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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Alta" do presidente é o custo Bolsonaro com reedição de 2018

Bolsonaro sai de hospital sem máscara 2 - Bruno Rocha/Agência Enquadrar/Folhapress
Bolsonaro sai de hospital sem máscara 2 Imagem: Bruno Rocha/Agência Enquadrar/Folhapress
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

18/07/2021 13h44

* Cesar Calejon

Nos últimos dias, o Brasil acompanhou a internação de Jair Bolsonaro por conta de um processo de obstrução intestinal, conforme informações oficiais que foram emitidas pelos médicos encarregados do tratamento.

Valendo-se da comoção que questões dessa natureza invariavelmente causam, mas que ele próprio enquanto figura pública jamais demonstrou, o presidente brasileiro utilizou a sua condição clínica para tentar estancar o acentuado ritmo de desidratação do bolsonarismo e revitalizar as narrativas sociopolíticas que foram usadas em outubro de 2018, o que, consequentemente, aumenta ainda mais os custos objetivos e abstratos da sua gestão para os brasileiros.

No que diz respeito aos primeiros, a alta do custo Bolsonaro segue encarecendo a vida da população sem nenhum posicionamento ou tentativa de reação por parte do governo federal, que simplesmente segue em franca campanha eleitoral visando o pleito de 2022.

Em junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - usado para medir a inflação oficial - ficou em 0,53%. Segundo o DIEESE, a alta foi puxada pelo preço da carne, da energia elétrica, dos combustíveis e do gás de cozinha. Todos os itens de primeira necessidade.

Enquanto isso, a base que ainda sustenta o governo aprovou um fundo eleitoral obsceno de R$ 5,7 bilhões, valor que poderia ser endereçado com muito mais propriedade para aliviar as agruras que enfrentam os brasileiros nesse momento. Sobretudo, os mais empobrecidos e que acreditaram nas bravatas bolsonaristas de redução do estado, gastos eleitorais, fim das "mamatas" e combate à corrupção.

Eventualmente, Bolsonaro poderá vetar a proposta a fim de ganhar alguma popularidade, o que o colocaria em rota de colisão com alguns dos seus principais aliados parlamentares.

Apesar de todas essas questões econômicas, os principais estragos causados pela atual administração federal talvez sejam os de ordem subjetiva e abstrata. Internado em um hospital particular em São Paulo, Bolsonaro (por meio dos filhos) utilizou as suas redes sociais para iniciar uma tentativa de reeditar as ideias que lhe serviram à eleição presidencial em 2018, fundamentalmente.

Durante o período de internação, o presidente afirmou, sem demonstrar provas, que o seu estado de saúde seria uma "consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil. (...) Por Deus foi nos dada uma nova oportunidade", disse via publicação em seu perfil.

Três dias depois, ainda internado em São Paulo, ele atacou o ex-presidente Lula com um vídeo no qual o petista elogia o líder da revolução cubana, Fidel Castro.

"Não desistam do que é certo e do que é necessário fazer... Ou a cobrança pela fraqueza e desistência será maior que a dor do momento. E se as gerações de agora já pagam um alto preço, imaginem as que virão. DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA", bradou o presidente da República, sem fazer nenhuma avaliação sobre como esse "alto preço" tem uma correlação direta com a tempestade perfeita que o seu governo fomentou à população brasileira ao longo dos últimos quase três anos.

Independentemente da seriedade do quadro clínico, o fato é que a internação de Bolsonaro foi usada cirurgicamente, sem que a cirurgia acontecesse de fato, para tentar desesperadamente retomar as narrativas que o elegeram: o antipetismo, o elitismo histórico-cultural, o dogma religioso e a sensação de antissistema, que foram avançadas pelas redes sociais.

Novamente, faz-se necessário avaliarmos os indexadores sociais práticos que desmontam os discursos bolsonaristas e a tentativa de reavivar o cenário político de 2018. Conforme demonstrado anteriormente nesta coluna, todos os principais parâmetros utilizados para medir a qualidade de vida dos brasileiros pioraram significativamente sob a gestão Bolsonaro.

Dessa forma, nenhum quadro clínico sério ou qualquer tentativa de ludibriar a opinião pública pode alterar a materialidade que condena este governo como o pior da história brasileira em, basicamente, todas as searas da vida social, política e econômica.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL