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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Contra extorsão bolsonarista, ruas devem encarnar perseverança olímpica

A atriz Bianca Bin participou dos protestos contra Bolsonaro no Rio de Janeiro - Reprodução/Instagram
A atriz Bianca Bin participou dos protestos contra Bolsonaro no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/Instagram
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

24/07/2021 10h32

* Cesar Calejon

Por conta de uma convergência bastante específica de fatores históricos e pontuais, conforme essa coluna abordou em diversas publicações ao longo dos últimos dois anos e meio, o bolsonarismo ascendeu como proposta sociopolítica de forma a sequestrar e extorquir, paulatinamente, o Estado brasileiro a partir de 2019.

Enquanto boa parte do país voltou a sentir fome e tem problemas para pagar as contas mais elementares, o presidente Bolsonaro segue cooptando, chantageando e tentando intimidar as instituições nacionais frente à iminente derrota que se desenha para 2022. Neste sábado (24), as ruas dizem basta e os Jogos Olímpicos não podem abafar essa voz.

Segundo o artigo 158 do Código Penal, a extorsão é o crime caracterizado pelo ato de "constranger alguém a fazer, tolerar ou deixar de fazer algo, sob violência ou grave ameaça, com objetivo de obter vantagem indevida". Via de regra, esse tipo de crime exige algum "ato ou colaboração" por parte das vítimas. Nesse caso, os brasileiros.

Um exemplo muito claro desse processo pode ser verificado na tentativa de coagir o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que deveria representar a população nacional, a dar andamento ao projeto do voto impresso.

Ministro da Defesa de Bolsonaro, Walter Braga Netto utilizou uma figura conhecida em Brasília para mandar o recado de que as eleições do ano que vem somente serão realizadas caso os votos sejam impressos. O próprio presidente verbalizou tal impropério em algumas ocasiões públicas, recentemente.

Contudo, a extorsão que hoje as ruas batalham para encerrar não é novidade. Auto-identificado como o político "antissistema", que seria capaz de moralizar o cenário político nacional e acabar com as "mamatas" parlamentares, Jair Bolsonaro caiu definitivamente no colo do "centrão" ao entregar o comando da Casa Civil ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Agora responsável por toda a articulação da base governista, Nogueira gastou mais de R$ 580 mil somente com o combustível do seu avião particular ao longo do seu atual mandato (entre janeiro de 2019 e julho de 2021). Dinheiro dos contribuintes brasileiros, vale ressaltar.

Dessa forma, a extorsão do "centrão" para manter o bolsonarismo no poder e, consequentemente, contra o povo brasileiro, vem se agravando na mesma proporção em que se fecha o cerco da CPI para investigar e punir os diversos crimes cometidos pela atual gestão federal durante a pandemia entre os anos de 2020 e 2021.

Por exemplo, segundo dados publicados pelo Siga Brasil, do Senado Federal, o volume de emendas parlamentares indicadas pelo Congresso Nacional este ano é de R$ 48,8 bilhões, recorde e muito acima do valor de todos os anos anteriores. Ano pandêmico e de extrema dificuldade financeira para a maior parte dos brasileiros, vale salientar novamente.

Outro exemplo: o fundo eleitoral atingiu a obscena marca de R$ 5,7 bilhões, maior valor da história. Nos últimos dias, Bolsonaro disse que "o governo não tem tantos poderes no Brasil. A palavra final dessa proposta caberá ao parlamento brasileiro, porque o Congresso (Nacional) poderá derrubar esse veto", em entrevista à Rádio Grande FM, de Dourados, Mato Grosso do Sul.

Além disso, multiplicam-se casos de corrupção (rachadinha, vacinoduto etc.), agressões e prisões arbitrárias de opositores ao bolsonarismo. Em alguns casos, considerando até alguns antigos aliados — ou aliadas — que supostamente sabem demais sobre todos os tipos de farsas envolvendo figuras centrais da administração federal.

O fato é que, efetivamente, a maior parcela do povo brasileiro, enlutada pela perda de quase 550 mil vidas para a situação calamitosa que foi criada devido à interseção do bolsonarismo com a covid-19, com dificuldade para se alimentar adequadamente e para manter as contas em dia, pretende dar um basta à gestão bolsonarista, e os novos protestos deste sábado são mais um sinal evidente disso.

Nesse sentido, os Jogos Olímpicos, que representam a perseverança e traduzem tudo o que o ser humano é capaz de produzir para se emancipar, devem servir de inspiração para que a luta popular ganhe ainda mais ressonância e o brasileiro conquiste, de fato, a única medalha de ouro que realmente importa ao Brasil nesse momento: o fim da extorsão bolsonarista.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL