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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Militares jogam com outubro vermelho em 2022

General Walter Braga Netto teria ameaçado não permitir eleições democráticas caso o voto impresso não seja aprovado pelo Congresso  - ADRIANO MACHADO
General Walter Braga Netto teria ameaçado não permitir eleições democráticas caso o voto impresso não seja aprovado pelo Congresso Imagem: ADRIANO MACHADO
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

23/07/2021 13h48

*Vinícius Rodrigues Vieira

A julgar pelas reações à suposta ameaça do Ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, de impedir a realização do pleito de 2022 caso o voto impresso não seja adotado, o principal desafio que os democratas do Brasil vão enfrentar não reside no descumprimento do calendário eleitoral, mas numa ameaça tão ou ainda mais grave. As movimentações da última quinta-feira e dos dez primeiros dias do mês sugerem que os comandantes militares ameaçam não reconhecer os resultados das eleições presidenciais.

Vamos fazer abaixo um exercício de análise de conjuntura tal como o que permitiu a este colunista antecipar substantivamente em 14 dias o que O Estado de S. Paulo publicou apenas em 22 de julho. Nas colunas "Militares sinalizam que Bolsonaro sai do poder apenas se quiser", publicada em 8 de julho, e "Comando Militar indica apoio a interpretação golpista da Constituição", veiculada no dia seguinte, eu afirmei, com base nas evidências publicadas até então, aquilo que Braga Netto e os comandantes militares teriam afirmado nos bastidores ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

Isso porque qualquer violação ao processo eleitoral para a escolha do presidente da República em 2022 implica na manutenção do atual ocupante do cargo, o capitão Jair Bolsonaro (sem partido), no poder. Não me parece coincidência que, ameaçado pela crescente impopularidade e incapacidade de encontrar um partido para chamar de seu, o presidente tenha afirmado em 19 de julho — três dias antes da divulgação da ameaça golpista de Braga Netto e asseclas — que pensa em não disputar a reeleição.

Oficialmente, Bolsonaro diz que não se candidataria por causa da suspeição que ele e correligionários colocaram sobre a legitimidade do voto eletrônico e, ao que tudo indica, a impossibilidade do retorno às cédulas de papel no próximo ano, dado que líderes partidários no Congresso fecharam questão contra a proposta bolsonarista.

Tal como biruta de aeroporto, Bolsonaro depois negou tudo, afirmando que entrega a faixa para quem quer que ganhe a disputa. Nos bastidores, porém, o jogo é mais complexo. Conforme sugerido também em 22 de julho na apuração de Thais Oyama, os militares teriam problemas em reconhecer uma eventual vitória de Lula (PT), líder nas pesquisas.

A ojeriza a Lula faz sentido ainda mais se considerarmos que o petista não foi candidato em 2018 apenas por conta da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de prendê-lo em abril daquele ano. O STF decidiu sob clara pressão do então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, claro fiador da candidatura Bolsonaro junto aos meios militares. O general publicou numa rede social texto sugerindo reações militares caso Lula permanecesse solto. O próprio Villas Bôas afirmou que tinha calculado intervir caso o STF tivesse decidido de modo contrário.

Alguém tem dúvida de que as eleições presidenciais de 2022 se realizarão novamente sob tutela militar? Há ainda um agravante: mais que representarem as Forças Armadas e um suposto interesse nacional, a caserna transformou-se, na melhor das hipóteses, em sócia do bolsonarismo, para não dizer que foram cooptadas por esse movimento político.

Colocando as coisas em termos mais claros, os militares vão permitir um terceiro mandato de Lula? Pessoalmente, acho o ex-presidente um péssimo candidato. Ainda que seja melhor que Bolsonaro, o petista é um exemplo da nossa incapacidade de renovar nossas lideranças e mediocridade como país sem rumo num cenário internacional que não admite amadorismos.

Vejamos: a presidência lulista pavimentou o caminho para a ascensão dos setores que hoje sustentam Bolsonaro — militares que servem ao atual presidente ganharam projeção com a desastrada missão de paz ao Haiti, o agronegócio ganhou força com a política externa lulista (que deu de barato que a China suplantaria os Estados Unidos como potência hegemônica), e líderes evangélicos ganharam projeção política exagerada.

Não nos esqueçamos que o vice-presidente de Lula, o empresário industrial José Alencar, chegou a pertencer ao antecessor do Republicanos, partido que é uma extensão da Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, cujos interesses particulares em Angola acabam de ser defendidos pelo atual vice, general Hamilton Mourão.

Dito isso, nada impede hoje que Lula concorra à presidência. Gostaria que, como Bolsonaro, ele fosse derrotado no voto. Aqueles que não querem nenhum dos dois no Planalto têm 15 meses para construir uma alternativa. Isso é política. O resto é golpismo, ainda que não declarado.

Assim, ainda que Mourão tenha assegurado a realização de eleições, paira no ar a dúvida: os resultados serão reconhecidos pelos militares? O que eles farão caso Bolsonaro mude de ideia novamente e, caso seja derrotado, não transmita o cargo ao vencedor? Se este for Lula, como indica o cenário atual, ele governará sob a ameaça constante de golpe?

Nesse sentido, cabe lembrar que, muito provavelmente, Villas Bôas, Braga Netto e Bolsonaro não se veem como golpistas. O óbvio precisa ser dito num país que, sob tutela militar, ignora a espada rente ao pescoço para bradar, tal como um rei nu, que as instituições funcionam. Para os militares bolsonaristas e seu chefe, suas bravatas encontram eco no artigo 142 da Constituição. Conforme já abordei aqui reiteradas vezes, sua redação é a base para que os atuais ocupantes do poder sintam-se à vontade para nos ameaçar sem quaisquer pudores

Caros repórteres, caros políticos: perguntem a Braga Netto e aos comandantes militares qual é a sua interpretação sobre o referido artigo, que menciona o papel das Forças Armadas na manutenção da lei e da ordem sob a iniciativa de qualquer dos poderes constitucionais — ou seja, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O mesmo artigo, porém, cita que tais forças estão sob a autoridade suprema do presidente da República.

Quem pode impedir um golpe quando o próprio presidente e o topo da hierarquia militar abraçam, implicitamente, uma interpretação da Constituição que lhes garante poder absoluto? Temo que outubro de 2022 nos receba vestido de vermelho — não a cor dos petistas que buscam voltar ao poder por meio de Lula, mas o rubro tom que corre nas veias que irrigam as mãos calejadas e suadas do povo brasileiro.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e leciona na FAAP e em cursos MBA da FGV.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL