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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na ONU, Bolsonaro deve protagonizar 7 a 1 diplomático

Bolsonaro come pizza com comitiva durante viagem à Nova York, onde participa de Assembleia Geral da ONU - @gilsonmachadoneto no Instagram
Bolsonaro come pizza com comitiva durante viagem à Nova York, onde participa de Assembleia Geral da ONU Imagem: @gilsonmachadoneto no Instagram
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

20/09/2021 10h23

* Vinícius Rodrigues Vieira

Conforme manda a tradição, o presidente da República fará amanhã (21) a abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O que esperar desta terça-feira além da vergonha de expor ao mundo um chefe de Estado como Jair Bolsonaro? Se estivéssemos falando de um jogo de futebol, entraríamos em campo esperando tomar uma goleada, tal como o fatídico 7 a 1 que a seleção — cuja camisa foi capturada pelo bolsonarismo — sofreu nas semifinais da Copa de 2014 ao enfrentar a Alemanha.

No jogo político, porém, a goleada que o Brasil sofre tem uma peculiaridade: os sete gols que sofremos são contra. Isso porque, em última instância, quem colocou Bolsonaro no poder (ou seja, em campo) foi o povo, ainda que em circunstâncias discutíveis, entre elas o impedimento de Lula e a ação de juízes parciais e militares que, de modo análogo aos cartolas, agiram nos bastidores para melar o jogo democrático.

"Na próxima terça-feira, estarei na ONU, participando com um discurso inicial daquele evento. Podem ter certeza, lá teremos verdades, realidade do que é o nosso Brasil e do que nós representamos verdadeiramente para o mundo", afirmou o presidente na última sexta-feira, ainda antes do embarque para Nova York, onde fica a sede da ONU. A realidade paralela de Bolsonaro leva-o a acreditar que merece a Bola de Ouro enquanto não devia sequer poder jogar como profissional -- ou seja, participar da política institucional.

O primeiro tento contra a meta canarinha é o fato de Bolsonaro viajar sem tomar vacina contra a covid. A própria ONU relativizou seu protocolo inicialmente imposto aos participantes da assembleia e desistiu de exigir comprovante. Tudo indica que a recusa do presidente em se imunizar levou-o junto com sua comitiva a procurar alternativas a restaurantes para o jantar. Acabaram comendo pizza em pé na rua. Há quem veja nisso humildade. Quando se trata de um chefe de Estado que abrirá a assembleia, é apenas demagogia barata.

O segundo gol contra é a gestão da covid. Como todo bom perna-de-pau, o jogador Jair culpará os adversários e o vírus pelas quase 600 mil mortes causadas pela gripezinha. Para o craque da ultra-direita, não entram na conta a falta de preparo -- não físico, mas intelectual e moral -- e a ausência de qualquer esquema tático.

Para ampliar a derrota de lavada, o presidente deve falar que preserva a Amazônia, não obstante todas as evidências ao contrário. A crescente crise hídrica decorre do desmatamento. O desrespeito aos povos originários também fica convenientemente fora da conta.

Por falar neles, o quarto gol contra deve ser feito de carrinho contra os direitos humanos, mas especificamente o das mulheres. Em nome do combate à chamada ideologia de gênero, Bolsonaro falará algo sobre a cristofobia ou similares, numa referência ao suposto desrespeito a valores conservadores-religiosos que a igualdade de gênero implicaria.

Na quinta vez em que a bola entra no gol, nosso pseudocraque vai equiparar a liberdade ao direito de propagar mentiras, muito embora a democracia esteja sob o cerco de gente como ele e seus aspones, que não se furtam a fabricar uma realidade paralela para satisfazer sua malta de apoiadores.

Desgraça pouca é bobagem, diz o ditado. Portanto, Bolsonaro também deve falar sobre uma suposta pujança da economia em meio a quase 15 milhões de desempregados e iminente apagão elétrico. Mesmo as privatizações, vistas pelo mercado que já abandonou o estádio, patinam, muito embora devem ser lembradas sob a rubrica dos investimentos. De fato, o presidente investe na ruína nacional aos olhos de uma elite vestida com a camisa da CBF. É o sexto gol contra.

Para fechar a goleada contra, o presidente amador deve mandar um "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" para a claque. Deus, porém, está no meio de nós, tal como dito durante as missas católicas.

O único gol a favor que Bolsonaro deve fazer em seu discurso é fruto de uma bola azeitada pelos pés de um meio de campo que não se faz de rogado e que, na raça, luta até o fim do jogo ainda que exausto: o povo, que aderiu à vacinação em massa, como nos lembra Ian Bremmer, um dos analistas políticos mais renomados do mundo.

Se a diplomacia e a política em geral assemelham-se a um jogo, para virarmos o placar não adianta substituir Bolsonaro por pretensos ex-craques que, embora tenham preparo físico, possuem esquema tático atrasado. De todo modo, nesta Copa/Assembleia Geral, a derrota perante o mundo é inevitável graças ao nada charmoso veneno que destila o camisa zero do Brasil. Bolsonaro deixará o estádio da política tal como chegou ao hotel em Nova York — pela porta dos fundos.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e leciona na FAAP e em cursos MBA da FGV.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL