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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Manifesto pró-democracia flerta com fracasso ao ignorar base bolsonarista

24.set.1996 - Funcionários do TSE preparam urnas eletrônicas para as eleições de 1996, em São Paulo, a primeira a usar o sistema no Brasil - Lalo de Almeida/Folhapress
24.set.1996 - Funcionários do TSE preparam urnas eletrônicas para as eleições de 1996, em São Paulo, a primeira a usar o sistema no Brasil Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

05/08/2021 15h03

* Vinícius Rodrigues Vieira

É louvável a iniciativa de empresários e intelectuais de publicar o manifesto "Eleições serão respeitadas". Porém, ao ver o nome dos signatários iniciais, não encontrei o Brasil, mas um círculo (bastante respeitável) de cidadãos que circulam e/ou habitam os endereços que por anos disseram representar a pátria muito embora tenham sido desde sempre uma ínfima fração dela.

Como argumentei em artigo co-escrito com Rafael Burgos, editor dessa coluna, trata-se do eixo formado pela Zona Oeste de São Paulo e Zona Sul do Rio. São, obviamente, pessoas que, de longe, estão na base social que elegeu Jair Bolsonaro presidente da República. Porém, o manifesto deve infelizmente fazer nada mais que cócegas nos reiterados ímpetos golpistas do chefe de Estado.

Isso porque não se tira um presidente do poder sem atrair para o bloco histórico a sucedê-lo parte significativa de seus antigos apoiadores. Estou falando dos segmentos sociais que levaram Bolsonaro ao Planalto, parte dos quais já rompeu com o presidente, mas está longe de cair de amores pela alternativa de poder que se avizinha — Lula e o PT — e tampouco tem um candidato na quiçá natimorta terceira via.

Acadêmicos, jornalistas e pesos-pesados do PIB são os abaixo-assinados. Por falar em PIB, não vi na lista ninguém diretamente ligado ao agronegócio, segmento que, ao que tudo indica, permance fechado com Bolsonaro. Tampouco vi lideranças evangélicas — pelo menos aquelas que têm peso entre a massa. Militares dissidentes do bolsonarismo, como o generais Rêgo Barros e Santos Cruz, também não estão na lista. Como derrotar o inimigo sem aliar-se a seus velhos amigos, tal como os defini em artigo publicado no fim de junho nesta coluna?

Em reação ao artigo que escrevi com Burgos, muitos comentaram nas redes sociais que, portanto, não há o que fazer contra Bolsonaro. Discordo e jamais argumentaria isso. Para derrubar o presidente, precisamos de uma ampla coalizão nacional que conte com nomes de peso do agronegócio, das denominações evangélicas e dos militares da reserva.

Sem esses três segmentos, continuaremos a assistir uma perigosa escalada que apenas tende aumentar com a inclusão do presidente entre os investigados no inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal — bastante questionável desde o ponto de vista jurídico por ter sido aberto pela própria Corte para apurar ameaças contra membros seus.

Não é, portanto, sem nexo que Bolsonaro ridiculariza a investigação, tendo dito nesta quinta-feira a apoiadores: "vão mandar quem aqui? PF [Polícia Federal] ou Forças Armadas?". Na mesma ocasião, o presidente rotulou o inquérito contra si de "ditadura da toga". Não queria usar um lugar-comum, mas, neste momento, ele veste-se de Stalin. Tal e qual o ditador comunista teria perguntado a certa altura "quantas divisões tem o Papa" para ridicularizar o poder da Igreja, o presidente questiona o mesmo acerca de seus inimigos.

Para piorar a conjuntura, o governo americano parece estar aliado informalmente a Bolsonaro, como parte da estratégia de reduzir a influência chinesa na América Latina. Sinais disso já estavam evidentes na visita fora da agenda do chefe da CIA, William Joseph Burns, a Brasília e acabam de ser reforçados pela reunião que o presidente realizou com o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, nesta quinta-feira (5).

Hoje até mesmo as paredes do Alvorada e do Planalto perguntam: quantas divisões terá a democracia? Temo que a resposta seja: nenhuma.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e leciona na FAAP e em cursos MBA da FGV.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL