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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tardios, atos contra Bolsonaro esbarram em disputa eleitoral

Imagem do presidente brasileiro Jair Bolsonaro é queimada durante protestos exigindo sua renúncia, em São Paulo, Brasil, em 2 de outubro de 2021. Protestos no Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Brasília, além de uma centena de cidades, foram convocados pela ?Campanha Nacional "Fora com o Bolsonaro", apoiada por uma dezena de partidos de esquerda, centrais sindicais e o grupo Direitos Já! que reúne lideranças de 19 bancos. - Nelson Almeida/AFP
Imagem do presidente brasileiro Jair Bolsonaro é queimada durante protestos exigindo sua renúncia, em São Paulo, Brasil, em 2 de outubro de 2021. Protestos no Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Brasília, além de uma centena de cidades, foram convocados pela ?Campanha Nacional "Fora com o Bolsonaro", apoiada por uma dezena de partidos de esquerda, centrais sindicais e o grupo Direitos Já! que reúne lideranças de 19 bancos. Imagem: Nelson Almeida/AFP
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

03/10/2021 20h14

* Warley Alves Gomes

Olhando o dicionário Aurélio, me deparo com dois significados para a palavra "política". O primeiro que surge é o mais direto e, talvez, superficial: "Ciência dos governos nos povos". Em seguida, encontro um sentido figurado, mais interessante e condizente com a política brasileira: "maneira hábil de agir; astúcia". Na política, muitas vezes se diz o contrário daquilo que se deseja fazer. E esse parece ser o resumo da ópera das manifestações do último sábado (2) em prol do "Fora Bolsonaro".

É certo que a totalidade dos que foram às ruas querem o atual presidente fora do Planalto, mas a incógnita é: quando? Para alguns, a resposta é "imediatamente". Para outros, esse prazo pode se estender um pouco mais, até as eleições de 2022. Fato é que as manifestações foram muito tardias, ocorrendo quase um mês após os delírios golpistas do 7 de Setembro de Jair Bolsonaro.

É verdade, marcar um grande ato, que unifique distintas lideranças, dá trabalho, mas 30 dias são um tempo que as forças democráticas não dispõem, quando se trata de tirar do poder um presidente suspeito de ter cometido vários crimes. Ainda, considerando a enorme previsibilidade do tom golpista do último 7 de Setembro, convocado fartamente nas redes bolsonaristas nas semanas que antecederam o ato, a resposta mostrou-se tardia. Marcar manifestações logo em seguida, como diria um político mineiro, "dava pra fazer".

Mas não fizeram. Ou melhor, talvez tenham feito muito tarde, depois que o próprio Bolsonaro, em um cambalacho surpreendente, tirou do bolso uma carta escrita pelo ex-presidente Temer e anunciou que colocaria um freio no seu golpismo. Acredite quem quiser (porque poder não se pode), mas a verdade é que um presidente farsesco tinha mesmo que redigir uma carta escrita por outra pessoa. Porém, mesmo patético, o fato de Bolsonaro ter amenizado sua postura caiu como um balde de água fria em qualquer tentativa de impeachment.

Ainda assim, esperou-se um contra-ataque dos partidos democráticos em prol de uma frente ampla pela democracia, a ser concretizada em uma grande manifestação pelo impeachment. Ao menos, essa era a resposta moral necessária. Mas Nicolau Maquiavel, sábio autor do Príncipe, já tinha dito que moral e política muitas vezes não andam juntas. Para a política, sempre o sentido figurado: "maneira hábil de agir; astúcia". Negociatas, cochichos e, principalmente, muito cálculo político, nos levaram ao 2 de outubro.

Constrangimento de alguns, autoengano de outros e frustração de muitos. Ao que tudo indica, essa mistura de sentimentos acompanhará as percepções a respeito dos atos do último sábado. Tendo em vista as distintas frentes, cada uma delas com suas perspectivas, interesses e expectativas, não poderia ser diferente. Assim, o militante cego se autoengana, o militante sério se constrange e os que pretendem analisar a política com seriedade se frustram.

O PT garante querer o impeachment do presidente e, de fato, fez declarações nesse sentido. No entanto, as desconfianças em torno das reais intenções do partido são fortes e devem ser consideradas. Por outro lado, a tentativa de emplacar uma "3ª via" abriu uma corrida eleitoral precipitada que fez com que candidatos desesperados passassem a apoiar o impeachment de Bolsonaro.

Dentre os representantes dessa corrente, podemos mencionar Ciro Gomes (PDT), João Doria e Eduardo Leite (ambos do PSDB) e João Amoedo (Novo). No meio desse "balaio de gato", encontraram-se políticos mais razoáveis, que participaram com interesses políticos menos suspeitos, como Randolfe Rodrigues (Rede) e Guilherme Boulos (PSOL).

É verdade que os atos mobilizaram muita gente. Milhares de pessoas foram às ruas. Mas dessa vez não se trata de quantidade, mas de sentido. Aos que pretendiam um ato capaz de balançar as estruturas do governo e impulsionar um impeachment, o gosto não pode ser outro que não o de uma estranha derrota. Aos que estão preparando o tabuleiro para 2022, a situação é ainda mais complexa.

As manifestações de 2 de outubro mostraram que as possibilidades de uma frente ampla democrática contra Bolsonaro são quase nulas, e a hostilidade da militância petista diante de Ciro Gomes o exemplifica. Fernando Haddad, um dos membros mais civilizados do PT, criticou o ataque dos militantes, mas a verdade é que em cachorro louco não se põe coleira. A não ser a do partido.

Por outro lado, o que a "3ª via" busca no impeachment de Bolsonaro é se tornar a 2ª via e captar os votos antipetistas, derrotando Lula em 2022. Cenário difícil, pois, se a palavra "astúcia" pudesse se tornar uma pessoa, essa pessoa seria o Lula. Não deu as caras nas manifestações, mas em jantares fechados vai costurando alianças com caciques políticos.

Tardios, os atos de 2 de outubro provavelmente não trarão nenhuma mudança nos rumos da política nacional. Analisando com sobriedade, o que ficou no ar foi mesmo uma sensação de vazio. É claro, existe a indignação contra um governo marcado pela corrupção e responsável pela morte de milhares de pessoas.

Essa indignação é mais que justa e as ruas deram vazão a ela. Mas não resta nada muito além disso. Quem queria mudanças deu de cara com um cenário fragmentado, marcado pelos mais distintos interesses e com uma tentativa simbólica de frente ampla que não é nada mais que um adiantado palanque para 2022.

* Warley Alves Gomes é mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais - Campus Avançado Arcos. Também se dedica à escrita literária, tendo estreado com a publicação do romance O Vosso Reino, uma distopia realista que remete ao Brasil contemporâneo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL