Bolsonaro.

Assim, o "votei no Guedes" se tornou um mote daqueles que apertaram o 17 nas urnas em 2018 motivados por um liberalismo econômico, buscando demarcar sua diferença com outras cepas de eleitores do atual presidente.

Contudo, ainda que quem "votou no Guedes" tente dizer e se afirmar pelo contrário, o atual ministro da Economia é tão bolsonarista quanto seus pares mais caricatos do governo federal. A diferença é que sua representação como "quadro técnico" por excelência é tão artificial quanto a divisão "ala técnica" e "ala ideológica" usada para se falar dos quadros que compõem o governo Bolsonaro. Guedes é ideológico também, se formos nos ater a essa variante de vocabulário político.

Assim como acontece em relação a Moro e ao lavajatismo, depositar em Guedes a expectativa de ele ser a voz racional do governo ou de seu projeto de sociedade trazer algo que irá finalmente modernizar o Estado brasileiro, livrando-o de seus vícios históricos, diz bastante sobre o estado de mediocridade do debate político brasileiro que nos levou até o bolsonarismo.

Guedes é ideologicamente tão dogmático quanto qualquer Damares Alves ou Ernesto Araújo. Sua agenda supostamente modernizante no campo econômico e na organização do Estado é tão "moderna" quanto a mentalidade, eivada de ódio de classe, preconceitos e limitação intelectual, daquele arquétipo do compartilhador de "verdades alternativas" que circulam em aplicativos de mensagens, exemplificado acima.

Grande parte desse problema de avaliação sobre o ministro da Economia vem de um problema sobre o qual já discuti neste espaço: a divisão artificial de alas, ideológica e técnica, nas avaliações sobre o atual governo. Entendo que é necessário insistir em se mostrar o quanto essa divisão é equivocada. Mais que isso, insisto na importância de se entender o quanto esse equívoco acaba nos levando a insistir noutros.

A artificialidade dessa divisão se firma, sobretudo, em se tratar ideologia e técnica como se fossem coisas que existem em universos distintos. Nada mais falso que isso. Nenhum grupo humano faz escolhas técnicas e executa procedimentos ou projetos segundo métodos constituídos, aceitos e provados como verdadeiros de forma totalmente isenta de balizas e pressupostos ideológicos.

Da mesma forma, e de maneira complementar, por mais marcadamente ideológico que algum grupo humano seja e se organize, ele também tem protocolos, procedimentos e técnicas instituídos e autorizados de maneira que os possibilite resolver problemas e levar à frente suas intenções.

Por aí, podemos avaliar o quanto e como balizamentos ideológicos norteiam certas tomadas de decisão e as implicações disso na vida coletiva de uma democracia. E tendo isso em vista, cabe dizer que os pressupostos ideológicos de Guedes são baseados numa leitura dogmática de um neoliberalismo tributário das ideias da Escola de Chicago, da segunda metade do século passado, mas que se vale da posição desse neoliberalismo na esfera pública do Brasil para se mostrar como uma espécie de "não ideologia".

Dessa maneira, a defesa de um Estado que é necessariamente ineficiente e corrupto, contrariamente a uma iniciativa privada que é a solução para tudo - ponto presente na abjeta fala de Guedes na qual insinuava que a China teria criado o vírus, mas feito em seguida uma vacina menos eficiente para ele do que as que empresas privadas ocidentais o fizeram - e de privatizações e reformas como solução inequívoca são postos no debate público não como escolhas, mas caminhos absolutos e incontornáveis.

Guedes sintetiza as crenças políticas de um dos 16 grupos (o 11º, no caso) de eleitores de Bolsonaro estudados por Isabela Kalil intitulado "Quem são e no que acreditam os eleitores de Bolsonaro: 16 perfis", publicado em 2018.

Esse grupo, nomeado pela autora de "meritocratas", resume uma cepa identitária de pessoas que articulam antipetismo/antiesquerdismo com pontos como a demonização de programas sociais, a exaltação da meritocracia como meio único de ascensão social e que serve, também, como sustentáculo de sua autoridade ético/moral e política, dentre outros pressupostos que compõem um projeto neoliberal de sociedade e política.

Sua visão de mundo traz a concepção de um Estado intrinsecamente corrupto, dos programas sociais e as ações afirmativas como forma de privilegiar grupos de pessoas que não ascenderam por mérito individual, além de representarem a si próprios, também pela via da meritocracia, como exemplos de um "Brasil que deu/pode dar certo".

Trata-se de um tipo de marco ideológico com grande representação em muitos setores sociais, que vão de analistas políticos com voz ativa em veículos de imprensa, passando por consideráveis setores da intelectualidade, empresariado e classes médias brasileiras, chegando a amplos espectros da classe política.

Esses pressupostos ideológicos estão tão disseminados e sólidos no debate público que falas de Guedes como a da "vida boa" gerada pelo prolongamento do auxílio emergencial, sobre funcionários públicos como "parasitas" ou de privatizações e cortes no serviço público como solução para todos os problemas administrativos e políticos do Brasil soem tão naturalizadas, a ponto de nem sempre serem questionadas e problematizadas como deveriam ser. Além disso, falas do tipo aparecem com um invólucro de técnica, e questioná-las é "ideológico" - aqui como sinônimo de irracional.

O liberalismo anacrônico de Paulo Guedes, levado por ele às formas mais ortodoxas, é um aspecto importante para a composição das várias racionalidades que formam o bolsonarismo.

Ele serve a toda uma concepção de sociedade esvaziada do sentido de coletividade, pautada no reforço de hierarquias e privilégios mal disfarçadas de mérito individual. Nesse sentido, podemos identificar nessa agenda Guedes a realização de aspectos historicamente identificados com a implementação do neoliberalismo na América Latina, como o aprofundamento da desigualdade, aumento da pobreza e o reforço de nossa condição periférica de um capitalismo dependente.

Mas Guedes leva isso além, ao nível de um pensamento mágico, segundo o qual privatizar, atacar o funcionalismo e serviços públicos e diminuir ao máximo o Estado para a maioria da população - exceto aos aliados, os quais lotearão ao máximo esse mesmo Estado - fará com que o desenvolvimento chegue em algum momento, ou até já tenha chegado, pois não foi apenas uma vez que Guedes afirmou que o país estaria "decolando" ou com "crescimento em V" a despeito de dados negativos amplamente divulgados.

Guedes compartilha das linhas gerais de seus pressupostos ideológicos com amplos espectros das elites e empresariado, juntamente com editoriais de grandes empresas de mídia, os quais enxergam no dogmatismo neoliberal de Guedes seu projeto de modernidade - ainda que órgãos como o FMI ou o próprio governo dos Estados Unidos sob Joe Biden mostrem que essa seja uma "modernidade" que não deveria ter sobrevivido à crise de 2008.

Por essa via se criam-se expectativas, um wishful thinking contínuo do enfadonho "Bolsonaro modera seu discurso" ou expressos no constante otimismo quanto aos planos e avaliações - cada dia mais distantes da realidade - de Paulo Guedes.

De toda forma, críticas como as feitas pelos ex-ministros da Saúde a Guedes e tantas outras mais - como as da economista Monica de Bolle, a respeito de seu anacronismo - mostram que há, sim, alternativas, e que a ortodoxia de Guedes não é o único caminho - são escolhas feitas e ideologicamente orientadas e com objetivos claros.

Cada vez mais, o guedismo deverá ser a marca identitária, como ideologia político-econômica, daquilo que Jessé de Souza chama de "elite do atraso", que é um ethos formado numa sociedade escravista, que do século 19 à atualidade se apegou a uma tradução tosca do liberalismo do norte global que serve apenas para uma classe adornar seu projeto arcaico de manutenção de privilégios com um suposto "mérito" ou com arremedos de "modernização".

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL