PUBLICIDADE
Topo

Entendendo Bolsonaro

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Governadores erram ao buscar diálogo com Bolsonaro

Reunião dos governadores está sendo realizada no Palácio do Buriti, sede do governo de Brasília. - Lucas Valença/UOL
Reunião dos governadores está sendo realizada no Palácio do Buriti, sede do governo de Brasília. Imagem: Lucas Valença/UOL
Conteúdo exclusivo para assinantes
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

23/08/2021 18h37

* Vinícius Rodrigues Vieira

Não se negocia com arruaceiros ou fascistas. Quem sai das quatro linhas da Constituição deve ser enquadrado dentro delas não com a política, mas com a Justiça. Na esperança de resolver a crise institucional lançada por Jair Bolsonaro, os governadores dos Estados e do Distrito Federal que se dispõem a dialogar com o presidente parecem desconhecer casos em que, na tentativa de apaziguar protoditadores, as poucas instituições funcionais de democracias em declínio acabaram apenas por se enfraquecer.

Sem maiores detalhes, lembremos das concessões que o establishment político alemão fez a Adolf Hitler, na esperança de ele ser controlado. Mais recentemente, nos Estados Unidos, o ídolo-mor de Jair Bolsonaro, o ex-presidente Donald Trump, esticou a corda ao extremo, a ponto de promover a invasão ao Capitólio durante a oficialização de sua derrota para Joe Biden na campanha de 2020. Um golpe poderia ter sido bem-sucedido em Washington caso não houvesse um comando militar comprometido com a Constituição americana.

No Brasil, relatos de bastidor indicam que o Alto Aomando do Exército rechaça apoio a qualquer aventura golpista. Mais obscuro ainda é o comprometimento dos altos oficiais da Aeronáutica e Marinha com as diatribes de Bolsonaro. Os comandantes dessas forças parecem ter sido cooptados pelo presidente. As polícias militares estaduais, porém, parecem ter parido o que faltava para o golpe anunciado ganhar corpo. Não basta afastar coronéis e demais PMs golpistas, tal como o governador João Doria fez em São Paulo. É necessário prendê-los e processá-los nos termos da lei.

Aos governadores, portanto, restaria somar esforços aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Junto a lideranças de centro e esquerda da Câmara, são esses os personagens mais comprometidos com a preservação do que sobrou do edifício constitucional brasileiro, cuja legitimidade foi demolida pacientemente ao longo do tempo pela corrupção endêmica para, apenas recentemente, desmoronar com as marretadas autoritárias de Bolsonaro et caterva.

A liberdade de expressão, confundida propositalmente com a liberdade de cometer crimes, tornou-se o último refúgio dos canalhas que buscam implantar um regime de exceção, miliciano, no qual aquilo que restar do Estado será dividido entre senhores da guerrilha bolsonarista, tais como militares prestes a se amotinar, e líderes religiosos que seguem firmes com o governo.

Eleitos pela vontade popular, mas sob o manto rasgado da Constituição, os governadores deveriam buscar remendá-la em vez de entregá-la àquele que busca destruí-la. Como já tinha antecipado neste espaço há três semanas, Bolsonaro busca o martírio. Conversar com ele, portanto, reforça sua situação de vítima e anima a militância golpista para o 7 de Setembro.

A crise é o presidente e será apenas estancada quando ele deixar o poder. Por isso, cabe aos governadores aproveitar suas pontes com o mercado financeiro e o agronegócio para dar vazão ao processo de impeachment. Como escrevi à luz do que se passou nos Estados Unidos em janeiro, vai sair mais barato que tolerar fascistas ou dialogar com eles.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e leciona na FAAP e em cursos MBA da FGV.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL