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Entendendo Bolsonaro

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Rir de percalços da vacinação é marca do bolsonarismo online

Bolsonaro participou de evento sobre programa espacial - Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro participou de evento sobre programa espacial Imagem: Marcos Corrêa/PR
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

16/06/2021 11h10

[RESUMO] Enquanto a comunidade científica e as autoridades sanitárias do mundo quebram a cabeça para entender as curvas epidemiológicas no interior de cada realidade, os bolsonaristas riem. Para o bolsonarismo, rir das tragédias é um marcador de identidade, um gesto de insubordinação e passo adiante rumo à utopia de um antigoverno.

* Murilo Cleto

Nas últimas semanas, o jornalismo tem se dedicado a repercutir estudos e hipóteses que ajudam a explicar por que alguns países têm tido dificuldade em controlar a pandemia, mesmo com uma cobertura vacinal mais ampla. Enquanto Israel e Estados Unidos, por exemplo, têm conseguido fazer despencar rapidamente a curva de contaminações e mortes, Chile e Uruguai seguem numa situação difícil.

Há algo que salta aos olhos para quem acompanha o compartilhamento dessas notícias no Facebook: rigorosamente todas elas são inundadas por reações de riso. Como se sabe, em 2016 a rede de Mark Zuckerberg liberou cinco opções além do usual "curtir" para as interações. A ideia era tornar o comando o mais próximo possível do sentimento que se gostaria de externar e, desta forma, proporcionar uma experiência algo mais humana para os usuários.

Claro, também há outras razões, sobretudo mercadológicas. Com a variedade de botões, fica mais fácil para o Facebook entender melhor a personalidade de cada um e assim organizar com mais precisão o conteúdo que, pelo algoritmo, será gerado nas timelines. Marcas e políticos também têm se aproveitado disso para se reinventar ou oferecer produtos personalizados.

De fato, era estranho "curtir", por exemplo, a notícia da morte de alguém. Agora, com as opções "triste" e "força" - essa última criada para dar conta do volume de obituários durante a pandemia -, é possível ser menos deselegante.

Isso nunca impediu, no entanto, que fossem aplicados dezenas - às vezes centenas ou milhares - de "haha" nas notícias mais trágicas. Há exceções, além das marcações involuntárias, por óbvio, mas a grande maioria dos distribuidores de risos em posts sobre a crise sanitária vem da extrema-direita. Vacinas, máscaras, qualquer coisa: se algo deu errado, as gargalhadas estão entre as reações predominantes.

facebook-bolsonaristas - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
No Facebook, emoji do riso é o segundo mais utilizado para reagir a notícia sobre o aumento de casos e mortes de covid no Chile, mesmo com a vacinação.
Imagem: Reprodução/Facebook

O que explica isso?

O bolsonarismo sempre canta vitória

Muito já se disse sobre o papel da máquina de desinformação bolsonarista, mas é possível seguir por outro caminho. Não importa o que aconteça, o bolsonarismo sempre canta vitória.

Recorro a um primeiro exemplo mais distante: quando foi divulgado o conteúdo da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, depois de um primeiro período de descoordenação, a direita governista passou a difundir a ideia de que aquelas imagens na verdade teriam garantido, com dois anos e meio de antecedência, a reeleição do presidente.

O que se revelou ali era grave: Bolsonaro assumia que queria a Polícia Federal (PF) prestando contas de seus atos pessoalmente a ele. Mas os bolsonaristas comemoraram. Estaria ali, com os palavrões e os ataques aos adversários políticos e demais poderes, a demonstração de que aquele Jair que se conhecia através das redes sociais e da comunicação institucional era de verdade - em meio a um sistema de mentira.

A bala de prata que a oposição tanto ficou esperando para enfim obter o impeachment sempre esteve ali. Aliás, antes mesmo da divulgação do vídeo. Na coletiva que convocou para horas depois do desembarque do então ministro da Justiça Sergio Moro, Bolsonaro já tinha dito que queria interferir na PF, sim. Ele nunca se defendeu. O bolsonarismo nunca se defende.

Em governos normais, quando estoura algum escândalo, os ministros correm para fornecer dados para a equipe de comunicação, que se defende como pode. Com o bolsonarismo, não é assim que funciona. Diante de qualquer novo caso, o presidente já sabe a resposta. Não precisa se defender. É só falar da mãe do jornalista ou insinuar algo de teor sexual.

O bolsonarismo não se explica nem se defende porque isso seria se submeter ao escrutínio da opinião pública. Seria reconhecer a legitimidade dos órgãos de vigilância e os freios e contrapesos de uma democracia funcional. Mas, aos bolsonaristas, uma democracia funcional não interessa. É na crise generalizada que eles se criam - e é apostando no aprofundamento dela que se perpetuam.

Além da reunião ministerial, há outros exemplos ainda mais excêntricos de comemoração bolsonarista. Quando, no ano passado, a inflação de alimentos disparou, os governistas disseram tratar-se de um desdobramento natural das medidas de isolamento social para conter o avanço da covid-19 - medidas essas a que eles sempre se opuseram. Essa também teria sido a causa da debandada da montadora Ford do Brasil.

Quando surgem notícias de atrasos na vacinação de outros países, os bolsonaristas comemoram. Já por aqui, eles não prestam contas sobre os atrasos, os e-mails da Pfizer, nada disso. O que fazem é, com esses ganchos, debochar de quem cobra algo de Brasília.

Daqui a uns anos, é possível que uma comemoração em particular seja lembrada como representativa dos tempos atuais. O presidente também celebrou quando um voluntário dos testes da Coronavac morreu. "Mais uma que Bolsonaro ganha", comentou sobre a interrupção dos testes com o imunizante desenvolvido pelo laboratório Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo do estado de São Paulo - a mesma vacina que, dois meses atrás, era responsável por 80% dos imunizados contra a covid no Brasil

A extrema-direita brasileira também vibrou quando viu o desabafo do narrador global Luís Roberto sobre a realização da Copa América no Brasil. Para os bolsonaristas, essa se tornou uma oportunidade de ouro para demonstrar a hipocrisia dos que criticam o governo, já que a TV Globo segue transmitindo outros torneios de futebol durante a pandemia, inclusive os internacionais.

Quanto à decisão do presidente mesmo, de aceitar abrigar o torneio de improviso durante um dos mais dramáticos momentos da pandemia no país, nada foi falado. Resultado: na contagem da última terça (15), o total de casos de covid relacionados à competição já somava 52.

Mas quem deve explicações são os outros. O bolsonarismo, nunca. Quando o presidente foi questionado sobre os gastos literalmente milionários de suas férias, Bolsonaro prometeu gastar mais.

Não raro, todas essas notícias mencionadas acima vêm acompanhadas de muitas risadas. Uma primeira hipótese para esse comportamento, portanto, é que o "haha" apareceu como uma oportunidade para a direita governista jogar esse jogo de, como uma torcida na arquibancada, comemorar tudo que acontece em campo como se fosse um gol a favor. Tomou gol? Comemora. Cartão? Também.

É por isso que o presidente tem gostado tanto das tais "motociatas". Elas lhe dão as imagens perfeitas para o seu propósito, que é comemorar sempre. É como se Bolsonaro estivesse, a todo instante, dando uma volta olímpica. Nesse sentido, os passeios de moto parecem ter renovado aquele espírito de marcha que vinha perdendo força nas ruas.

Sem dúvidas, trata-se de um duplo movimento: mostrar-se pequeno demais diante do sistema, que teoricamente ele combate, mas grande o suficiente para ser carregado por multidões, a imagem clássica do "pequeno-grande homem" descrita por Theodor Adorno em sua análise da propaganda fascista.

São essas multidões, aliás, a cada dia mais fanatizadas, que o blindam de prestar contas sobre qualquer coisa - como não vai prestar sobre o volume escandaloso de recurso público injetado na realização desses comícios fora de época. Por mais que se incomode, o bolsonarismo comemora as críticas e cobranças porque as toma como evidência de que o presidente está no caminho certo. Isso é o que basta para que se considerem com a razão.

Ao clicar na carinha do riso diante dessas notícias críticas ao governo, o que faz o bolsonarismo é, primeiro, enviar uma mensagem de insubmissão, ou seja, não reconhecer a legitimidade do emissor e, segundo, filtrar o consumo da notícia para quem chegar depois, já possivelmente influenciado pela reação que acompanha o post matriz.

A utopia bolsonarista

Mas tem mais. Numa publicação de maio, o filósofo Moysés Pinto Neto sintetizou assim a estratégia da nova extrema-direita brasileira: "governar é desgovernar. É preciso se infiltrar em todos os órgãos de estado e desativá-los por dentro, criando os 'antiministros' cuja única função é liberar as forças sociais destrutivas dos seus obstáculos formais para que a força prevaleça".

Exemplos não faltam. Ricardo Salles, do Meio Ambiente, é investigado por atuar em favor de quem desmata ilegalmente a Amazônia; o ex-chanceler Ernesto Araújo criou mais inimigos do que parceiros pelo mundo; Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, odiava visceralmente as universidades públicas. O Brasil já teve inúmeros ministros ruins. Mas esse não é o caso. O primeiro escalão do governo Bolsonaro é composto por antiministros, de fato. Seu papel é destruir aquilo que sua pasta deveria tomar conta.

Na piauí de maio, Miguel Lago foi além: "Bolsonaro deseja uma sociedade pré-hobbesiana, aquela que não precisa de nada nem ninguém. Uma sociedade onde os mais fortes mandam e podem recorrer a qualquer recurso para fazer valer o gozo de seus impulsos". O professor da Universidade de Columbia repercute, no mesmo texto, as reflexões de Roberto Andrés sobre o fenômeno.

Em diferentes artigos, Andrés trata sobre a obsessão que os bolsonaristas têm com o trânsito e com os limites legais que insistem em igualar os "cidadãos de bem" aos meros cidadãos que estão do lado de fora dos muros do Vivendas da Barra.

Eis um dos grandes marcadores de diferença, segundo Lago, entre essa nova extrema-direita e os movimentos fascistas históricos: "o nazismo e o fascismo são construções coletivas - abomináveis, sim, mas ainda assim construções coletivas. O bolsonarismo é a desconstrução de qualquer forma de coletividade".

Quando chegou a pandemia, o bolsonarismo se viu diante da maior oportunidade para mostrar a que veio. Não surpreende, portanto, que Luiz Henrique Mandetta tenha caído justamente quando resolveu aparecer como um ministro de verdade.

Como demonstra em detalhes o relatório do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (CEPEDISA), da USP, o governo Bolsonaro apostou todas as fichas que tinha na tentativa de promover a chamada "imunidade de rebanho", defendida por diversos conselheiros no Planalto. A ideia era simples: deixar o vírus correr solto para contaminar o maior número possível de brasileiros e, assim, garantir a sobrevivência dos mais fortes, que, imunes, tocariam a vida adiante.

Bolsonaro retardou repasses a outros entes federativos; fez campanha contra vacinas; sabotou medidas de isolamento; pagou - só porque foi pressionado - parcas indenizações a empresas e trabalhadores para que ficassem em casa; desaconselhou o uso de máscaras; debochou de doentes; chamou a comoção de frescura; e perguntou até quando vamos ficar chorando.

Se o presidente está atrás de um novo programa de transferência de renda, é porque entende que precisa dele para ser reeleito e manter o projeto de destruição em marcha. Não faz muito tempo que, mesmo pagando e eventualmente capitalizando sobre ele, sugeriu que o auxílio emergencial produz um "povo dominado".

Além da rebeldia, portanto, os "haha" distribuídos às pencas no Facebook têm outro elemento em comum. Eles estão por toda parte, é verdade, mas sobretudo em notícias que repercutem percalços do enfrentamento à pandemia. Nas que versam sobre a persistência no número de mortes e infecções, apesar da vacinação, elas são quase predominantes.

Enquanto a comunidade científica e as autoridades sanitárias do mundo quebram a cabeça para entender as curvas epidemiológicas no interior de cada realidade - considerando eficácia de imunizantes, taxas de isolamento, práticas culturais, fatores sociopolíticos etc. -, os bolsonaristas riem.

No caso específico dos contratempos envolvendo vacinas, especialmente a Coronavac, o deboche cumpre essa dupla função: rejeitar a legitimidade de todos esses esforços de imprensa e ciência no combate à pandemia e comemorar, a posteriori, uma batalha narrativa que havia sido perdida, com a adesão em massa da população brasileira aos imunizantes depois de um primeiro momento de desconfiança - elevada a níveis sem precedentes graças à campanha surrealmente patrocinada pelo governo.

O que para qualquer grupamento partidário poderia significar um suicídio político - rir de milhares de mortes todos os dias -, para os bolsonaristas é um marcador de identidade. A nova extrema-direita ri de quem tenta encontrar uma solução para as mazelas do mundo porque sempre está em vantagem, já que usa qualquer deslize do sistema como combustível.

Como não tem nada a propor, mas só a desativar na estrutura do Estado, o bolsonarismo nada de braçada em meio ao caos e usa todo contratempo como uma evidência de que sempre esteve certo sobre não fazer nada. É como se dissessem: "ocorreu algo de errado no combate à pandemia, mas quem disse que era para combatê-la?".

Em março, uma reportagem da revista Veja contou os bastidores da relação de Bolsonaro com os mais próximos em Brasília: "O presidente não governa. Passa os dias a contar piadas no palácio", disse um ministro. Ninguém pode acusá-lo de incoerência.

* Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural, mestre em Ciências Humanas: Cultura e Sociedade e pesquisador das novas direitas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL