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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Demanda por voto impresso revela a fraude de Bolsonaro como presidente

Presidente Jair Bolsonaro - Isac Nóbrega/PR
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Isac Nóbrega/PR
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

04/08/2021 21h30

* Warley Alves Gomes

"Ato de má fé que tem por objetivo fraudar ou ludibriar alguém", "mentira ardilosa", "logro", "ação ilícita, desonesta". Essas são algumas definições encontradas em diferentes dicionários para a palavra "fraude", que o presidente Jair Bolsonaro insiste em associar ao processo eleitoral via urnas eletrônicas. Visto que nunca foram comprovadas quaisquer irregularidades eleitorais desde que o voto eletrônico foi adotado, tais definições parecem se encaixar melhor nas condutas do próprio presidente, quem, desde que assumiu a cadeira, mente todos os dias para a população.

Foi-se o tempo de se ter paciência com Bolsonaro. Na altura do campeonato, seu comportamento nocivo pode ser encaixado em apenas duas classificações: ou é uma questão patológica de mitomania ou caso de má-fé. Eu apostaria na segunda, embora não descarte uma considerável dose da primeira. Já conheci mitomaníacos e embora eles mentissem sem qualquer compromisso com a razoabilidade — ou mesmo com as leis da física —, não posso dizer que eram perversos. Tal parece ser o caso do presidente.

Dizer que Bolsonaro é perverso parece uma redundância depois de suas reiteradas falas acerca da pandemia de covid-19, nas quais o presidente demonstrou uma falta de empatia "digna" das maiores autoridades em extermínio da História, como Adolf Hitler e François Duvalier — mais conhecido como Papa Doc, ditador do Haiti entre 1957 e 1971 —, mas no caso presente quero ressaltar um elemento, menos óbvio, dessa perversidade: sua relação com o narcisismo.

Freud, em seu texto Introdução ao narcisismo, publicado em 1914, associava a perversão ao narcisismo, como resultado de um desenvolvimento libidinal perturbado, já na primeira infância. Vou poupar o leitor da imaginação de prováveis complexos sexuais do presidente, dos quais nada sabemos, mas a questão narcísica é evidente: Bolsonaro quer um país a sua imagem e semelhança, pois não sabe ver outra coisa a não ser si mesmo. Mesmo seus filhos, no imaginário perturbado do presidente, não parecem ser outra coisa a não ser a continuação de sua pessoa.

O narcisismo de Bolsonaro é o motor que moveu as manifestações a favor do voto impresso "auditável" no último domingo (1). Mais uma vez, sem qualquer compromisso com a responsabilidade exigida por seu cargo, o presidente, ao invés de reforçar a democracia, colocou-a em xeque, pondo em dúvida a realização das eleições. O que fundamenta esse discurso é a não aceitação de submissão de Bolsonaro às instituições as quais ele deveria servir, pois, em uma República democrática, o presidente está sujeito às leis e instituições, e não o contrário. Mas ele nunca se importou muito com isso, pois tudo que vê é sua imagem no espelho. Para Bolsonaro não existe país se este não serve a sua vontade.

As motociatas e as manifestações de apoio ao presidente podem ser interpretadas de muitas maneiras, mas elas sempre vão retornar a um sentido primordial — e primitivo — de idolatria ao chefe da tribo. Isso do lado de quem vai a estes festivais bizarros. Do ponto de vista do presidente, essa idolatria é a celebração de si mesmo, de seu poder. Não há nada de patriotismo ali, e arrisco dizer que mesmo os apoiadores de Bolsonaro são vistos pelo presidente como meras ramificações de sua vontade. Para Bolsonaro, tudo se resume a ele. O que está fora disso — os "vermelhos", os homossexuais, os "inimigos", as mulheres — deve ser submetido ao seu desejo ou eliminados. Se existe Brasil para Bolsonaro, este nada mais pode ser que seu espelho.

Mas há um outro ponto a ser evidenciado quando se trata da insistência do presidente pelo voto impresso: para Bolsonaro, sua implantação é menos importante que o potencial devastador de sua demanda. Ele sabe que há poucas chances desse projeto ser aprovado pelo Legislativo, mas seu objetivo com isso é o mesmo da maioria de suas ações e falas: causar o caos. Animal acuado é animal perigoso e a cobra prepara seu bote, cheia de veneno.

No plano político, as notícias não são nada boas para o presidente: com índices de rejeição chegando a 62%, segue perdendo para seu maior rival, o ex-presidente Lula, nas pesquisas e agora se vê diante de uma nova crise frente ao Poder Judiciário, com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, incluindo Bolsonaro como investigado no inquérito das fake news por ataque às urnas.

O episódio acirrou as tensões entre Bolsonaro e Luís Roberto Barroso, presidente do TSE. O ministro cruzou a fronteira entre a crítica contundente e medidas efetivas contra as bravatas do presidente, o que já vinha sendo anunciado desde a vexatória "live" de Bolsonaro na semana passada, quando, após muito afrontar o sistema eleitoral, o presidente acabou confessando que não tinha nenhuma prova de que o voto eletrônico fosse fraudulento.

Barroso acertou ao comparar as atitudes de Trump às de Bolsonaro, quando ambos buscam desacreditar as eleições de seus respectivos países. A diferença é que Trump, o maior ídolo de Bolsonaro, o fez em relação ao voto impresso, enquanto o presidente brasileiro ataca o voto eletrônico. Isso reforça nossa hipótese: não importa o sistema eleitoral, o que interessa é desacreditá-lo. Bolsonaro sabe que suas chances de ganhar nas urnas vem diminuindo, então o que lhe sobra é atacar o sistema que o elegeu.

Volto ao tema do narcisismo. Seja Barroso, Lula, o "centrão", a CPI, o Legislativo, o Judiciário, as "minorias", todos são agentes que se adequam à lente de Bolsonaro de acordo com sua imagem no espelho. Se não podem ser aglutinados pelo presidente, devem ser expelidos de seu sistema. Os seus inimigos são todos aqueles que não podem ser extensões de seu desejo, de sua personalidade. Bolsonaro parece incapaz de empatia, o que dá luz a uma paranoia que relaciona toda alteridade a uma possível ameaça. Em seu Brasil imaginário, não cabe nada que não seja ele mesmo.

Ao acusar o sistema de fraudulento, Bolsonaro não revela nada mais que sua própria atuação como presidente, conduzida sob má-fé e caracterizada pelo logro. Após quatro anos em campanha, o capitão reformado é um sucesso como candidato, mas uma fraude como presidente.

* Warley Alves Gomes é mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais - Campus Avançado Arcos. Também se dedica à escrita literária, tendo estreado com a publicação do romance O Vosso Reino, uma distopia realista que remete ao Brasil contemporâneo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL