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Entendendo Bolsonaro

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Após um mês, CPI aumenta desgaste do governo

18 mai. 2021 - Senadores Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros, membros titulares da CPI da Covid - Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo
18 mai. 2021 - Senadores Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros, membros titulares da CPI da Covid Imagem: Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

01/06/2021 09h09

* Warley Alves Gomes

Há cheiro de fumaça no ar e onde tem fumaça, tem fogo, é o que diz o ditado. A questão é saber se é fogo de palha ou de um incêndio lento, desses que acabam até com os edifícios mais bem cimentados. É essa a grande questão da CPI da Covid, que inicia nesta semana o seu segundo mês de trabalhos.

A pergunta de um milhão de dólares é: "vai dar em algo?". Depende do que se considera por "dar em algo". Como tudo na vida, a CPI tem seus objetivos explícitos e implícitos. O objetivo explícito comum - e indiscutivelmente legítimo - é saber quem são os responsáveis por políticas públicas que levaram - até o momento - mais de 450 mil brasileiros à morte.

E relação ao apelidado G7, constituído pelo grupo que marca oposição ao governo, a meta é verificar as implicações de Bolsonaro e sua equipe nas decisões que levaram o Brasil a ser o segundo país com maior número de mortes no mundo.

Por outro lado, os governistas querem atrapalhar o máximo possível os trabalhos da CPI e dissolver a culpa do governo federal entre governadores estaduais, prefeitos, empresas farmacêuticas e qualquer outro ser - real ou imaginário - que possa existir.

Para quem acusa a CPI de ser "política", vale esclarecer: independente do que for dito por governo ou oposição, a CPI se instala no Senado, e ela investiga possíveis crimes políticos. Dizer que a CPI é política é como dizer que a água é molhada. Bom, nada é impossível para negacionistas e, nesse momento, retomando a metáfora da fumaça, o que eles gostariam mesmo é que não houvesse fogo, mas há, isso é fato.

Arrisco um palpite: para o alcunhado G7 o que mais importa é um objetivo implícito: desgastar, mais que punir Bolsonaro. Isso porque, finalizado, o relatório será encaminhado para Augusto Aras, o procurador-geral da República, cuja independência em relação a Bolsonaro é duvidosa, para dizer o mínimo.

Se alguma punição vier, o mais provável é que ela se restrinja a alguns membros secundários: Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social, ou Mayra Pinheiro, mais conhecida como "Capitã Cloroquina", a super-heroína dos sancho panças. Outros como Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde que parece ter agido como um verdadeiro "ministro da Morte", e o olavista Ernesto Araújo, chanceler do Universo Paralelo, devem escapar de punições mais severas. Ao menos por enquanto.

2022 é ano eleitoral e esse desgaste pode sair caro a Bolsonaro. Aqui precisamos fazer a análise com calma. Pesquisas mais recentes, como a do PoderData, demonstram que a rejeição a Bolsonaro bateu recorde, chegando a 59%.

Outras, mais ponderadas, como a Datafolha, apontaram para um índice de rejeição de 54%. Existe uma diferença de pouco mais de dez dias entre uma e outra, o que pode significar alguma mudança concreta, mas, de qualquer maneira, o resultado para o presidente é bastante negativo.

De modo geral, o que essas pesquisas indicam é que o número de pessoas que consideram o governo regular está migrando para o campo do "ruim ou péssimo", enquanto as que o consideram "bom ou ótimo" tendem a se manter relativamente firmes em suas convicções, sendo que essa porcentagem continua na faixa de 24 a 28% do eleitorado.

O número de apoiadores do presidente é considerado por alguns como alto, frente aos desvarios de um governo negacionista que parece disposto a colocar a vida dos brasileiros em risco.

A coisa se agrava quando depoimentos claramente mentirosos como o de Ernesto Araújo, Eduardo Pazuello e Mayra Pinheiro são confrontados com os de Carlos Murillo, gerente-geral da Pfizer na América Latina, e Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, demonstrando que houve, no mínimo, um descaso do governo federal e do Ministério da Saúde em relação à compra de vacinas e ao combate à pandemia no Brasil.

Como se não bastasse esse descaso e as bizarrices protagonizadas pela base do governo na CPI, como foi o emblemático caso do senador Eduardo Girão (Podemos-CE), que no dia 27 de maio sugeriu a possibilidade de "fetos abortados" na composição da Coronavac, o Brasil - e infelizmente, o mundo - pôde assistir na semana passada uma passeata de motoqueiros, digna do ex-condottieri Benito Mussolini, coroada com a participação de Eduardo Pazuello, que tem tudo para virar uma espécie de "general da morte" no implacável julgamento do tribunal da História.

Segundo Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, as políticas do governo Bolsonaro podem ser explicadas pela "pulsão de morte", conceito inaugurado por Sigmund Freud. Para Dunker, existiria uma conexão entre essa pulsão - caracterizada pela satisfação da culpa na repetição de efeitos de experiências traumáticas, indo além de uma lógica utilitarista do prazer - e o "deixa morrer" característico da condução do Executivo Federal na pandemia.

Essa conexão, dentre outras possibilidades, se verificaria em grupos que se formam por condutas de agressividade, através de fantasias paranoicas, levando-os, coletivamente, a abandonarem seus próprios desejos em troca de acolhimento ao desamparo que sentem. O amparo, nesse caso, não pode ser outro que o líder; no caso em questão, Jair Bolsonaro.

Gostaria de lembrar, brevemente, outro texto de Freud que pode nos ajudar a compreender o contexto: Psicologia de Massas e análise do Eu, publicado pela primeira vez em 1921. Como não é o objetivo aqui se delongar nas complexas formulações de Freud, destaco o conceito de "ideal do Eu" que, em linhas gerais, representaria estruturas simbólicas idealizadas que serviriam de norte para o indivíduo.

O ideal do Eu pode ser uma pessoa, mas também uma ideia-guia, modelar. Talvez esse seja um ponto a se refletir: para esses 24 a 28% que seguem como fiéis de Bolsonaro, o presidente, além de um líder, é a representação simbólica de várias estruturas formadas pelo ressentimento: não o veem como um homem autoritário, mas a própria força, sendo, nesse sentido, o negacionismo um mecanismo de empoderamento daqueles que, à margem de estruturas que conferem poder - a política, as universidades etc. - viram em sua figura a identificação com seus próprios ideais.

Para os bolsonaristas, Bolsonaro supre uma falta. Colocando-se nesse lugar, ele ocupa um lugar de paternidade, estabelecendo uma lógica hierárquica em relação a seus fiéis, mas unindo a todos em uma concepção horizontal: no bolsonarismo todos se sentem iguais, atando as mais variadas concepções de mundo que os relegaram a um espaço marginalizado.

Provavelmente, nesse momento, os membros de oposição ao governo na CPI estão cientes de que dificilmente conseguirão efeito nessa parcela menor da população - bem representada, diga-se de passagem, pela base governista. Mas miram inteligentemente na parcela média, antes indecisa, daqueles que estão ali titubeando em classificar o governo como "regular" e agora começam a migrar para o "ruim ou péssimo".

Pensar que se trata de um grupo lulista é bobagem; também tenho minhas dúvidas se todos ali têm real apreço pela democracia, uma ideia por vezes abstrata demais para quem está acostumado com a política "nos dentes". O que parte dos parlamentares - e da população - percebeu é que Bolsonaro é inviável.

* Warley Alves Gomes é mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais - Campus Avançado Arcos. Também se dedica à escrita literária, tendo estreado com a publicação do romance O Vosso Reino, em 2019.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL