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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Últimas cartadas de Bolsonaro têm potencial devastador para a democracia

10.jun.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante evento no Palácio do Planalto - Adriano Machado/Reuters
10.jun.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante evento no Palácio do Planalto Imagem: Adriano Machado/Reuters
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

06/07/2021 11h45

* Cesar Calejon

Jair Bolsonaro está seminocauteado e apoiado contra as cordas ("centrão" e militares) para não cair. O mais recente escândalo de corrupção implicando-o diretamente no caso das "rachadinhas" o coloca em situação absolutamente indefensável. Contudo, o ex-capitão e a sua trupe nunca jogaram sob as regras democráticas e tentarão todos os tipos de golpes baixos como cartadas finais antes e durante o próximo pleito presidencial.

Somente na última semana, houve indícios claros de que bolsonaristas estariam sendo infiltradas na CPI e nas manifestações do dia 3 de julho para manipular a narrativa segundo os interesses do presidente. No começo desta semana, o deputado federal Alexandre Frota, antigo apoiador do bolsonarismo e hoje filiado ao PSDB de São Paulo, utilizou as suas redes sociais para afirmar que "os black blocs de ontem (3 de julho de 2021) são os bolsonaristas disfarçados. Já temos pistas sobre isso".

Circulam imagens nas quais alguns dos supostos "black blocs" utilizam sapatos do uniforme B-3 da Polícia Militar da cidade de São Paulo, por exemplo, e filmam os próprios atos de "vandalismo" no sentido de estabelecer a narrativa pretendida pelo presidente.

A publicação de Frota foi uma resposta ao comentário feito por Jair Bolsonaro também via redes sociais nessa mesma data: "Nenhum genocídio será apontado. Nenhuma escalada autoritária ou 'ato antidemocrático' será citado. Nenhuma ameaça à democracia será alertada. Nenhuma busca e apreensão será feita. Nenhum sigilo será quebrado. Lembrem-se: nunca foi por saúde ou democracia, sempre foi pelo poder!", escreveu o presidente da República, que também atacou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de forma agressiva, recentemente. Muito conveniente, não? Especialmente, o medo da quebra dos sigilos é muito sintomático.

Outro suposto caso similar de infiltração, dessa vez na CPI e também envolvendo um cabo da Polícia Militar (de Minas Gerais), chamou a atenção do presidente da CPI, Omar Aziz. Na ocasião, Luiz Paulo Dominguetti Pereira divulgou um áudio, atribuído por ele ao deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), para tentar desmontar as denúncias feitas pelos irmãos Miranda contra o presidente da República.

Aziz e os outros membros da CPI não compraram a versão de Dominguetti, pediram uma avaliação de todo o conteúdo presente no celular do cabo e acabaram ouvindo o depoente mudar de postura ao dizer que pode ter sido ludibriado. Muito conveniente, de fato.

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) também usou as redes sociais para dizer: "GOVERNISTAS PEGOS NA MENTIRA! O áudio plantado foi desmoralizado pelo deputado Luís Miranda. O áudio era de 2020, não tratava de vacinas e foi editado. Serviu para gerar falsas versões para o gabinete do ódio. Esse depoente pode acabar preso. Chapéu de otário é marreta!".

Geralmente, jornalistas, comunicadores e figuras públicas mais experientes têm certo receio de examinar questões como essas por conta dos rótulos que surgem facilmente ao redor de teorias conspiratórias.

Apesar disso, ao longo da história, diversos momentos decisivos foram conduzidos com base em atos análogos (de infiltração e sabotagem) a esses e que foram orquestrados pelos regimes vigentes na ocasião. O atentado do Riocentro, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog e a participação estadunidense na Operação Lava Jato são apenas alguns exemplos.

A lista é imensa e, infelizmente, costumamos agir quando os fatos já estão consolidados, o que, via de regra, diminui ou inviabiliza a efetividade da contestação.

Conforme abordado previamente nesta coluna, o bolsonarismo tentará todos os tipos de métodos inescrupulosos para se manter no poder, mas principalmente tentando cooptar a adesão de forças militares estaduais para evitar a possibilidade de prisão dos seus principais membros, após o pleito presidencial de outubro do ano que vem.

Nesse sentido, as forças democráticas (parlamentares e sociedade civil) brasileiras precisam estar ainda mais atentas do que antes no sentido de evitar ações golpistas e a subversão da constitucionalidade democrática do país, porque, em ampla medida, foram ações dessa ordem que nos trouxeram até o caos social, político, econômico e sanitário em que nos encontramos.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL