PUBLICIDADE
Topo

Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Presença de Bolsonaro em ato é irresponsável e tem potencial desastroso

6.set.2021 - Sem oposição da PM do Distrito Federal, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro tomam Esplanada dos Ministérios e chegam perto do Congresso Nacional - ANTONIO MOLINA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
6.set.2021 - Sem oposição da PM do Distrito Federal, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro tomam Esplanada dos Ministérios e chegam perto do Congresso Nacional Imagem: ANTONIO MOLINA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Conteúdo exclusivo para assinantes
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

07/09/2021 09h15

* Cesar Calejon

Abandonado pela maioria dos grupos sociais e forças que o ajudaram a ascender em 2018, o bolsonarismo encontra-se absolutamente debilitado, equilibrando o pouquíssimo capital político que ainda lhe resta com base em frações do dogma religioso, do militarismo golpista e das alas mais fisiologistas e elitistas das políticas social e institucional brasileiras.

Nesse contexto, Bolsonaro busca inflamar os atos desta terça (7) como a sua última grande cartada considerando dois objetivos fundamentais para o seu futuro e o de sua família: fazer a manutenção dos seus poderes e evitar a prisão que o espera assim que ele falhar nesse processo.

As demandas bolsonaristas durante o Dia da Independência demonstram esses dois aspectos de forma muito enfática: o presidente afirma que as mobilizações a seu favor têm a intenção clara de reivindicar a "liberdade de expressão e o voto impresso", segundo as suas próprias palavras. Ironicamente, ambas pretendem tornar o Brasil mais frágil e dependente do que em qualquer outro momento da nossa história republicana.

Como sabemos, ao demandar "liberdade de expressão", os bolsonaristas querem continuar explorando o ódio, o medo e os elitismo histórico-culturais como plataformas para fazer política sem qualquer moderação, assim como lograram em 2018.

Ao bradar pelo retorno do arcaico "voto impresso", Jair e o seu secto pretendem submeter o sufrágio universal à tutela dos milicianos que o cercam e dos métodos que remontam aos processos mais agressivos do voto de cabresto.

Com essa agenda em mente, Bolsonaro deverá comparecer aos dois maiores palcos populares da vida pública nacional: a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e a Avenida Paulista, em São Paulo.

Nessa ocasião, o potencial desses encontros é extremamente desastroso e irresponsável, como absolutamente tudo o que Jair Bolsonaro fez não somente desde que assumiu a Presidência da República, mas a partir do momento que iniciou a sua vida parlamentar, para todos os efeitos.

Isso porque, ao contrário do que estava estabelecido no cenário político nacional há três anos, Bolsonaro hoje não conta com o apoio da maior parte da população, enfrenta a maior rejeição do seu governo e foi o principal responsável direto por catalisar a sindemia que mergulhou o país em uma tempestade perfeita: a soma de calamidades nas searas sanitária, política, econômica e social, conforme mencionado em artigos prévios publicados nessa coluna.

Imagine o que pode acontecer quando extensos grupos de trabalhadores, cansados de pagar mais de R$ 6 no litro da gasolina, sem qualquer perspectiva de melhoria no curto prazo e absolutamente magoados pelas perdas recentes que lhes foram imputadas pela covid-19, estiverem confrontados com grupos de "classe média", militares golpistas e extremistas de última hora armados até os dentes e dispostos a matar para defender o seu "mito".

Tragédia anunciada, caso essas parcelas da população efetivamente se encontrem em grandes números.

Em meio a todo esse imbróglio, o único parâmetro que realmente não será celebrado na data de hoje é, precisamente, a Independência do Brasil. Sob Bolsonaro, nos restaram as ruínas e uma nação fragmentada, frágil e arrasada.

Para sermos capazes de contemplar algum nível de independência genuína, é absolutamente vital fomentarmos o pensamento crítico do povo brasileiro, o que não significa, de nenhuma forma, expressar qualquer tipo de inclinação ideológica ou militância político-partidária.

Significa, sim, ser capaz de entender as dinâmicas que regem o funcionamento da República e da sociedade na qual se está inserido para ser capaz de tomar decisões conscientes, ainda que essas tenham um caráter notoriamente conservador, como de fato acontece com alguma frequência, infelizmente.

Apesar disso, quando esse processo de pensamento crítico é estabelecido com integralidade, o mais comum é que esse conhecimento seja aplicado no sentido de emancipar as camadas mais empobrecidas e que vêm sendo historicamente usurpadas no país. Afinal, é de independência que estamos falando e esse é o valor que a data de hoje celebra, ou deveria celebrar.

Isso, contudo, o bolsonarismo e as classes dominantes do Brasil não podem tolerar. Bolsonaro, mais do que qualquer outra figura política, precisa manter a maior parte da população submetida ao ódio, à ignorância e ao medo que caracterizam a adesão ao seu projeto político.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL