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Entendendo Bolsonaro

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro empurra o Brasil para golpe ou revolução

O presidente Jair Bolsonaro discursa em evento com militares hoje no Palácio do Planalto - EVARISTO SA/AFP
O presidente Jair Bolsonaro discursa em evento com militares hoje no Palácio do Planalto Imagem: EVARISTO SA/AFP
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

28/05/2021 16h19

* Vinícius Rodrigues Vieira

A sucessão de eventos da última semana de maio cristalizou em mim algo com o qual me debato há tempos: o presidente Jair Bolsonaro colocou o Brasil num beco sem saída. Para sair dele, os instrumentos legais disponíveis mostram-se contraproducentes. Não é opinião: trata-se de uma análise. Se fosse opinar, defenderia o impeachment do chefe de Estado brasileiro. Afinal, a Constituição é a arma principal de qualquer democrata.

Dito isso, as revelações estarrecedoras de depoentes à CPI da Pandemia, a demora no Exército em punir o general Eduardo Pazuello por ter participado de ato partidário ao lado do presidente, a dificuldade em termos uma alternativa além de Lula contra Bolsonaro em 2022 e o cenário global de declínio democrático levam-me a traçar três cenários nada alvissareiros para nosso futuro. Cada um dos cenários faz uma analogia com uma experiência de golpe ou revolução em anos recentes, envolvendo líderes populistas e/ou autoritários.

1 ) Bolsonaro vira Chávez 2002: irritados com o presidente e cientes de seu caráter assassino na condução da pandemia, forças legalistas do Exército impõem-lhe uma renúncia forçada, com o apoio - ainda que indireto - de parte da imprensa.

No entanto, bolsonaristas - civis e militares - acabam por reagir, denunciando ao mundo uma clara violação da democracia. Bolsonaro volta ao poder com mais força, tal como Hugo Chávez o fez na Venezuela depois de ter ficado quase 48 horas, em abril de 2002, sob custódia militar. Pró-Chávez, a guarda presidencial ajudou o presidente a se reinstalar no poder.

No Brasil, pode desempenhar tal função o EB - ou seja, os oficiais que são parte do Exército Bolsonarista (que, ao que tudo indica, existe de fato dentro do verdadeiro EB, o Exército Brasileiro). "Bolsochávez" é magnânimo no começo, mas, depois, inicia uma escalada autoritária, com intervenções no Legislativo e no Judiciário, para sair do poder apenas morto, tal como o Chávez original.

As similaridades entre o Brasil de 2021 e a Venezuela de 2002 são altas, sobretudo quando consideramos o tempo de mandato (tal como Chávez à época, Bolsonaro tem hoje quase três anos de mandato) e as intenções antidemocráticas dos mandatários, até então apenas no nível retórico, com intervenções cirúrgicas nas instituições (exemplo: aparelhamento de ministérios);

2 ) Bolsonaro vira Erdogan 2016: o presidente turco Recep Tayyip Erdogan - no poder desde 2003, inicialmente como primeiro-ministro e, depois de 2014, como chefe de Estado - sofre uma tentativa de golpe promovida por facções das Forças Armadas que veem no mandatário uma ameaça aos princípios seculares legados por Ataturk, pai da república fundada em 1923, sob os escombros do Império Otomano, então guiado por valores islâmicos.

Nesse sentido, as similaridades com o Brasil são impressionantes. A República aqui é fruto de um golpe militar dado por oficiais positivistas, que defendiam uma separação entre a Igreja Católica e o Estado. Secularismo e positivismo que foram postos em xeque por Bolsonaro, haja vista sua proximidade com cristãos conservadores e postura anticiência na condução da pandemia.

Diferentemente do cenário "Bolsochávez", nesse caso o presidente brasileiro tornar-se-ia "Bolsogan". Erdogan vingou-se imediatamente dos golpistas, promovendo expurgos no serviço público civil e militar, atingido até mesmo o Judiciário. Nesse caso, a similaridade entre o Brasil de 2021 e a Turquia de 2016 é média. Tal como Bolsonaro, Erdogan já vinha numa escalada autoritária, mas estava no poder há mais tempo, tendo apoio sólido no Parlamento;

3 ) Bolsonaro vira Trump 2020: tudo se mantém como está até 2022, quando Bolsonaro perderia a reeleição. Inicia-se uma disputa ranhida pela recontagem de votos. Acusações falsas de fraude mobilizam bolsonaristas, inclusive militares de baixa patente, sem, no entanto, haver maiores consequências.

Algum prédio público em Brasília é invadido tal como o Capitólio o foi em janeiro de 2021, mas aqueles contra Bolsonaro se impõem dada a ausência de apoio dos altos oficiais à aventura golpista. O então ex-presidente dedica-se a infernizar o novo governo, numa preparação para 2026 e resistência a eventual extradição para ser julgado por crimes contra a humanidade em Haia.

No entanto, a similaridade entre o Brasil de 2021 e os Estados Unidos de 2020, vale lembrar, é baixa. Como os militares não se cansam de demonstrar, o Exército Bolsonarista já existe e ficaria ao lado do presidente nesse cenário, realizando o sonho de seu grande ídolo americano: manter-se no poder à força. Assustador, não? Sim, mas também realista, haja vista o entusiasmo de oficiais e, sobretudo, praças com Bolsonaro e a tradicional falta de independência entre poder civil e militar no Brasil.

Os bundas-sujas - expressão aplicada a militares medíocres e civis incompetentes em geral - venceram. Não me apraz usar uma expressão que beira a escatalogia num artigo, mas a realidade se impõe. Vejo a combinação dos cenários 1 e 3 como a mais provável - Bolsonaro fica no poder a qualquer custo e, no pós-2022, teremos um autoritarismo incremental.

E quanto ao impeachment? Caro leitor, ao traçar cenários prospectivos, não se deve discutir miragens. Bolsonaro ainda dispõe do apoio de um terço do eleitorado e, o que mais importa, o respaldo dos bundas-sujas. A revolução deles já começou e - perdoem-me a franqueza analítica - a atual Constituição talvez não tenha papel suficiente para limpar tamanha sujeira.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na FGV

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL